O homem que salvou bebês prematuros

Quem diria que shows de anomalias poderiam financiar uma revolução da medicina que, ainda hoje, salva inúmeros bebês que nascem antes das 40 semanas de praxe!

Por Morgana Gomes | Foto: media-1.britannica.com | Adaptação web Caroline Svitras

No início do século 20, feiras de aberrações atraíam multidões de curiosos tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Embora elas reunissem engolidores de espadas, mulheres tatuadas e dançarinas extravagantes, por quase 40 anos, bebês prematuros também foram expostos em urnas de cristal. De um modo geral, os espetáculos deveriam ser bem grotescos para os padrões atuais. Mas no que se refere aos recém-nascidos, eles garantiram a sobrevivência de muitas crianças e também a evolução da medicina.

 

Isso porque, até o início do século passado, as incubadoras neonatais que surgiram na França no ano de 1878, mesmo após serem instaladas na Maternidade de Paris, momento em que fizeram cair o índice de mortes de bebês de até 200 g de 66% para 38%, de um modo incompreensível, ainda não eram aceitas em muitos hospitais, principalmente nos Estados Unidos. Em consequência, muitos pais que tinham seus filhos desenganados entravam em desespero.

 

O doutor Martin Arthur Couney, por volta de 1940, com um dos bebês prematuros que salvou | Foto: elkharttruth.com

Diante desse cenário que poderia ser facilmente revertido, o médico alemão, pioneiro em neonatologia, Martin Arthur Couney (1870-1950), como ex-aluno do obstetra francês Pierre-Constant Budin (1846-1907), que fora o fundador da moderna medicina perinatal, conhecia os benefícios do artefato como ninguém e almejava apresentá-lo a comunidade médica. Mas sem muitas oportunidades, inclusive para evidenciar seu conhecimento sobre as incubadoras, ele aproveitou a Exposição de Berlim, ocorrida em 1896,para realizar uma exposição com o objetivo de elucidar o progresso científico no tratamento de prematuros. A demonstração se mostrou bastante eficaz no momento de salvar vidas e, em consequência, o doutor Couney recebeu vários convites para validar os avanços científicos em outras feiras, como a de Londres em 1897, Paris em 1900 e Buffalo em 1901.

O fim de um sonho que virou realidade

Apesar da longa comprovação da eficiência das incubadoras, a Feira Mundial de Nova Iorque de 1939-1940, provocou o colapso financeiro do doutor Couney, que tentou construir um grande pavilhão para elas, durante um período em que já recebia muitas críticas pela exibição pública dos prematuros. Segundo alegações dos mais afoitos, que fizeram questão de ignorar os benefícios já trazidos aos recém-nascidos, o artefato contrariava totalmente a natureza materna.

 

Na época, somente o renomado pediatra Julius Hess aprovava a iniciativa do médico alemão, conforme pode ser conferido em uma carta descoberta em um livro de assinaturas da feira de 1939. Nela, Hess rendia homenagens e agradecia tanto a liderança cientifica quanto a ética do amigo no momento de salvar vidas.

 

Bebês em incubadoras expostas na Feira de Londres em 1897 | Foto: historydetectives.nyhistory.org

 

A partir daí, as dificuldades do doutor Couney só aumentaram. Mas ele resistiu e ainda permaneceu no Luna Park até 1943. Depois, já sem nenhuma condição de manter o próprio trabalho, ele se isolou em sua casa em Sea Gate, onde morreu em 1º de março de 1950, praticamente esquecido e um pouco antes da popularização do artefato que, em suas mãos pioneiras, salvou muitas vidas. No entanto, se não fosse a insistência dele, ainda teríamos muitos recém-nascidos mortos.

 

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