O maior acidente naval da América do Sul

A incrível história do desaparecimento do Príncipe de Astúrias, o Titanic espanhol, ainda hoje vive cercada de mistérios e controvérsias

Por Rose Mercatelli* | Foto: Imagem Acervo Museu Náutico de Ilhabela | Adaptação web Caroline Svitras

A tempestade nas imediações de Ilhabela, na costa do Estado de São Paulo, fez o baile de carnaval organizado para os passageiros da primeira classe do transatlântico Príncipe de Astúrias, orgulho da Marinha Mercante espanhola, acabar mais cedo, embora algumas colombinas, melindrosas e uns poucos pierrôs ainda se aventurassem a passear pelo convés. A maioria dos passageiros da segunda e terceira classe já tinha se recolhido em suas cabines há tempos tentando dormir, mesmo sentindo enjoo provocado pelo balanço das ondas do mar revolto.

 

Na ponte, o capitão José Lotina, comandante do navio, tentava com dificuldade ver alguma luz emitida pelo Farol da Ponta do Boi, em Ilhabela, mas sem sucesso. A visibilidade era zero. De repente, por uma fração de segundo, um relâmpago iluminou o que estava à frente da cabine de comando, revelando que o navio avançava perigosamente em direção aos rochedos da Ponta de Pirabura, no extremo leste da Ilha de São Sebastião. No mesmo instante, o comandante gritou: “É terra. Máquinas toda força à ré!” Porém, não houve tempo de a ordem ser cumprida. Com um enorme estrondo, o navio bateu violentamente na única laje submersa da região, abrindo um rasgo de 20 metros no casco.

 

Terror na noite

Após o intenso choque da proa contra os rochedos da ilha, o Príncipe de Astúrias embicou adernado e começou a afundar rapidamente. A água fria, ao chocar-se contra as duas caldeiras da sala de máquinas, provocou duas enormes explosões que praticamente partiram o navio ao meio. A chaminé caiu sobre os camarotes da primeira classe, matando quase todos os milionários, enquanto centenas de imigrantes pobres não tiveram tempo nem de se levantar de suas camas e foram lançados ao mar, afundando junto com a embarcação.

 

Em cinco minutos estava tudo acabado. Os pedidos de socorro nem chegaram a ser transmitidos em razão da rapidez do naufrágio. Às 3h45 da madrugada do dia 5 de março de 1916, desaparecia nas águas da Ilha de São Sebastião o luxuoso Príncipe de Astúrias. Com ele, desapareceram nas águas frias 455 pessoas, entre passageiros e membros da tripulação. Entre os desaparecidos estavam o comandante, capitão José Lotina, e seu imediato, Antônio Salazar Llinas.

 

Sentados, da esq. para a dir.: o primeiro mordomo Antonio Llinas, o capitão José Lotina, o engenheiro-chefe Dionisio de Oñate e o primeiro oficial Alejo Gardoqui (que não embarcou na última viagem por estar de licença devido ao seu casamento) | Foto: Reprodução/Principe de Asturias. Misterio en las Profundidades

 

A catástrofe só foi comparável à do Titanic, pertencente à Marinha comercial britânica, afundado quatro anos antes. Por coincidência, os luxuosos gigantes, símbolos do poderio do transporte marítimo do início do século 20, foram construídos pelos estaleiros Russel & Co., em Glasgow, Escócia.

 

O início de um sonho
Fotos: Reprodução/Principe de Asturias. Misterio en las Profundidades

Porto de Barcelona, Espanha, dia 17 de fevereiro de 1916. Os milionários da primeira classe, saindo de férias ou viajando a negócios, cercados de malas e baús, não viam a hora de embarcar rumo a Buenos Aires, Argentina. Impacientes, esperavam que sua bagagem fosse encaminhada aos camarotes e seus baús aos porões do navio. Enquanto isso, os passageiros de segunda classe já subiam o passadiço à procura de suas cabines no piso intermediário do navio.

 

Foto: Maclure, MacDonald & Co. – Glasgow

 

A alguma distância, consumidos pela mesma ansiedade dos viajantes endinheirados, milhares de europeus pobres de várias nacionalidades esperavam pacientemente sua vez de embarcar na terceira classe. Fugiam das dificuldades de um continente submerso em uma guerra, depositando suas últimas esperanças de uma vida melhor nas plantações de café no Brasil ou no comércio florescente da Argentina. No meio da confusão, clandestinos se esgueiravam entre os passageiros, tentando subir ao navio e se esconder nos porões. Muitos deles não tinham dinheiro para comprar passagem. Por isso, tentavam passar despercebidos em meio ao tumulto do embarque.

 

Começam os mistérios
Fotos: Reprodução/Principe de Asturias. Misterio en las Profundidades

Ainda hoje, o naufrágio do Príncipe de Astúrias está envolvido em mistérios e especulações, a começar pelo número de passageiros que realmente embarcaram no navio. A estimativa inicial é que existiam 600 pessoas a bordo, o que não pode ser devidamente comprovado por conta do desaparecimento dos arquivos da empresa Pinillos, dona do navio, juntamente com milhares de documentos dessa e de outras viagens feitas pelos vapores da companhia.

 

O que se sabe é que foram registrados 150 passageiros na primeira classe e 120 entre a segunda e a classe econômica. No entanto, supõe-se que cerca de 1500 passageiros tenham sido acomodados na terceira classe sem nenhum tipo de documentação. Na época, a prática do transporte de passageiros sem registro era comum, não apenas no Príncipe de Astúrias, mas também em outros navios que faziam a rota Europa-América do Sul.

 

O jornalista e escritor José Carlos Silvares, autor do livro Príncipe de Astúrias – O Mistério nas Profundezas, da Editora Magma, que durante 25 anos investigou a história do naufrágio, confirma à revista Leituras da História: “Como se tratava de um navio de bandeira neutra deixando portos europeus em plena 1ª Guerra, havia, sim, muitos clandestinos a bordo. Consegui apurar a existência de vários deles, com informações precisas e documentos, por meio de entrevistas de parentes. Como a capacidade do navio em seu setor de imigrantes era muito superior ao número de viajantes oficiais e com o encontro nas pesquisas de gente não contabilizada, supõe-se que o número de mortos seja bem superior ao registro oficial de vítimas, podendo chegar a mais de 700.”

 

Entre as reportagens de jornais da época, o jornalista cita o depoimento de uma passageira, a espanhola Marina Vidal, que contou estar triste com o destino de cerca de 100 jovens italianos que fugiam dos horrores da guerra e que viajavam como clandestinos. Não há nenhum registro oficial sobre esses jovens.

 

Bússola doida ou colisão?
Fotos: Reprodução/Principe de Asturias. Misterio en las Profundidades

Pela versão oficial das autoridades brasileiras, o navio perdeu totalmente a orientação na área onde ocorreu o acidente: “Há pelo menos três causas prováveis para esse naufrágio. A forte cerração, chuva e falha nos equipamentos de navegação, o que levou a mudança brusca de rota. Houve ainda a falta de visibilidade do único farol da região, na Ponta do Boi. Essa somatória de fatos levou o primeiro-piloto do navio, que estava na casa de comando, a conduzir o navio na direção das rochas escarpadas que avançavam mar adentro”, diz o jornalista José Carlos Silvares.

 

Porém, Jeannis Michail Platon, pesquisador de naufrágios, mergulhador e diretor do Museu de Naufrágios de Ilhabela, SP, sustenta que, mais do que a tempestade, a existência de um forte magnetismo nas proximidades da ilha, que costuma alterar o funcionamento das bússolas, teria sido o verdadeiro responsável pelo desastre. Mas Silvares contesta: “O desvio da agulha magnética das bússolas era muito conhecido nessa região e o capitão, em sua larga experiência, com toda a tripulação, sabia disso. O mesmo fenômeno aparece em outras partes do mundo onde há muita concentração de rochas, como acontece em Ilhabela, que é a maior ilha marítima do Brasil.”

 

A outra hipótese teria sido uma colisão entre o Astúrias e o Glasgow, um couraçado inglês supostamente em serviço no Atlântico para patrulhar os navios da Marinha Mercante que traziam clandestinos a bordo. O ataque do navio de guerra inglês ao Astúrias, uma embarcação de bandeira neutra, teria como objetivo evitar a fuga de desertores. “O diário de bordo da embarcação inglesa, no entanto, prova que naquele sábado de carnaval ela estava atracada em Abrolhos, um arquipélago situado na costa sul da Bahia”, diz Silvares.

 

De acordo com outra teoria envolvendo patrulhamento marítimo, o comandante Lotina, devido aos carregamentos irregulares que não constavam do seu romaneio, e principalmente por conta da carga humana, clandestinos, refugiados e desertores de guerra socados nos porões da terceira classe, saiu por fora em alto mar, desviando para uma rota não comum à rotina da navegação nessas águas, com o objetivo de se desviar das blitz feitas pelos navios de guerra ingleses e acabou por se perder em meio ao nevoeiro, indo de encontro aos paredões rochosos da Ponta da Pirabura.

 

O sumiço do ouro
Em 1950, foi retirada da água uma pá de um das hélices em puro bronze | Foto: Arquivo Jeannis M. Platon

Outro enigma que intriga os pesquisadores é o desaparecimento da maior parte da carga valiosa transportada nos porões do Astúrias. No registro oficial, consta que o navio transportava 11 toneladas de ouro, em um valor estimado na época de 40 mil libras esterlinas, destinadas pelo governo espanhol como pagamento de alimentos e suprimentos fornecidos pela Argentina durante a 1ª Grande Guerra. Além do ouro, ainda havia grande quantidade de metais, como estanho, cobre, zinco, aços, fios elétricos, além de vinhos portugueses, hélices de bronze para navios, dinheiro e joias dos passageiros e correios em geral.

 

Constava também da extensa lista de carga, 12 estátuas de bronze, esculpidas na Espanha e enviadas à Argentina como componentes de um monumento existente no Parque Palermo, Buenos Aires, conhecido como La Carta Magna y las Cuatro Regiones Argentinas.

 

Até hoje, apenas poucas peças foram resgatadas do local em sucessivas expedições de mergulho. Porém, a valiosa carga em ouro nunca mais ninguém viu a cor. Existe até uma teoria conspiratória que afirma ter sido o roubo dessa carga preciosa a verdadeira causa do desastre. Segundo ela, sob orientação do capitão José Lotina, o vapor teria feito uma parada não oficial na costa de São Sebastião para transferir as 11 toneladas de ouro a outro navio menor que teria atracado ao lado do Astúrias.

 

O problema é que, ainda de acordo com a teoria, a tripulação envolvida no roubo não contava com as ondas gigantescas que teriam desviado o curso do navio já em movimento, o que, com a falta de visibilidade, ocasionou o naufrágio.

 

 

 

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Leituras da História Ed. 67