O medo da guerra

Com a ascensão de potências instáveis que detêm tecnologia de destruição em massa, é possível que o mundo de hoje seja ainda mais perigoso do que na época da Guerra Fria

Por Robson Rodrigues | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O filósofo contratualista Thomas Hobbes, em sua obra O Leviatã, dizia que a guerra é o estado natural que só poderia ser evitado por um governo central forte. É questionável dizer até onde essa teoria faz sentido, mas a humanidade, desde seus primórdios, em suas pelejas, já buscava tecnologias letais, tornando-se o predador mais dominante capaz de acabar com sua própria existência. Porém, foi no século 20 que essas tecnologias se tornaram mais precisas e capazes de um grau de carnificina nunca antes imaginável. Uma nova era se estabelecia, a era das armas químicas, biológicas e nucleares.

 

Há pelo menos 200 mil anos, o homem já era dotado da inteligência de produzir armas, com a capacidade de desenvolver a linguagem, criar a roda e dominar o fogo. Mas foi recentemente que a ciência voltada para matar teve seu grande avanço, foi nesse intenso e breve século – como descreveu o historiador Eric Hobsbawm – que as armas de aniquilação em escala foram intensamente usadas sem pudor e respeito ao direito civil universal, o da vida. Essa revolução na arte da guerra vai desde armas químicas, passando por agentes biológicos, até nucleares, cujo emprego, no limite, coloca em risco a sobrevivência da humanidade.

 

Na avaliação de Carlos Eduardo Riberi Lobo, professor pós-doutor e doutor em Ciências Sociais na área de Relações Internacionais pela PUC-SP, “o grande problema das armas químicas, biológicas e nucleares é que, além de serem armas de destruição em massa, vão afetar a população civil além dos militares adversários, seu uso muitas vezes impossibilita a conquista e uso do território inimigo devido à contaminação, efeitos danosos à saúde, água, terra etc., ou seja, não há muito controle militar sobre sua ação”.

 

Elaboração/Robson Rodrigues

 

Com o fim da Guerra Fria e o desmembramento da União Soviética, o mundo se deparou com um processo de dispersão e fragmentação das armas de destruição em massa, há a suspeita de que muitos cientistas soviéticos foram contratados para produzirem armas químicas e biológicas. Hoje, as maiores ameaças não são mais as superpotências rivais, mas, sim, as nações instáveis e o terrorismo.

 

 

Os embargos econômicos e a pressão que países ocidentais e a ONU fazem não são suficientes para reprimir intenções de desenvolvimento e proliferação de armas de destruição de massa. “Veja o caso da Coreia do Norte ou do Paquistão com armas atômicas. O que vale é ação efetiva e a ameaça de uso do poder militar, como no caso da guerra civil na Síria com o uso de armas químicas”, avalia o doutor em Relações Internacionais Carlos Eduardo Riberi Lobo. E continua: “Quem pode fazer esse papel são potências militares, ou seja, EUA, a frente do Conselho de Segurança da ONU, Rússia, França, Reino Unido e República Popular da China”.

 

O perigoso programa atômico que a Alemanha desenvolveu na 2ª Guerra Mundial

 

Química do mal

Não é preciso construir instalações especiais para fabricar armas químicas, elas são facilmente fabricadas em qualquer país que disponha de uma indústria de fertilizantes químicos ou pesticidas desenvolvida. Também chamadas de “bomba atômica dos pobres”, os gases dos nervos são eficientes porque são de fácil fabricação, relativamente baratos e matam em minutos.

 

Eles atuam inibindo enzimas fundamentais ao controle dos movimentos musculares, bloqueando os impulsos nervosos que ativam os músculos, que se contraem sem parar estrangulando os pulmões e o coração. É dessa forma, por asfixia, que morrem os insetos atacados com inseticidas.

 

A 1ª Guerra Mundial deu início à entrada de armas químicas nos campos de batalha: infantaria australiana usando máscaras contra gás venenoso | Foto: Captain Frank Hurley

 

O serviço de inteligência americano (CIA) calcula que 20 países têm armas químicas e outros dez estão próximos de começar a produzi-las. Os arsenais conhecidos estão nos Estados Unidos, União Soviética, França e Iraque. Os países que podem ter, mas não assumem são Egito, Líbia, Israel, Irã, Etiópia, Birmânia, Tailândia, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Vietnã, Formosa, China, África do Sul e Cuba.

 

A 1ª Guerra Mundial (1914-18) marcou a entrada da química nos campos de batalha. O cientista alemão Fritz Haber obrigou as tropas inimigas a sair da proteção das trincheiras para o combate em campo aberto espalhando gás cloro no front. Foi uma devastação – 5 mil soldados franceses foram mortos e outros 10 mil ficaram feridos. Ao todo, as mortes provocadas por gases venenosos na guerra somaram quase 100 mil; os feridos, em torno de 1,3 milhão.

 

Gás Laranja foi usado pelos americanos na Guerra do Vietnã para o reconhecimento do inimigo em solo (estima-se que pelo menos 3 milhões de vietnamitas vivam com sequelas) | Foto: Brian K. Grigsby/ SPC5

A indústria química inglesa descobriu o gás mostarda e uma mostra real desse pesadelo ficou registrada quando forças iraquianas, sob o domínio de Saddam Hussein, atacaram a aldeia de Halabja, um lugarejo em seu território habitado pelos curdos, que foi invadido pelo Irã, 5 mil civis foram mortos; 7 mil ficaram feridos.

 

Na Alemanha, foi inventado um dos gazes mais mortais, um composto de carbono, hidrogênio e oxigênio misturados ao fósforo – estava concebido o tabun, o primeiro dos gases neurotóxicos, a mais terrível espécie de arma química já inventada. Dois anos mais tarde, os alemães conceberam o sarin.

 

Todavia, o maior escândalo aconteceu com os americanos. Na Guerra do Vietnã (1959-75), os EUA jogaram napalm sobre vietnamitas, coroando a doutrina do medo ao atacar a população civil para desmoralizar as tropas, minar o apoio ao governo e forçar o inimigo a desistir. Não satisfeitos, ainda usaram o agente laranja – uma mistura de herbicidas, que destrói plantações e florestas – sobre os guerrilheiros vietcongues.

 

Quem viver verá

O mundo teme ainda mais o uso de armas biológicas. Nenhuma nação pode mais se isolar e nenhuma fronteira pode ser lacrada depois que o conhecimento científico forneceu subsídios para o desenvolvimento de doenças resistentes a vários antídotos. As ameaças ao meio ambiente global com agentes biológicos são quase incontroláveis e o principal alvo dos bioterroristas são os EUA e seus aliados.

 

Uma das imagens mais icônicas da Guerra do Vietnã, que se refere ao momento em que a vietnamita Kim Phuc gritava “Muito quente! Muito quente”, ao fugir nua de um vilarejo com partes do corpo cobertas por napalm | Foto: Nick Ut

 

Para o historiador Eric Hobsbawm, “esse é o preço que se paga por viver em um século de guerras religiosas, que têm na intolerância sua principal característica”. O ataque ao World Trade Center, em 11 de setembro, e o terror biológico com envelopes contaminados com o antraz colocou à prova a eficiência do sistema de segurança dos EUA, aumentou o temor que já existia em relação ao terrorismo e também a preocupação de que armas desse tipo sejam usadas por terroristas contra a população civil.

 

Segundo Nathalie Canedo, neuropatologista e professora adjunta do Departamento de Patologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a principal diferença entre os agentes químicos e biológicos é que “os químicos ficam restritos ao território onde são aplicados enquanto que os biológicos podem se disseminar pela movimentação geográfica dos transmissores”.

 

Corpos de prisioneiros mortos por envenenamento em campo de concentração de Buchenwald após o fim da 2ª Guerra Mundial| Foto: The German Federal Archives or Bundesarchiv

 

Uma avaliação do Escritório de Avaliação Tecnológica, realizado em 1993, concluiu que 100 quilogramas de antraz espalhados por uma cidade como Washington causaria entre 1 e 3 milhões de mortos – algo parecido ao dano causado por uma bomba radioativa como a de Hiroshima. No mesmo cenário, uma tonelada de gás sarin, uma arma química, causaria 8 mil mortos.

 

Outra doença potencialmente usada como arma biológica é a varíola, no passado, ela assustou o mundo, principalmente pelo seu grau de letalidade: mais 30% das vítimas que a contraem e deixa o restante delas deformadas. A doença foi erradicada em 1978, mas ainda existem estoques do vírus armazenados. Outros germes também cogitados como prováveis armas são os vírus do Ebola, a bactéria do botulismo, a bactéria causadora da peste bubônica e a bactéria causadora da tularemia.

 

Em 1995, os EUA produziram uma “lista negra” de países que supostamente teriam programas de desenvolvimento de armas biológicas com um patógeno de transmissão direta e um período de contágio ou incubação longo o suficiente para garantir a disseminação. A lista citava Irã, Iraque, Líbia, Síria, Coreia do Norte, Taiwan, Israel, Egito, Vietnã, Laos, Cuba, Bulgária, Índia, Coreia do Sul, África do Sul, China e Rússia.

 

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Nathalie acredita ser possível hoje sintetizar um forte agente biológico em laboratório de grande poder de contágio, com possibilidades de uso que vão desde o estudo do mecanismo de ação, uso em pesquisas de agentes antibióticos e mesmo uso em situações de conflito. “O risco de se tornar uma epidemia é grande, embora geralmente epidemias graves tenham uma história evolutiva que tendem à resolução. Tanto que as grandes gripes e pestes que dizimaram parte da população mundial ao longo da história, mesmo antes da era dos antibióticos e outros medicamentos modernos, extinguiram-se com medidas mínimas de controle sanitário”.

 

Hiroshima após a queda da bomba.

A neuropatologista diz que contra essas armas não existe um tratamento básico, o que torna mais dramática uma situação de ataque biológico. “O que existem são formas de se conter espacialmente as epidemias para evitar sua disseminação. O tratamento básico é apenas de suporte à vida, mas não se constitui em tratamento efetivamente falando.”

 

Mundo atômico

As armas químicas e biológicas têm várias semelhanças: causam mortes em massa, preservam a infraestrutura física (edifícios, documentos…) e podem ser usadas sem explosões, mas as armas nucleares são devastadoras em todos os sentidos. Eram pouco mais de 8 horas da manhã, quando um B-29 surgiu no céu de Hiroshima naquele fatídico 6 de agosto de 1945 em que um clarão com uma onda de impacto superaquecido em um raio de 1,6 km desintegrou 80 mil pessoas no primeiro dia e matou outras 80 mil nos meses seguintes. Três dias depois, Nagasaki teria o mesmo destino.

 

As armas nucleares são genuinamente uma invenção do século 20, uma das consequências da modernidade e a globalização dos riscos, como acredita o sociólogo Anthony Giddens, e o único uso dela provou ser a maior ameaça da humanidade. Não houve a 3º Guerra Mundial porque tememos a aniquilação mútua e, apesar da tragédia nas cidades japonesas, é possível que a tecnologia atômica tenha salvo mais vidas que as destruído.

 

Hoje, 439 reatores de energia nuclear produzem, aproximadamente, 16% da eletricidade mundial, de acordo com os dados da Agência Internacional de Energia, e o uso para fins pacíficos é uma realidade em países como o Brasil, que assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas e pleiteia uma cadeira fixa no conselho de segurança da ONU.

 

Hiroshima após a queda da bomba.

 

Alguns historiadores acreditam que as armas nucleares são uma grande força para a paz. Todavia, o doutor em Relações Internacionais Carlos Eduardo Riberi Lobo é moderado em relação a essa ideia. “De fato, as armas nucleares e a possibilidade do fim da humanidade ou da destruição da terra mais de 20 vezes congelou o início da 3ª Guerra Mundial. Mas isso não significa que armas nucleares não possam ser utilizadas em escala regional ou guerras locais, principalmente no Oriente Médio e na Ásia.”

 

Riberi lembra que apesar do fim da Guerra Fria, a possibilidade de um conflito nuclear existe, principalmente se o poder dos EUA no século 21 for desafiado e ameaçado por outras potências em crescimento.

 

Durante a Guerra Fria, era uma ameaça sinistra, especialmente para quem vivia nas zonas mais sensíveis de ruptura política, como na Europa Central, na Península Coreana e até no continente americano durante a crise dos mísseis em Cuba, no entanto, o mundo ainda não se livrou desse medo.

 

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“O mundo é mais instável hoje do que na época da Guerra Fria. E ocorre uma assimetria no mundo entre os países que possuem armas NBC [siglas em inglês de nuclear, biológico e químico] e os que não podem ter. É um congelamento do poder mundial, que foi rompido pela Coreia do Norte e Paquistão, além de Israel e África do Sul com uma certa tolerância das potências vencedoras da 2ª Guerra Mundial por questões geopolíticas e alianças regionais.”

 

Na Guerra Fria, sabia-se onde estavam as ogivas nucleares e quem as possuía, e a certeza de uma destruição mútua assegurada mantinha os dedos dos rivais longe dos gatilhos. Hoje, mais de 20 anos após a queda da cortina de ferro, essas certezas desapareceram. “Ainda existem 20 mil artefatos nucleares no mundo, principalmente nos EUA e na Rússia, e também os estoques da França, Reino Unido, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte”, analisa Riberi.

 

As bombas de Hiroshima e Nagasaki

 

Uma nova agenda para o controle de armas

O mundo todo tem se preocupado com essa questão. Desde 1925, os países vêm fazendo acordos para que esse tipo de arma não seja usado em hipótese alguma, não só pelos terroristas, mas também pelos exércitos oficiais.

 

Tais medidas ainda são infrutíferas, mas precisam ser reafirmadas a cada dia para que a matança indiscriminada acabe, para que a defesa da democracia ou do nome de Deus não justifique “guerras justas” atentando, inclusive, contra civis e inocentes. O artista Christian Boltanski disse que “em uma guerra não se matam milhares de pessoas, mata-se alguém que adora espaguete, outro que é gay, outro que tem uma namorada. Uma acumulação de pequenas memórias”.

 

Revista Leituras da História Ed. 71