O meteoro do sertão

Há 230 anos, na Bahia, foi encontrado um corpo celeste que caiu de maneira inofensiva: o meteorito do Bendengó. Um dos maiores já achados, o mineral foi objeto de estudos para os cientistas da época e até hoje aguça a curiosidade de muitos que se interessam pelos fenômenos astrofísicos

Por Luiz Muricy Cardoso* | Adaptação web Caroline Svitras

Almirante José Carlos de Carvalho e Roquette-Pinto junto ao Meteorito do Bendengó | Foto: Arquivo Museu Nacional do Rio de Janeiro

Corria o ano de 1784. No sertão de Monte Santo, na Bahia, próximo ao rio Vaza-barris, Joaquim da Mota Botelho, vaqueiro, cuidava de suas reses quando ouviu seu filho comentar a respeito de uma pedra grande que havia encontrado quando fora campear o gado. O menino Domingos da Mota Botelho encontrara um mineral com mais de 2 metros de comprimento que diferia muito das outras rochas encontradas no local. Julgando que a pedra pudesse conter ouro ou prata, o pai correu a informar às autoridades sobre o achado.

 

D. Rodrigo, que era o governador naquela época, movido de interesse, solicitou a Bernardo Carvalho da Cunha, capitão-mor do município de Itapicuru, que realizasse o translado da pedra para a capital baiana. Começava uma aventura que demandaria enormes esforços de engenheiros e peões encarregados da empreitada.

 

Carros de boi e guindastes

 

Desconfiando tratar-se de um meteorito, um dos maiores já encontrados, todos ficaram impressionados com o mineral e a notícia correu o mundo. Então, já em 1810, após uma tentativa fracassada de transportar a pedra, os cientistas, entre eles o famoso A.F. Mornay, chegaram à conclusão de que era, de fato, um corpo vindo do espaço exterior.

 

O meteorito do Bendengó, como viria a ser conhecido posteriormente, deu muito trabalho para ser transportado para o Rio de Janeiro, onde se encontra atualmente. A pedra, que na época de seu achado era o segundo corpo já caído do espaço, é hoje o 16º maior meteorito já encontrado sobre a Terra. Forneceu material importante para estudos científicos e, pesando mais de 5 toneladas, media aproximadamente 2,15 m X 1,5 m X 65 cm. A dificuldade de seu transporte foi muito grande devido à precariedade dos meios técnicos disponíveis naquele tempo. Usaram-se juntas e carros de bois, travas e guindastes improvisados para transportar aquele corpo pesado com formato semelhante a uma cela de montaria, na comparação de alguns.

Bendegó é o maior meteorito já encontrado em solo brasileiro | Foto: Creative Commons/ Museu Nacional do Rio de Janeiro

O meteorito do Bendengó foi matéria de diversos estudos científicos. Tendo sido mais de uma vez retirados fragmentos seus, está hoje exposto no Museu Nacional do Rio de Janeiro. O cientista A.F. Mornay foi o primeiro a retirar amostra da pedra, levando-a para a Real Sociedade de Londres, onde foi analisada pelo pesquisador Wolleston. Após seis anos esse estudioso divulgou um trabalho respectivo ao meteorito na publicação denominada Philosophical Transactions, com a carta a ele enviada por Mornay. Spix e Martius, naturalistas alemães, foram também ver o meteorito, acompanhados de Domingos da Mota Botelho, já adulto, em 1820. Aqueceram a pedra e conseguiram, assim, destacar pequenos pedaços que foram levados para o Museu de Munique.

 

Durante o transporte da pedra aconteceu mais de um tombamento dela da carreta. Na verdade, o meteorito passou quase cem anos no leito do riacho Bendengó, após a carreta em que viajava ter se desgovernado, fazendo-o cair. Foi nessas condições que os cientistas conseguiram fragmentá-lo. Somente em 1883, foi que Orville Derby, professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, ficou sabendo a respeito do meteorito. Contratou, então, o engenheiro da Estrada de Ferro Inglesa (British Rail Road) que, estando a construir uma estrada de ferro que ligava Monte Santo a Salvador, informou que a trilha passaria a aproximados 100 km de distância do local onde estava o corpo celeste.

O Meteorito, após um alagamento do rio Bendengó | Foto: Felipe Abrahão / UFRJ

Mas os custos de transporte estavam muito acima da receita do museu carioca. Até que, em 1886, D. Pedro II, visitando a Academia de Ciências de Paris, teve notícias do fato pela primeira vez. Foram então construídas, onde só havia mato, estradas para o transporte da pedra; bem como uma carreta especial que podia até mesmo andar sobre o chão ou trilhos. Aconteceu ainda, após sua retirada do leito do riacho, que o meteorito voltou a tombar, dessa vez no leito do rio Tocas. Mais uma vez resgatada, a pedra teve que transpor serras íngremes e, após tombar mais sete vezes, a carreta teve percorridos os 113 km desde o riacho Bendengó até a estação de ferro Jacury – translado que durou 126 dias, uma média de 900 metros por dia!

 

Caiu há milhares de anos

Existe uma réplica da pedra hoje em Monte Santo em tamanho original – além de outras três que foram produzidas. O meteorito, constituído em sua maior parte de ferro e níquel, possui traços de outros metais não preciosos. A importância da descoberta reside no fato de que, naquela época, poucos meteoritos tinham sido encontrados, e somente um maior que ele. A Física encontrou, com o achado do Bendengó, material satisfatório para o estudo do espaço exterior. Calcula-se pelo alcance do processo de oxidação dela que a pedra tenha caído há milhares de anos.

Cientistas encontram estrela morta que “engole” corpos celestes

Lá perto do riacho Bendengó, onde o meteorito tombou da carreta pela primeira vez, foi erguido um marco de pedra em forma de pirâmide que possuía inscrições homenageando a princesa Isabel, o imperador D. Pedro II, além de Rodrigo Silva, então ministro da Agricultura, o Visconde de Paranaguá e pessoas que tiveram participação nos procedimentos de transporte do mineral. Poucos anos depois, moradores do local destruíram o monumento, baseados na superstição de que uma grande seca que assolava a região fosse castigo divino por causa da remoção do meteoro de seu sítio original.

Visita de Einstein ao Museu Nacional no Rio de Janeiro, em 1925 | Foto: Reprodução/www.meteorosbrasileiros.weebley.com

Atualmente, existem quatro réplicas do meteorito de Bendengó em tamanho real. Uma delas, em madeira, foi exposta em uma mostra em Paris,em 1889, e está atualmente no Palais de La Découverte, naquela cidade. Outra, em gesso, está no Museu do Sertão, em Monte Santo desde 1970 e outras estão no Museu Geológico da Bahia, em Salvador, e no Museu Antares de Ciência e Tecnologia na cidade de Feira de Santana, a 100 km de Salvador. Acredita-se que a pedra tenha vindo das órbitas de Marte e Júpiter, cujos asteroides poderão, em um futuro próximo, servir como fornecedores de material metálico para a indústria, asseguram os cientistas.

 

Moradores de Monte Santo querem que o meteorito de Bendengó retorne para lá onde – creem – deverá incentivar o turismo e consequentemente a economia. A literatura de cordel não deixou o Bendengó passar despercebido e a obra “A Saga da Pedra do Bendengó” o figurou nos seguintes versos:

A pedra constituída
De ferro, níquel e encanto
Até o dia de hoje
Provoca tristeza e encanto
Queremos nossa pedra de volta
De volta pro nosso canto

 

Fenômenos causaram até mortes

Consta que, em 1940, na China, a queda de um meteoro provocou a morte de dez mil pessoas. Em Chicxulub, na península de Yucatão, no México, existe uma cratera de 180 quilômetros de diâmetro formada pela queda de um asteroide gigante – esses são muito mais raros. Muitos cientistas acreditam que a queda de um meteorito enorme, há 65 milhões de anos, teria causado a extinção dos dinossauros.

 

Em fevereiro de 2013, um meteoro caiu na Rússia causando grande impacto. O corpo celeste, que se precipitou na região dos Urais, próximo à República do Cazaquistão, causou um estrondo ensurdecedor. Sua queda, que foi filmada, causou ferimentos em cerca de mil pessoas, a maioria atingida por estilhaços de janelas que se arrebentaram com a explosão do meteorito ao entrar na atmosfera. O prejuízo financeiro causado ao país foi calculado em R$ 60 milhões. Composto de gelo, de acordo com os cientistas, acabou se fragmentando e caiu sobre um lago e, deixou a região coberta de poeira por três meses.

Chuva de meteoros em 2011 | Foto: Creative Commons / Jeff Berkes

A queda do meteorito na Rússia teve ampla repercussão mundial e a imprensa do mundo inteiro divulgou o fato. Tendo explodido a 23 quilômetros de altura, esse corpo celeste, deslocando-se a uma velocidade de 306 quilômetros por hora, produziu uma quantidade de energia 30 vezes superior a da bomba atômica que foi lançada em Hiroshima, em agosto de 1945!

 

Uma amostra da devastação que pode causar a queda de um corpo celeste foi o meteorito de Tunguska. Em junho de 1908, esse asteroide caiu na região que leva o nome do rio siberiano, causando um rastro de destruição que derrubou nada menos que 80 mil árvores e assolou uma região de 2 mil km²! O impacto foi tão forte que pessoas foram atiradas ao chão a 60 quilômetros dali. Tendo explodido a 5 ou 10 quilômetros de altura, o Tunguska levantou uma grande coluna de fogo que foi seguida por uma enorme nuvem de fumaça. A alta temperatura gerada pela explosão foi sentida pelos habitantes da região que descreveram o extremo desconforto causado pelo calor como “insuportável”.

 

Apesar do impacto fortíssimo da explosão (que gerou energia equivalente a mil bombas atômicas!), a queda do meteorito causou apenas a morte de um caçador que, supostamente, teria sido atirado contra uma árvore. Em 1927, uma expedição tirou fotos do local que atestava a destruição causada pelo corpo celeste. A luminosidade gerada pelo meteorito de Tunguska foi tão intensa que Londres, muito distante, ficou clara à meia noite durante muito tempo devido ao reflexo da luz solar sobre a nuvem de poeira ocasionada pelo impacto. Imagina-se que, se o Tunguska tivesse caído sobre uma metrópole, o número de mortos chegaria a milhões!

 

Revista Leituras da História Ed. 79