O papel dos Estados Unidos no golpe de 64

Os brasileiros e o mundo presenciaram um dos golpes militares mais “fáceis” da história. Será que João Goulart, conhecido popularmente como Jango, resistiria caso ficasse no poder? Em 31 de março de 1964, os militares saíram vitoriosos com o apoio dos americanos e a tal “democracia” estava prestes a começar...

Por Ariani Alencar | Foto: Acervo Última Hora | Adaptação web Caroline Svitras

O golpe militar de 64 é conhecido por muitos, mas os detalhes de “como” ocorreu e os “reais motivos” da intervenção política dos Estados Unidos permaneceriam anônimos até as revelações extraordinárias do documentário O Dia que Durou 21 Anos (2011), dirigido por Camilo Tavares, e relançado agora, nos cinemas. O medo pairava sobre a cabeça dos americanos e o avanço comunista na América Latina era inadmissível. A ameaça cubana já não era mais uma preocupação e urgia, nem que para isso fosse necessário usar a força e a violência, impedir que o Brasil mergulhasse nas “mesmas águas”.

 

Que os americanos se sentem os donos do mundo, isso todo mundo já sabe, mas a aparição de documentos confidenciais e gravações dos ex-presidentes John F. Kennedy, Johnson e do embaixador dos Estados Unidos no Brasil na época, Lincoln Gordon, planejando a entrada em terras tropicais desde o início do golpe até a saída de Goulart, estarreceu até os mais céticos. E não se trata de surpresa, mas, sim, incredulidade em relação às maquinações da grande potência capitalista do mundo objetivando a manutenção de seu sistema manipulador e poderio político na América – independente dos custos e desafios que, supostamente, teriam que enfrentar.

 

Fora, socialista!

João Goulart pretendia fazer várias reformas no Brasil, incluindo a agrária. E como os americanos precisavam de um “motivo” para banir Goulart do poder, Lincoln Gordon usou essa retórica, argumentando que o ex-presidente era socialista. Mas, é claro que os americanos jamais aceitariam perder a nação brasileira para o comunismo. “O objetivo deles era provar que Goulart era muito esquerdista”, relata Peter Kornbluh, coordenador do National Security Archives, dos EUA. E, com essa prova, eles poderiam intervir na política do país com o propósito de livrar o povo brasileiro das garras de um comunista.

 

John F. Kennedy recebe João Goulart na embaixada americana, em Roma, durante visita à Itália (1963) | Foto: FGV

Gravações de diálogos dos ex-presidentes com o embaixador americano no Brasil e os documentos com relatos, minuto a minuto, antes e depois do golpe, foram incontáveis. O que fundamenta a maior prova, até o momento, que os EUA previram detalhadamente o golpe de Estado que aconteceu no maior país da América Latina em 64.

 

Cuba já não ameaçava o domínio do capitalismo, já o Brasil, com a eleição de Jango, tornou-se uma incógnita e eles preferiram, ou melhor, decidiram não arriscar. “O Brasil não pode seguir o caminho vermelho, se falharmos agora, não teremos uma outra Cuba, mas, sim, uma outra China em nosso continente americano.” Foi o que disse Gordon em um de seus relatórios oficiais.

 

Pois é, como se pode perceber, os americanos não queriam “perder” o Brasil. Frota naval, porta-aviões e navios torpedeiros seguiriam em direção ao país caso o golpe não fosse bem-sucedido. Eles haviam tentado outra via: planejaram, financiaram e apoiaram candidatos opositores, mas Goulart não cedeu às pressões americanas e, quanto mais se fortalecia no poder, mais os oficiais concluíam que ele deveria ser deposto.

 

 

Será mesmo que Kennedy e Gordon queriam a liberdade e o progresso?

Operações secretas e propagandas alegavam que Goulart ameaçava a democracia, mas o que é mesmo essa tal de democracia? “Democracia é o povo exercendo soberania. Mentira não passa de sonho e fantasia”, (Elo da corrente). A letra dessa canção fala da farsa de um regime de governo que não exerceu, e ainda não exerce, o seu real significado. Mas voltando para o golpe… Ele foi bem–sucedido e fácil, pois a tensão política originada por manifestações foi seguida por uma rebelião de militares que apoiavam a saída de Goulart e que marcharam para o Rio de Janeiro, a fim de realizar a deposição do presidente.

 

Fácil porque Goulart foi para o Rio Grande do Sul, com o propósito de mobilizar forças políticas que impossibilitassem a ameaça golpista, mas os militares conseguiram acabar com qualquer perspectiva de reação do presidente brasileiro. Sendo assim, no dia 2 de abril, o Senado Federal anunciou para o posto presidencial a posse provisória de Rainieri Mazzilli – que governou o país durante 13 dias. Foi dada a largada para a ditadura militar no Brasil e salve-se quem puder!

 

Após o golpe, assumiu o comando do país o general Humberto de Alencar Castello Branco. Ele foi presidente do Brasil entre 1964 e 1967. Na foto, é recebido por soldados que prestam continência, no ano de 1965 | Foto: Folha Imagem

 

Castello Branco foi o primeiro escolhido dos americanos e o seu mandato (64-67) fez por merecer tal preferência, porque o dever de reprimir a ideologia socialista foi cumprido. Sob esse prisma, a liberdade de que tanto falam os americanos, como já se sabe, não existiu aqui durante a dura e repressiva ditadura militar. Com atos institucionais, exílios, torturas, mortes, perseguições, opressão, entre outros, eles governaram o país na época. De “liberdade” não se viu nada…

 

Acreditando-se ou não, a ingerência americana no episódio do golpe militar ocorreu de fato, e é um decurso de suma importância para o entendimento da história de ontem, hoje e amanhã. Afinal, ainda temos poucas informações de quanto, realmente, os Estados Unidos interviram no país durante esse episódio. É mais um dos milhares de mistérios que alimentam as patranhas da Casa Branca.

 

Revista Leituras da História Ed. 62

Adaptado do texto “A gente não pode perder o Brasil! (e não perderam…)”