O papel dos santos negros

São Elesbão, Santa Efigênia e São Benedito, o que teriam esses santos em comum e que simbologias representaram no período da cristianização do Brasil Colonial? Acredite, qualquer semelhança na cor da pele não é mera coincidência

Por Ávany França | Foto: Governo do Rio de Janeiro/Secretaria da Cultura/ Isabela Kassow/Diadorim Ideias  | Adaptação web Caroline Svitras

É bem verdade que o tema escravidão tem suscitado grandes estudos ao longo da história, sobretudo no que tange aos processos de miscigenação e sincretismo religioso, assuntos estes presentes durante a inserção dos negros escravizados no continente americano. Arrancados de sua pátria e, muitas vezes, associados a demônios por conta de suas práticas ritualísticas, foi na tradição que os escravos se agarraram como forma de resistência cultural. Dessa forma, no Brasil, as festas de coroação de reis e rainhas, o som dos atabaques, a musicalidade e a dança se fizeram presentes nas lacunas deixadas pelo sistema colonial, de forma a preservar a identidade do povo negro.

 

Paralelamente, no panorama da sociedade Brasil Colônia, marcado por um forte relacionamento entre o Estado e a Igreja, o modelo caracterizado pela fé católica alardeava um discurso uniformizador, em que as práticas africanas não eram bem vistas frente aos anseios da cristandade colonial. Percebe-se, primordialmente no século 18, um efusivo movimento de catequização voltado especialmente para os escravos, de forma a embutir nos homens “sem alma”, os valores da “verdadeira” fé cristã.

 

Mas, como promover os ensinamentos cristãos a homens e mulheres iletrados e incultos? A resposta estava no próprio negro, ou melhor, nos modelos de virtude que poderiam transmitir por meio de suas ações, o comportamento idealizado pela sociedade colonial, interessada, sobremaneira, em garantir a estrutura social marcada pelas diferenças e hierarquias. Para legitimar a escravidão, os sermões difundiam o discurso de que os negros deveriam respeitar a vontade de Deus, aceitando a condição de escravos. Para aproximar ainda mais os negros da fé idealizada pela Igreja Católica, utiliza-se representações humanas, as quais tinham como características principais a pele negra, um comportamento de subserviência, retidão e a vida dedicada à fé cristã e à caridade.

 

O papel das irmandades

Criadas com o objetivo de catalisar os interesses de diferentes grupos sociais, as irmandades surgem no Brasil, por volta do século 17, organizadas por leigos católicos, de forma a oferecer benefícios a seus membros, tanto de ordem espiritual e cultural, quanto material. No paradigma escravista e colonial, salientado pelas diferenças e pela pouca preocupação da Coroa em atentar para necessidades básicas do cotidiano, as irmandades ganham contornos prioritariamente para estruturar as cidades em crescimento.

 

Segundo afirma Caio César Boschi em Os Leigos e o Poder: Irmandades Leigas e Políticas Colonizadoras em Minas Gerais, “as irmandades foram uma força auxiliar, complementar e substituta da Igreja, sendo responsáveis pela contratação de religiosos e pela construção dos templos”. O livro também apresenta as irmandades como um instrumento de sincretismo, de forma a ocultar o veemente conflito de classes que perdurou durante todo o período colonial. Dessa forma, brancos, negros, mulheres, homens, pobres ou ricos, homens livres ou escravos buscavam se afiliar a essas irmandades de modo a garantir seus próprios interesses, o que muitas vezes se resumia em ter um enterro digno. Era também nas irmandades que se obtinha auxílio aos enfermos, assistência no cotidiano social e na vida cultural com a realização dos festejos.

 

Coleta para a Manutenção da Igreja do Rosário por uma Irmandade Negra (1839), por Debret | Foto: Jean Baptiste Debret

 

Entretanto, para os negros, as irmandades funcionavam como um local onde eles podiam, mesmo na condição de escravos, afirmar a sua identidade cultural, sentirem-se mais protegidos, além de agregar duas coisas inestimáveis para o povo negro: o estatuto social e o sentimento de pertença. Foi no seio dessas instituições leigas que os escravos conseguiram, muitas vezes, burlar a perseguição da administração senhorial e promover, por meio das formas tidas como “cristãs”, o cortejo e a coroação dos reis negros durante as festas dos santos padroeiros. Segundo explora Marina de Mello e Souza, no livro “Reis Negros no Brasil Escravista – História da Festa de Coroação de Rei Congo”, a presença dos reis negros, tanto nos quilombos quanto nas irmandades, possuía a função de catalisar algumas comunidades, sobretudo, na afirmação de identidades culturais.

 

O projeto de conversão

Esse movimento intencional e aceitável das irmandades negras é percebido ainda em Portugal quando um enorme contingente de irmandades é criado no país. Especula-se que as irmandades negras estiveram presentes em solo lusitano desde a primeira metade do século 15, porém não eram reconhecidas pela metrópole. É apenas no século seguinte que a Igreja passa a perceber o potencial dessas organizações como ferramentas para o direcionamento ideológico e religioso, uma vez que, apesar de possuir autonomia própria, todas as ações eram controladas pelo Estado.

 

Durante os séculos 16 e 17, a Igreja intensifica suas ações, no sentido de inserir os chamados “homens de cor” na conjuntura cristã em expansão em toda a Europa. É nesse prisma que os santos negros, que já vinham sendo utilizados como aliados na cristianização do povo negro na África, tornam- se instrumentos na propagação dos ideais da Igreja Católica, uma vez que, por terem em sua derme a mesma cor dos negros, viriam a influenciar e servir de modelos de virtude a ser seguidos pelos escravos, chegando ao ponto de convertê-los.

 

Nesse contexto, a devoção do Rosário criada para a evangelização dos pagãos na Europa, Ásia e África é completamente absorvida em Portugal, sob o nome de confraria do Rosário do Mosteiro de São Domingos, com o papel centralizador de todas as demais confrarias que nasceriam tanto no Reino quanto no Brasil Colônia. Era na forma da devoção e nas rezas diárias repetitivas que a sociedade dominante embutia os dogmas da fé cristã aos iletrados que, mesmo de forma mecânica, acabavam por aprender os ensinamentos da Igreja. Estima-se que a devoção ao Rosário se intensificou principalmente durante o Concílio de Trento (1545-1563). Três séculos mais tarde, era praticamente impossível encontrar uma só paróquia que não cultivasse a devoção ao Rosário.

 

A catequese no Brasil
Negros e brancos assistindo à Santa Missa, por Johann Moritz Rugendas

No Brasil, foi ao longo do Setecentos que a Igreja começa a multiplicar as ações em torno da conversão dos negros. É também nesse momento que, além das irmandades, começa-se a propagação dos santos pretos, como exemplos de virtude cristã para os negros e seus descendentes. Nesse prisma, despontam nomes como o do Frei José Pereira de Santana, figura de grande representatividade no meio religioso, indicado para orquestrar a conversão dos negros da colônia portuguesa. Com mensagens e personagens repletos de heroísmo cristão, o frei se utilizou amplamente das figuras santificadas.

 

O primeiro, Santo Elesbão, é apresentado como um imperador soberano que, ao fim da vida, renuncia a sua coroa à Igreja. Santa Efigênia também faz parte das figuras virtuosas aclamadas pelo frei. Na sua representação, a nobre e princesa da Núbia, era alheia aos requintes da Corte e, além de se converter ao cristianismo, optou pela vida religiosa. É claro no discurso do religioso o endeusamento da fé católica como sendo o destino das pessoas virtuosas. Ambos os santos inseridos na sua catequese tinham a cor dos escravos, o que facilitava na projeção e na identificação com os negros. Na hagiografia escrita por ele, “um aditamento apologético acerca da cor própria e natural do glorioso S. Elesbão”, a cor da pele do santo é tema central, de forma a deixar transparente a preocupação para que os escravos se identificassem com a figura exemplar.

 

Outro ponto forte da catequese envolvendo os dois santos negros é que tanto Santa Efigênia quanto Santo Elesbão não aparecem como figuras inferiorizadas, uma vez que teriam optado por uma postura cristã. Dessa forma, os escravos que seguissem seus modelos de vida também seriam acolhidos de forma suprema pela graça divina. Esses moldes foram reproduzidos no Brasil Colonial, e a devoção a esses dois santos passam a fazer parte do cotidiano da Bahia, Pernambuco e Sergipe. No Rio de Janeiro, em 1740, os pretos da Costa da Mina edificam a irmandade em nome dos dois santos. Em “Devoção Negra – Santos Pretos e Catequese no Brasil Colonial”, Anderson José Machado de Oliveira faz uma leitura desse processo de catequização de escravos  e libertos por meio das investidas dos frades da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, presentes no Rio de Janeiro e em cidades como Ouro Preto e Mariana. No livro, o historiador realça que, além das representações negras, santos brancos também eram utilizados na doutrinação do povo negro, como é o caso de Nossa Senhora do Rosário.

 

A Festa de Nossa Senhora do Rosário, a padroeira dos escravos do Brasil colonial, aquarela de Johann Moritz Rugendas

 

Outra personagem que teria sido utilizada pela Igreja durante as estratégias de conversão dos escravos aparece na figura da escrava Rosa Maria Egipcíaca. Originária da Costa da Mina, a negra foi vendida como escrava quando tinha apenas 6 anos de idade e, assim como muitas outras histórias nos anais da escravidão, a trajetória de Rosa Maria foi contornada de infortúnios, passando, inclusive, pela prostituição. No entanto, desiste da vida de meretriz, tornando-se beata ao começar a ter visões místicas. É considerada impostora, açoitada no pelourinho, porém suas visões lhe proporcionam vários devotos, incluindo figuras do próprio clero. Aos 30 anos, aprende a ler e a escrever, uma proeza sendo ela mulher e ex-escrava.

 

Santo Elesbão | Foto: Reprodução/www.brazilmax.com

Com essa biografia, Rosa Maria passa a culminar no projeto de santificação, sobretudo, por ter sido uma escrava e ex-prostituta. Para a Igreja, ter uma negra com uma história de vida desenhada na colônia representaria um trunfo de grande valia na difusão da fé cristã e também a garantia de boas doações para o convento. Mas, a beata que a essa altura já era chamada de madre, era também uma negra extremamente conectada aos rituais negros e, entre visões místicas e fervorosa fé cristã, Rosa Maria era comumente vista em rituais, pitando cachimbo e em outras situações que evidenciavam o sincretismo religioso. Os relatos em que a beata aparece em transe, contorcendo-se e, muitas vezes, chegando ao desmaio começam a incomodar o clero, que logo se incumbiu de transformar a figura quase “santificada” em, a preta Rosa, como passou a ser depreciadamente mencionada durante o processo na inquisição.

 

No entanto, se, por um lado, a história de Rosa Maria revela claramente a forma com que a Igreja se utilizava dessas figuras de acordo com seus interesses na cristianização do povo negro, de forma que apenas as práticas cristãs deveriam ser consideradas, rejeitando-se, assim, qualquer prática negra ou sincretismo religioso, por outro, também realça a latente interferência dos escravos nessa  idealização da cristandade colonial que, por fim, nunca foi conseguida na sua totalidade.

 

Dentre os santos negros utilizados como vitrine da cristandade colonial, surge Santo Elesbão, Santa Efigênia, Santo Antônio de Categeró e São Benedito. Chama a atenção a devoção à Nossa Senhora do Rosário, que aparece como a mais difundida entre os escravos. Em um cenário onde a imposição da fé católica se tornava proeminente, a devoção aos santos representava um elemento de grande relevância, tanto no intuito de se obter proteção quanto no sentido de, de alguma forma, mascarar os rituais negros que nunca deixaram de ser praticados.

 

Os santos pretos
Santa Efigênia do Alto da Cruz | Foto: Divulgação/ Museu da Inconfidência

São Benedito e Santo Antônio de Categeró entram no rol de figuras santas e modelos de resignação e humildade. Negros e com passado pautado pela servidão, eles se tornam um exemplo da postura que se esperava de ex-pagãos convertidos ao cristianismo. Na pregação católica, os dois teriam sido ávidos defensores de seus senhores, mesmo após se tornarem libertos. Tanto São Benedito quanto São Antônio de Categeró aparecem na catequese e nos sermões sempre como servos, jamais como doutores. Deixando claro o caráter de subserviência do negro mesmo na escala religiosa.

 

No projeto escravista-cristão, o padre Antonio Vieira foi um dos primeiros a disseminar o discurso de que a escravidão deveria ser recebida como  dádiva. No seu sermão “XIV do Rosário”, datado de 1633, o padre reforça a importância dos escravos se apoiarem ao Rosário de Maria, no sentido de buscar forças para suportar as dificuldades do cativeiro, principalmente para garantir o resgate de sua alma. Segundo o clérigo, os negros deveriam ser gratos por terem sido levados como  escravos ao Brasil, onde por meio da postura cristã poderiam ser salvos e resgatados do pecado.

 

Por outro lado, dado a algumas semelhanças entre os preceitos cristãos e as religiões africanas, não foi difícil para o negro se apoderar das figuras exemplares dos santos negros exaltados pelo clero. Uma dessas semelhanças circundou a ideia do “novo mundo”. Os santos, na perspectiva dos negros, passaram a substituir a figura dos espíritos ancestrais e as divindades que teriam o poder de atuar como mediadores entre o mundo terrestre e o “novo mundo” que lhes seriam revelado. Percebendo o potencial desses personagens na catequização dos escravos, carmelitas e franciscanos, assim como outras ordens religiosas, acentuam ainda mais o estímulo à devoção dos santos negros entre os negros.

 

Em Minas Gerais, uma série de fatores, tais como a crise na mineração e a veneração ao culto mariano na figura feminina protetora de Maria, faz os negros assumirem grande devoção por Santa Efigênia. Por ser mulher, a santa ainda ganhava outro reforço pautado na importância da figura feminina nas questões educacionais e culturais do povo africano. Juntando todos esses elementos, fica fácil perceber o porquê de Santa Efigênia ter sido a santa negra de maior impacto na sociedade colonial escrava.

 

Para conferir mais curiosidades garanta a sua revista Leituras da História aqui!

Leituras da História Ed. 75

Adaptado do texto “O papel dos santos negros”