O papel feminino nos anos de 1960

Por Morgana Gomes | Foto: Reprodução/ Jornal do Brasil | Adaptação web Caroline Svitras

Hoje, o professor Lafayete Figueira, mestre em Administração pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vagas (EASP-FGV), e engenheiro formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com toda sua experiência tanto como docente quanto no mercado de trabalho, bem como de vida, diz que não decifrou a complexidade do “ser mulher”. Mas, há muito tempo, por toda a convivência que teve com elas, opina e reflete sobre a condição feminina em nossa sociedade.

 

Por isso, nesta entrevista, ele faz uma breve análise da evolução do papel da mulher a partir da visão de um jovem mineiro que, ao chegar ao Rio de Janeiro, entrou em contato com uma realidade totalmente nova e, a partir daí, passou a reformular uma série de conceitos sobre a evolução feminina, sem se ater ao ranço tradicional do machismo, que impregna a sociedade na qual o papel da mulher se transforma continuamente, apesar das imposições que ainda tentam conter sua evolução social, cultural e econômica.

 

Leituras da História – Quando a mulher começou a ganhar visibilidade e importância na sociedade moderna?

Lafayete Figueira – Entre os anos de 1940 e 1960, período em que passou a se destacar tanto social quanto profissionalmente, por exercer um papel mais consciente de protagonista da história, em virtude da própria percepção de mundo. Por séculos, de acordo com a sociedade patriarcal que prevaleceu, coube às mulheres apenas cuidar do lar, dos filhos e do marido. A primeira grande reviravolta nesse quadro se deu durante a 1ª Guerra Mundial, em virtude da escassez de mão de obra, momento em que elas tiveram que começar a sair de casa para manter a produtividade, principalmente da indústria bélica, em alta. Muitas trabalhavam 12 horas por dia, nos sete dias da semana, mas ainda eram rotuladas por frases como “fábrica não é lugar de conferência”, propagada por Henry Ford, porque, diferentemente dos homens, elas se comunicavam na linha de produção. Segundo o empreendedor norte-americano, as mulheres eram “bichos” estranhos na fábrica, pois já se revoltavam desde o fim do século 19, faziam greve e se inseriam nos indicados. Contudo, os patrões e a polícia tinham pouco fair-play [expressão do inglês que significa modo leal de agir em um jogo limpo] para lidar com essa situação.

 

Durante a 2ª Guerra Mundial, o contato com a realidade mais ampla despertou nas mulheres o interesse pela política e pelas causas humanitárias, como comprova a imagem na qual enfermeiras trabalham em um posto de recrutamento norte- -americano na intenção de conquistar novas adeptas para a Cruz Vermelha | Foto: American Red Cross

 

LH – Qual foi o elemento principal dessa revolução?

Figueira – Acredito que tenha sido a pílula anticoncepcional, produzida e lançada nos Estados Unidos em 1960. A partir dela, a mulher obteve o controle do seu próprio corpo e ainda pôde mudar suas atitudes, para adequá-las a um novo modelo de comportamento que contradizia os valores de uma sociedade moralista e conservadora. Em consequência, ela também passou a decidir com quem faria sexo, quem seria o pai de seus filhos e em que momento tê-los.

 

LH – Nessa época, a participação política feminina era efetiva?

Em virtude da escassez de mão de obra durante a 1ª Guerra Mundial, as mulheres começaram a sair de casa, principalmente para manter a produtividade da indústria bélica em alta | Foto: Frederick Roberts Collection, Anglia Ruskin University, held at ERO

Figueira – Era sim, embora houvesse discriminação até entre os revolucionários. Em 1964, por exemplo, muitos mantinham uma mentalidade tradicional em relação às mulheres, tanto que até nos chamados aparelhos clandestinos da guerrilha, de forma reacionária, cabia a elas as tarefas de limpeza e de cozinha, coisas totalmente femininas. Na época, já fora da luta, ouvi comentários amargos de mulheres sobre a convivência revolucionária nos aparelhos. Mesmo antes do golpe de 64, circulava nas hostes machistas universitárias a piada da militante que perguntou ao palestrante esquerdista qual seria a posição da mulher no processo revolucionário brasileiro, que pensávamos que estava por vir. A resposta foi curta, grossa e feroz: “Horizontal, minha filha!” A questão era complicada e o preconceito brutal, até dentro da vanguarda intelectual revolucionária. A questão feminina era menor, face à expectativa da revolução mundial e brasileira. “Operários de todo o mundo, uni-vos!” [um dos mais famosos gritos de protesto do socialismo, do Manifesto Comunista, de Kark Marx e Friedrich Engels]. Por conseguinte, “mulheres, por favor, façam fila e esperem a sua vez”. Mas elas não esperaram! Nos intervalos das reuniões, nos bares, nas filas do Cine Paisandú, coisas diferentes ocorriam: amor, sexo, poesia, casamento, filhos, fidelidade, ciúme, machismo, homossexualismo, literatura, Virginia Wolf etc. O segundo sexo da Beauvoir [em referência ao tema do livro Deuxième Sexe, publicado em 1949, uma das obras mais celebradas e importantes da autora para o movimento feminista] pensava, sonhava, discutia os relacionamentos e acontecia. A parceria, o companheirismo e a ternura entre Eva e Adão eram possibilidades. O futuro estava logo ali e seria muito bonito, melhor que o presente, tanto no social quanto no pessoal e nos afetos.

 

LH – Qual foi a interferência principal do movimento feminista em relação ao papel da mulher?

Figueira – Graças ao ativismo feminino norte-americano e, em particular, da atuação de Betty Friedman, ainda nos anos de 1960, a mulher percebeu que tinha força e independência do ponto de vista social e civil, embora ainda não a tivesse no plano econômico. A partir daí, elas agitaram a sociedade na luta pelos direitos civis e contra a guerra no Vietnam. Mas no capitalismo, a força de trabalho feminino não era e ainda não é tão valorizada como a dos homens. Consequentemente, em sua maioria, as mulheres continuam recebendo salários mais baixos, porque recebem o que o capitalismo permite a elas receber.

 

Betty Friedman à frente de uma marcha feminista, em 26 de agosto de 1970, em Nova Iorque| Foto: NY Times

 

LH – A globalização interfere nesse processo?

Figueira – Interfere, porque o problema da mulher também se tornou globalizado. Em relação ao homem, ela se iguala e ainda amplia o consumo, por exemplo. As mulheres também se educam mais e, em consequência, adquirem mais conhecimento do fazer. Elas são mais produtivas, disciplinadas e ainda sabem usar o corpo e a mente para se manter na trajetória traçada. No Japão atual, por exemplo, a terceirização abriu espaço para a mulher se inserir no mercado de trabalho, mas sem sair de casa e, dessa forma, ela vem conseguindo sua independência física, mental e, por vezes, até financeira. Em decorrência, muitas profissionais japonesas já estão se recusando à maternidade em prol da carreira.

 

Revista Leituras da História Ed. 68

Adaptado do texto “O papel feminino nos anos de 1960”