O poder do heavy metal

Por Rose Mercatelli | Foto: Manoocher Deghati/AFP/Getty Images | Adaptação web Caroline Svitras

Em 1989, o arcebispo dom Joseph Spiteri, no posto de segundo secretário da embaixada do Vaticano no Panamá, participava das festividades natalinas na mansão situada no centro da capital Nunciatura, no dia 24 de dezembro, apesar das incertezas que pairavam sobre a cidade por conta da invasão dos soldados americanos. O clima era de festa até o momento em que o núncio (embaixador) apostólico, monsenhor Juan Laboa, recebeu uma ligação de Noriega pedindo abrigo. Por volta das 15 horas, o ditador – a recompensa por informações sobre seu paradeiro, naquela altura dos acontecimentos, já chegava a 1 milhão de dólares – chegou à embaixada, acompanhado de dez pessoas. “Nós tínhamos pouco contato com ele”, afirma dom Spiteri, “mas o núncio ofereceu-lhe um quarto pequeno e ele pouco saía de lá.” Segundo o religioso, a preocupação de seu superior era evitar o derramamento de mais sangue.

 

As tropas americanas logo descobriram o seu paradeiro e usaram uma estratégia, no mínimo, sui generis para desentocar o ditador Manuel Noriega de seu refúgio. Protegido pelas regras da diplomacia, que não permitem a invasão de embaixadas, consideradas solo estrangeiro, Noriega esperava negociar em paz sua fuga do país.

 

Manuel Noriega | Foto: Carlos Guardia/AP

Entre as inúmeras informações que tinham a respeito de seu ex-colaborador, as autoridades americanas sabiam que Noriega odiava rock. Então, para pressionar psicologicamente tanto Noriega quanto os diplomatas da Santa Sé a entregarem seu protegido, os militares americanos recorreram ao som pesado de bandas de heavy metal como o Black Sabbath, Alice Cooper, Kiss, entre outras, tocado em um volume ensurdecedor. O bombardeio musical começou no fim da tarde do quente dia 25 de dezembro de 1989 ao som estridente da guitarra de Judas Priest, difundido por potentes caixas de som espalhadas ao redor da Nunciatura.

 

Entretanto, mais do que acabar com os nervos do exilado e do núncio apostólico, a tática barulhenta tinha um propósito. Os oficiais que faziam parte do Joint Chiefs of Staff, grupo de militares do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que assessoram o secretário de Defesa, os Conselhos de Segurança Interna e Nacional, além do presidente em assuntos militares, temiam que “poderosos gravadores pudessem captar as delicadas negociações em curso para a rendição de Noriega”, Maxwell Thurman, comandante das tropas americanas na Operação Causa Justa, ordenou, então, que fosse instalada uma enorme barreira de som ao redor do edifício. Thurman definiu a estratégia como “uma ferramenta psicológica efetiva”. Ao fim daquela tarde, a trilha sonora da SCN 98.3 FM incluía Screamming for Vengeance, do Judas Priest; War Pigs, do Black Sabbath; Prisoner of Rock n’ Roll, de Neil Young; Helter Skelter, dos Beatles. Até a performática Cher participou do ataque sonoro.

 

O bombardeio de rock durou três dias e três noites ininterruptos. Mas, pressionado pelo Vaticano e pela péssima repercussão da estratégia barulhenta na imprensa americana, o presidente George W. Bush mandou suspender a música no dia 28 de dezembro. Sem saída, Noriega acabou se entregando aos marines no dia 4 de janeiro de 1990.

 

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Adaptado do texto “Caudilho sanguinário”