O que querem os Illuminati?

Apesar do nome, a entidade é considerada a mais sinistra organização secreta que já existiu. Agindo nas sombras, seus membros tinham um objetivo maior: a destruição da Igreja Católica

Por Rose Mercatelli | Foto: Reprodução | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Quando a maçonaria moderna ressurgiu entre o fim do século 17 e início do século 18, logo encontrou um campo fértil entre a intelectualidade europeia. A partir daí, inúmeras sociedades começaram a aparecer e se transformar em um canal que permitia a seus membros, professores, juristas, teólogos, filósofos, cientistas, escritores – entre outros! – questionarem as instituições políticas e religiosas vigentes na época.

 

Entre essas sociedades, algumas ficaram conhecidas pela aura de misticismo e mistério que as envolviam. Entre todas, a que mais se notabilizou pelo seu lado obscuro foi a Illuminati da Baviera.

 

Confusão geral

Durante alguns séculos, o termo Illuminati (do latim, os iluminados) foi usado por diversos grupos, alguns reais, outros nem tanto. A maioria deles, inclusive, estava em conflito com as autoridades políticas e religiosas de seu tempo. As teorias dessas associações, todas se autodenominando “iluminadas”, eram contraditórias, o que acabou gerando uma confusão enorme para os historiadores diferenciarem umas das outras.

 

No século 14, por exemplo, a expressão serviu para nomear uma fraternidade conhecida como os Irmãos do Livre Espírito, um movimento leigo cristão que floresceu no norte da Europa. A fraternidade pregava a pobreza, mas no sentido de purificar o homem do pecado e ressuscitar Cristo nele e não de se desfazer dos bens materiais.

 

No século 15, o título foi usado também por entusiastas das ideias ditas “iluministas”. Esses pensadores acreditavam que a luz, ou seja, o conhecimento espiritual e psíquico, era o resultado não de uma fonte autorizada – escolas, professores, mentores, filósofos, pensadores, teólogos, entre outros –, mas, sim de uma revelação interna e secreta, gerada por um estado alterado de consciência. De acordo com alguns estudiosos, algumas seitas usavam o haxixe para a expansão da consciência.

 

Hoje, porém, o termo é usado para designar principalmente aos Illuminati da Baviera, uma sociedade secreta criada na Alemanha, no ano fim do século 18.

 

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Um jovem gênio

Fundada por Adam Weishaupt, professor de Direito Canônico da Universidade de Ingolstadt, na Baviera, a sociedade, primeiramente, recebeu o nome pomposo de Antigos Visionários Iluminados da Baviera. As teorias e preceitos da fraternidade foram um reflexo de todo o conhecimento filosófico, espiritual e místico adquiridos por Weishaupt desde os cinco anos de idade, quando passou a morar com o avô, o barão de Ickstatt. Por influência dele, foi estudar com jesuítas, entre os quais ficou famoso por sua inteligência e capacidade de memória.

 

Revolução Francesa: alterou o quadro político e social da França | Foto: Reprodução

 

Weishaupt nasceu em 1748, época em que as ideias iluministas dominavam as mentes mais brilhantes da Europa. E foi na biblioteca do avô que o jovem tomou contato pela primeira vez com os filósofos dessa linha de pensamento. As visões do mundo propostas por esses pensadores o levaram a “descobrir” a maçonaria francesa.

 

Seu enorme interesse o levou a Paris, onde conheceu Maximilien Robespierre, um dos idealizadores da Revolução Francesa, nome dado a um conjunto de acontecimentos que ocorreram entre 5 de maio de 1789 e 9 de novembro de 1799 e que alteraram profundamente o quadro político e social da França.

 

Maximilien de Robespierre, advogado e político francês | Foto: Hulton Archive

 

Depois de se formar advogado, Robespierre ganhou fama ao defender os pobres contra as arbitrariedades da justiça da corte francesa. Por sua austeridade e dedicação, passou a ser chamado de “o incorruptível”.

 

Outra influência sobre Adam Weishaupt foi o de um místico dinamarquês chamado Kolmer que o introduziu nos mistérios esotéricos do Antigo Egito. Weishaupt sempre demonstrou uma queda por rituais pagãos e, ainda por cima, se encantou pelo maniqueísmo, religião fundada pelo profeta Mani da Pérsia, atual Irã, cujo dogma se baseia na guerra entre a luz e a escuridão (Deus e o Diabo) que estão em constante disputa para reclamar a alma das pessoas. Quando os jesuítas souberam das atividades heterodoxas de seu pupilo Weishaupt, acabaram por expulsá-lo da escola onde ele estudava.

 

Profeta persa Mani, fundador do Maniqueísmo | Foto: Reprodução

 

Seita elitista

Ele, então, saiu à procura de uma fraternidade que abarcasse os princípios de disciplina mental criado pelo jesuíta santo Inácio de Loyola com os conhecimentos da maçonaria junto a ideias do misticismo islâmico. Como não encontrou nenhuma, resolveu fundar a sua sociedade secreta em maio de 1776.

Segundo a pesquisadora americana Sylvia Browne, autora de As Sociedades Secretas Mais Perversas da História, Weishaupt decidiu formar um corpo de conspiradores para libertar o mundo da “dominação jesuíta da Igreja em Roma, trazendo de volta a pura fé dos mártires cristãos”. Alguns autores, como Sylvia, relatam que o primeiro nome do grupo foi, na verdade, Sociedade dos Mais Perfeitos, que mudou para lluminati, ou os intelectualmente inspirados.

Os cinco primeiros membros da fraternidade foram escolhidos entre os alunos da Universidade de Ingolstadt, onde ele ensinava Direito Canônico. Weishauspt não desejava presidir uma organização numerosa, mas poderosa. Por isso, só aceitava pessoas com uma boa situação social e econômica.

 

Santo Inácio de Loyola | Foto: Reprodução

Seus pupilos tinham de jurar obediência à organização, que se dividia em três categorias. O Berçário, para iniciantes, incluía os níveis Preparação e Noviço, Minerval e Illuminatus Menor. Na fase intermediária encontravam-se os níveis Maçonaria, com os graus Illuminatus Major e Illuminatus Dirigens. Já o alto escalão, o Ministério, englobava os graus Presbítero, Regente, Magus e Rex, o ponto mais alto da sociedade.

 

 

Ascensão e queda

Nas reuniões do grupo, Weinshaupt transmitia aos alunos ensinamentos proibidos pela Igreja Católica. Embora pesquisadores digam que ele conseguiu ingressar na maçonaria, parece que os próprios maçons não engoliam suas ideias radicais. De qualquer forma, o grupo começou a crescer. Um dos primeiros frequentadores do movimento, o barão protestante de Hannover Adolph von Knigge, já iniciado na maçonaria, foi quem, com Weishaupt, posteriormente, desenvolveu o rito dos Illuminati da Baviera.

 

Adolph von Knigge, barão protestante de Hannover, que já havia sido iniciado na Maçonaria | Foto: Reprodução

 

Graças às suas habilidades, os Illuminati rapidamente e espalharam pela Alemanha, Áustria, Hungria, Suíça, França, Itália e outras partes da Europa arregimentando personalidades como o lendário alquimista conde de St. Germain e Wolfgang Von Goethe (1749-1832), um dos maiores nomes da literatura germânica. Entretanto, a sociedade começou a incomodar o clero e a realeza da Bavária. A partir daí, iniciou-se a perseguição e a prisão de alguns de seus membros.

 

O conservador príncipe eleito da Baviera, duque Karl Theodor, por exemplo, advertiu sobre o perigo representado pelos Illuminati para a Igreja Católica e para as monarquias por causa de seus objetivos ideológicos. Em 1784, assinou um edital para a extinção oficial da fraternidade. Em seguida, Weishaupt foi demitido de sua cátedra indo para o exílio em Regensburg, para liderar a ordem no exterior.

 

Por causa da propaganda negativa contra a fraternidade, os Illuminati passaram para a história como articuladores de inúmeros movimentos que tinham (e ainda têm) como objetivo dominar o mundo.

 

 

O domínio do planeta

Alguns historiadores acreditam que o grupo continuou a operar na clandestinidade, defendendo ideologias como o anarquismo e o comunismo. Por isso, estariam por trás da Revolução Francesa (por conta da ligação entre Weishaupt e Robespierre), da Revolução Russa e do nascimento dos EUA como nação.

 

Revolução Russa de 1917, que derrubou a autocracia | Foto: The Daily Telegraph

 

A influência dos iluminados da Baviera é de tal ordem, que até na cédula de um dólar é possível encontrar símbolos que “atestam” a existência do tenebroso grupo. “O presidente Roosevelt, maçom de grau 33, aproveitou o desenho na nota para transmitir informações sobre os novos projetos dos Illuminati. Um deles seria a 2ª Guerra Mundial”, diz o escritor e numerólogo americano Robert Goodman, autor de o El Libro Negro de los Illuminati (“O Livro Negro dos Illuminati”, inédito no Brasil).

 

Para outros pesquisadores, os herdeiros de Weishaupt ainda hoje manejam as finanças, a imprensa e a política internacionais. Por trás de organizações poderosas estariam sociedades secretas como a “Crânio e Ossos” (Skull and Bones) e o clube Bilderberg, que reúne políticos, empresários, banqueiros e os comandantes das empresas mundiais de comunicação.

Sociedade secreta “Crânio e Ossos” (Skull and Bones) | Foto: Reprodução

O objetivo deles, de acordo com inúmeros pesquisadores, como a espanhola Cristina Martin, autora do livro El Club Bilderberg (sem tradução para o português), e a americana Sylvia Browne, seria o de por em prática um plano diabólico conhecido como A Nova Ordem Mundial (NOM).

 

Essa é a teoria conspiratória, na qual um grupo poderoso e secreto planeja dominar e escravizar o mundo por meio de um governo mundial único. Segundo o NOM, primeiro vai ser preciso derrubar governos de todo o mundo, bem como acabar com todas as religiões e crenças para unificar a humanidade sob os aspectos políticos, linguísticos, ideológicos e de credo religioso. O fundamento básico da teoria seria a uniformidade. Ou seja, quando a Nova Ordem chegar, haverá um planeta com apenas uma moeda, um exército e uma só religião.

Clube Bilderberg, que reúne políticos, empresários, banqueiros e diretores de empresas de comunicação | Foto: Reprodução

 

Os símbolos do dólar

De acordo com vários pesquisadores, a antiga seita bávara deixou pistas na nota de um dólar, como um registro de sua influência na sociedade estadunidense. Conheça alguns desses símbolos estampados na respectiva nota:

 

 

  1.  No centro da nota, está George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos da América, que recebeu o título de Grão-Mestre Maçônico.
  2. À direita de George Washington, o Selo do Departamento do Tesouro (The Department of the Trasury 1789) com três símbolos: a Balança (justiça); o Esquadro (Equidade e Retidão) e a Chave (a guarda dos segredos). 
  3.  À esquerda, a Pirâmide com o Terceiro Olho no topo é um dos principais símbolos maçônicos e dos Illuminatis. A pirâmide representa a hierarquia das classes sociais.
  4. O Olho-que-tudo-vê, um símbolo místico egípcio, representa os Iluminados, donos do conhecimento, do dinheiro e do poder. O símbolo foi herdado da maçonaria.
  5. A base da pirâmide feita de tijolos idênticos representa a população em geral.
  6. Acima da pirâmide a frase: ANNUIT COEPTIS. ANNUIT (em latim) significa “início”, “começo”. COEPTIS (em latim) quer dizer “empresa”, “domínio”, “controle”. Para os estudiosos dos Illuminati, a frase, então, quer dizer “o início da dominação”.
  7. Abaixo da pirâmide, a frase: NOVUS ORDO SECLORUM, que quer dizer “nova ordem dos séculos”. Ou, na interpretação livre de alguns pesquisadores, o lema quer dizer “uma nova ordem já começou”, uma pista do grande projeto dos Illuminati.
  8. O número 13, utilizado nos rituais do grupo, aparece em vários lugares: nas estrelas sobre a águia, nas flechas que ela segura com uma das patas, nos frutos e folhas do ramo que ela segura com a outra, nas listras verticais do escudo à frente da águia e, também, nos 13 andares da pirâmide.  

 

 

Adaptação do texto “Senhores do Mundo”

Revista Leituras da História Ed. 56