O reflexo social dos super-heróis

Eles se destacam em histórias em quadrinhos e, sem nenhuma ressalva, assumem-se como mídia de massa, até quando surgem nas telas do cinema, mas, dependendo do contexto, também são tidos tanto como instrumento de divulgação ideológica quanto de reflexão para e por seus admiradores

Por Morgana Gomes | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quem nunca sonhou em fazer justiça com as próprias mãos, ser aclamado pelo povo e, então, deixar a cena de forma especular para, depois, voltar a ser um cidadão comum? No íntimo de cada um de nós, esse desejo é latente, mas nos faltam atitude, audácia, coragem ou, então, os chamados superpoderes. Esse anseio, por vezes, quase que irracional, inspirou a criação dos super-heróis que, sem nenhum tipo de concessão, transformam os delírios mais secretos do homem em realizações fantasiosas ou nem tanto.

 

De acordo com o contexto histórico, eles já incorporaram o papel de guias comportamentais, espirituais e até de ideal a ser seguido. Brigaram com os efeitos do Crash de 1929, fortificaram os aliados durante a 2ª Guerra, reivindicaram direitos de igualdade nos anos 1970, participaram da Guerra Fria, destruíram inimigos e, incansáveis, ainda hoje, enfrentam os problemas que abrangem a esfera política, econômica e social do nosso planeta. Consequentemente,  ao mesmo tempo em que divertem, os super-heróis também influenciam opiniões.

 

Entre eles, enquanto alguns oferecem soluções dignas de aplausos, outros abusam de opções estapafúrdias. Mas todos fazem parte do nosso cotidiano e, de um jeito ou outro, fazem-nos refletir sobre situações que, por meio de outra  forma de apresentação, se mostrariam desinteressantes. Eles são notáveis! Portanto, considerando que conhecer o universo dos super-heróis também é desvendar um pouco da história, sugerimos que você acompanhe a entrevista de Alexandre Callari. Certamente, ela vai lhe ajudar a se posicionar e, quem sabe, até se aventurar em boa companhia!

 

Leituras da História – Por analogia, poderíamos dizer que os super-heróis são uma espécie de evolução dos deuses da mitologia greco-romana ou dos heróis bíblicos cujos poderes vinham de Deus?

Alexandre Callari – Há teorias a esse respeito que afirmam que praticamente todas as civilizações dominantes do planeta criaram seus próprios panteões de deuses. Isso pode ser verificado, a grosso modo, ao examinar a mitologia de povos como os egípcios, gregos, romanos, indianos, chineses e diversos outros que, em algum momento da história, imprimiram seu domínio sobre os demais. Atualmente, a sociedade ocidental funciona, em grande parte, dentro de uma ordem cristã e, no último século, o povo que “dominou” o mundo foi o norte-americano. Seu domínio não foi tanto bélico como o das civilizações de outrora, não obstante, foi um domínio cultural capitaneado por filmes, músicas e marcas, que só agora começa a se quebrar. Talvez por conta de vivermos tempos mais modernos ou de os EUA serem em grande parte um Estado protestante, não havia espaço para uma mitologia de caráter religioso que se confundisse com a crença do povo, como no passado. Sendo assim, um novo veículo foi criado para expressar a qualidade do Estado dominante. Nasceram, assim, os super-heróis, que encontraram sua principal “casa” nos quadrinhos, mas que, desde seu surgimento, ganharam o mundo da literatura, rádio, televisão e cinema, amalgamando-se à cultura pop até se tornarem quase indissociáveis dela, em um processo lento de quase um século que, agora, chega ao seu ápice.

 

LH – Como definir um super-herói e diferenciá-lo de um herói?

AC – Heróis não têm superpoderes. Eles surgiram na literatura, tiveram seu ápice na época dos pulps (revistas com histórias fantásticas e de ficção científica, por vezes, de menor qualidade, feitas com papel de baixa categoria a partir do início da década de 1900), e no rádio, nas décadas de 1920 e 1930 do século passado, e depois migraram para os quadrinhos. Eles protagonizaram o que se convencionou chamar de a era dos heróis de aventura. Como exemplo de heróis de sucesso, temos o Fantasma, Flash Gordon, Zorro e Buck Rogers. Em 1938, Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o primeiro super-herói, o Superman.

 

O incrível Superman

 

LH – Qual a relação entre os super-heróis e o inconsciente coletivo?

AC – Eles realizam os sonhos que a humanidade jamais realizará. Eles concretizam todos nossos desejos mais profundos – e também mais básicos – o de voar, de ser livre etc. Eles também correspondem a todos os ideais de justiça que aspiramos, equilibram a balança de um mundo desigual. Enfim, eles são nossos representantes, mesmo que à sua revelia. Crianças que cresceram lendo histórias do Homem-Aranha ou do Superman, por exemplo, aprendem desde cedo fundamentos éticos e morais equivalentes aos ensinados nas melhores escolas – e isso fica gravado no seu inconsciente. Nesse sentido, os heróis se  tornam guias comportamentais, guias espirituais e o ideal a ser seguido.

 

Capa de Pluck & Luck, Pulp Magazine de 1920

 

LH – O senhor poderia fazer uma análise sociológica de um super-herói, para contextualizar e exemplificar o sucesso que os quadrinhos fazem?

AC – O sucesso dos quadrinhos não é facilmente explicável. Ele está ligado à expansão norte-americana e sua hegemonia como exportador cultural durante várias décadas. Da mesma forma que o cinema, música, cadeias de fast-food e marcas de tênis, os quadrinhos norte-americanos se impregnaram na cultura de vários países que têm relações culturais com os EUA. Cumpre notar que os demais países não têm panteões de super-heróis, mas apenas exemplos isolados. No Brasil, nossas maiores expressões são personagens como Capitão 7, Raio Negro e Velta – a maioria esquecida do grande público. Por outro lado, nossas raízes culturais tentam preservar lendas locais como o Saci e o Curupira, porém, essas figuras subsistem como curiosidade – e não aspiração. Existe uma grande diferença. A sociedade aspira ser como os super-heróis! Talvez daí venha seu grande apelo.

 

Após o sucesso obtido em 1954, em um programa da TV Record, o super-herói nacional Capitão 7 foi levado para os quadrinhos em outubro de 1959, graças à iniciativa da extinta editora Outubro/Continental

 

LH – Os super-heróis só ganharam vida em sociedades capitalistas ou eles também se fazem presentes, com nuances próprias, em países de sistemas mais fechados?

AC – Países de sistemas fechados não têm grandes heróis, conforme o que expliquei anteriormente. Hoje em dia,por exemplo, após a abertura da Rússia depois de anos fechada, estamos observando uma invasão dos heróis norte-americanos, cujo mercado tem crescido bastante lá. Em um país como a Coreia do Norte, o Estado não pode se dar ao luxo de concorrer com um mito, que sempre terá ascendência maior sobre o povo. Portanto, ele não permite que a informação seja alimentada. De certo modo, não é diferente do que o Estado Romano fazia com figuras que moviam as massas, incluindo Jesus Cristo.

 

LH – Sabemos que todo super-herói tem poderes quase que mágicos. É possível traçar um paralelo entre esses  poderes com a tecnologia, o pensamento religioso, a filosofia e a ideologia contemporânea?

AC – Sim. Os heróis são divididos em três grandes eras: a era de ouro, de prata e de bronze. A primeira compreende do fim dos 1930 até meados dos 1950.  A seguinte vai até meados dos 1970; e a terceira até fim dos 1980. Certas correntes defendem que estamos, hoje, na era moderna, mas isso não é 100% aceito. Na era de ouro, tínhamos uma predominância de histórias mágicas e mitológicas nascidas da necessidade das sociedades terem uma válvula de escape após terem sido dilapidadas por eventos graves como a quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, e a 2ª Guerra Mundial. A era de prata é marcada pela predominância de histórias de ficção científica, oriundas dos avanços que a ciência obteve a partir dessa década, com destaque para a conquista do espaço. E a era de bronze surge após eventos como a Guerra do Vietnã, que trouxeram nova forma de consciência à sociedade e, portanto, é marcada por histórias mais realistas e violentas.

 

Exemplo de quadrinhos da era de ouro, com suas histórias mágicas e mitológicas que serviam como válvula de escape para a sociedade que enfrentava anos negros, entre o final de 1930 e meado de 1950

 

 

LH – Se o mundo imaginário das superaventuras manifesta os valores dos próprios cria dores dos super-heróis, poderíamos dizer que elas também expressam valores sociais intrínsecos ao período da criação dos super-heróis?

AC – Sim. Quadrinhos são uma mídia de massa e é óbvio que, enquanto produto, eles oferecem o que a massa quer. Se não falassem a mesma linguagem que ela, não teriam sobrevivido durante tanto tempo, com esse êxito todo. Seus criadores são, em geral, gente do povo, que, tal qual ocorre na literatura formal, utilizam-se das suas criações para expressar suas ideias. O Superman representa os ideais dos EUA. A Mulher-Maravilha apresentou os ideais do Movimento Feminista na época do seu lançamento. Luke Cage, o primeiro super-herói negro a ter revista própria, nos anos 1970, surgiu para expressar a comoção do momento, com o Partido dos Panteras Negras e a luta pelos direitos que ocorria nos EUA por conta da ação de homens como Luther King e Malcolm X. Mais recentemente, a série Guerra Civil é uma crítica ferrenha ao governo Bush.

 

Luke Cage, o primeiro super-herói negro surgiu nos anos 1970, no contexto do Partido dos Panteras Negras e da luta pelos direitos que ocorria nos EUA

 

LH – Como os super-heróis só colocam em prática seus poderes diante de seres poderosos com quem convivem, o que eles espelham, na realidade, da nossa sociedade?

AC – Há muitas interpretações. Lutar contra poderes maiores que os seus é a tônica de qualquer sociedade. Seja um rei, um bispo, uma ditadura, criminosos ou o que for, a sociedade desde sempre precisa enfrentar uma força maior que a sua. Os heróis são uma representação disso.

 

LH – Além do senso de justiça, a ânsia por mais violência pode ser entendida como fator que atrai leitores para o gênero quadrinhos?

AC – Não só nos quadrinhos. Isso é observável no cinema e em outras mídias, até mesmo na música. Observe a ascensão do rap de gueto e do funk carioca, com suas letras violentas e grosseiras. Mas, cabe dizer, que os quadrinhos são uma mídia muito ampla e, como tal, não podem ser categorizados tão preto no branco assim.

 

LH – É possível traçar um paralelo entre alguns super-heróis e os homens mais poderosos da época em que surgiram?

AC – Creio que não. Acredito mais que sejam estereótipos, como, por exemplo, o Homem de Ferro, que é um poderoso cientista da indústria armamentista.

 

 

 

LH – Há uma linha limite entre o imaginário e o real nas possíveis hipóteses que cercam os super-heróis?

AC – Não. Se houvesse, os heróis perderiam grande parte do seu apelo. Nas histórias de heróis, temos as mais estapafúrdicas ideias, calcadas ou não na realidade.

 

LH – É comum ouvirmos dizer que o Capitão América foi um instrumento norte-americano de propaganda contra os nazistas. Essa hipótese é verdadeira?

AC – Sim. Mas ele não foi o único. Praticamente, todos os heróis da época se tornaram instrumentos contra o nazismo. O Tio Sam, personificação do próprio Estado Americano, tornou-se um personagem de carne e osso. Superman trazia nas suas capas apelos para o povo norte-americano fazer frente aos japoneses. Hitler era ridicularizado nas capas e histórias de personagens cômicos, como uma figura patética e fraca. Quadrinhos era um instrumento de propaganda nos EUA, da mesma forma que o Eixo utilizava o cinema e a panfletagem, por exemplo.

 

Capitão América: ideais americanos e luta ideológica contra o nazismo

 

LH – Como tal história se espalhou pelo mundo, permitindo outro olhar, menos fantasioso e mais metafórico, sobre os super-heróis?

AC – Como citado, a questão não é exatamente um olhar menos metafórico. Estamos falando de milhares de páginas sendo produzidas mensalmente pelas editoras – é óbvio que nem tudo era panfletista. Era mais como a inserção de determinados valores em momentos especiais, os quais, em retrospecto, saltam aos olhos.

 

LH – Existem outros heróis que expressam a mesma ideia em relação a fatos históricos? Quais?

AC – Não com tanta força. Mas até aí, não há momentos na história moderna que tenham tanta força quanto a 2ª Guerra. Em tempos recentes, os conflitos no Iraque despertaram muitas manifestações nas HQs. A eleição de Obama foi capa de uma revista do  Homem-Aranha (o mesmo tinha ocorrido com Kennedy, nos anos 1960, em uma história do Superman). Em uma aventura chamada Invasão Secreta, da Marvel, o Ato Patriota reinstituído por George Bush (em referência a legislação antiterrorista promulgada depois dos atentados de 11 de setembro de 2001) foi duramente criticado. Há sempre coisas assim acontecendo nos quadrinhos.

 

Em Invasão Secreta, da Marvel, o Ato Patriota reinstituído por George Bush foi duramente criticado

 

LH – Os super-heróis ainda assumem o papel de depositários de signos culturais em tempos atuais?

AC – É difícil dizer. Não temos o benefício do distanciamento para analisar com tanta acurácia, mas, hoje, os heróis já estão entremeados na cultura. Temos ferramentas de marketing poderosas na sociedade que fazem a diferença e dificultam uma análise precisa para determinar a fonte do sucesso deles.

 

LH – Hoje, a importância deles e de seus respectivos quadrinhos ainda é a mesma existente em meados do  século 20?

AC – Quadrinhos são uma forma de expressão. Um veículo cultural e educacional. Eles sempre serão importantes, assim como qualquer outra forma de arte.

 

LH – Qual o objetivo de seus livros?

AC – Nossos livros! Os coautores são meus amigos do (site) Pipoca e Nanquim, Daniel Lopes e Bruno Zago. Eles são um registro sério sobre o tema. Tratamos de forma jornalística e informativa uma questão que grande parte da mídia e da população entende como infantil. Nos livros, trazemos informações que vão desde meras biografias dos personagens até a história dos seus criadores, contextualização do momento histórico, melhores aventuras, centenas de curiosidades, expressividade dos heróis em outras mídias etc. É um compêndio muito completo sobre os personagens estudados e uma ferramenta ideal tanto para conhecê-los quanto para se aprofundar no tema. Mostra a intimidade entre cinema e HQs, que vem desde praticamente o nascimento de ambas as linguagens. Até onde sei, é a única coleção com essa proposta.

 

Página de The Ultimate Guide, graphic novels que traz a história de vida de Percy Jackson

 

LH – O que dizer da importância dos quadrinhos para a sociedade contemporânea?

AC – Quadrinhos são uma linguagem artística maravilhosa, cujas características intrínsecas só podem ser encontradas nela e em nenhum outro lugar, repletos de possibilidades estéticas e narrativas. Hoje, são produzidas HQs de todos os gêneros, biografias, eróticas, juvenis, adaptações literárias, super-heróis… Elas atendem ao gosto do público, qualquer que seja ele. Devem, cada vez mais, serem encarados com seriedade, isentas de estereótipos, como registros históricos e culturais do modo de pensar de determinado povo, de determinada sociedade, dos seus padrões linguísticos, preponderância ética, religiosa, política, suas tendências e inclinações. Os quadrinhos, desde o seu surgimento, galgaram um longo percalço e, hoje, estão chegando à maioridade com as graphic novels (livro com longas histórias em arte sequencial) e o reconhecimento do público e crítica. Convido a todos a conhecerem essas produções, despidos de qualquer ideia pré-concebida, e também a coleção Quadrinhos no Cinema, para uma amostragem maior da importância dos heróis na nossa cultura.

 

 

Sobre Alexandre Callari

Graduado em Letras, é escritor, tradutor, palestrante e aficionado por cinema e quadrinhos. No passado, também trabalhou com música e artes marciais. É autor de seis livros, incluindo Apocalipse zumbi: os primeiros anos, o primeiro do gênero de um autor brasileiro, e tradutor de Conan – o Bárbaro (ambos da Editora Évora). Proprietário de uma coleção de 14 mil quadrinhos antigos, ele viaja frequentemente pelo país, fazendo exposições de suas edições raras. É editor e apresentador do site Pipoca & Nanquim, no qual faz o que realmente adora: falar de cinema e de quadrinhos. Atualmente, é editor das revistas da DC Comics no Brasil.

 

Revista Leituras da História Ed. 59