O Santo Graal e a incansável busca por seu paradeiro

Historiadores modernos acreditam que a brutal perseguição aos cátaros tinha muito mais a ver com o guarda do Santo Graal que, segundo estudiosos da Idade Média, estaria em poder desse povo, do que propriamente à doutrina herética que professavam

Por Rose Mercatelli | Foto: Museo Nacional del Prado, Madrid | Adaptação web Caroline Svitras

 

As crenças religiosas da historiadora e professora americana Margaret Starbird, graduada em História Europeia e Literatura Comparada, ficaram profundamente abaladas quando ela leu o livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. No livro, o autor Michael Baigent, sugere que Jesus Cristo se casou com Maria Madalena e que sua descendência deu continuidade à linhagem sagrada do Filho de Deus.

 

Chocada com a heresia, a dra. Starbird mergulhou em pesquisas com a intenção de refutar as ideias de Michael Baigent e acabou estudando minuciosamente os cátaros de Languedoc. O resultado de seus estudos foi o livro Maria Madalena e o Santo Graal – A Mulher do Vaso de Alabastro. De acordo com a autora e outros historiadores modernos, além da própria história da região de Languedoc, Maria Madalena, depois da morte de Cristo, fugiu da Palestina com sua família e refugiou-se na Provence. Lá viveu uma vida de pregações até a sua morte.

 

 

Linhagem divina

Para entender melhor o assunto, a pesquisadora estudou a arte medieval, em especial, os desenhos deixados pelos cátaros e suas watermarks (marcas d´água), símbolos com os quais marcavam seus papéis e identificavam seus documentos e formulou algumas teorias. Ela acredita, por exemplo, que o envolvimento dos cátaros com o Santo Graal foi o principal motivo da perseguição e dos tormentos infringidos ao povo cátaro pela Inquisição.

 

Para a autora, o Santo Graal, suposto cálice sagrado no qual Cristo bebeu na Última Ceia, na verdade, simbolizava a gravidez de Maria Madalena que carregava em seu ventre um de seus filhos com Jesus, o herdeiro do “Sangue Real” da dinastia de David. Margaret Starbird revela em seu livro: “A crença que Jesus era casado e tinha herdeiros era natural na Provença. Acreditava-se que Maria Madalena vivera naquela terra e fora enterrada ali com seu irmão, sua irmã e vários amigos próximos. O mesmo aconteceu com as genealogias secretas das famílias nobres locais (supostamente todos descendentes de Maria Madelena). Após a Cruzada Albigense, as filhas sobreviventes dessas famílias nobres (os merovíngios) foram forçadas a casar-se com pessoas do norte da França, provavelmente para dissipar as reivindicações de certos clãs do Sul (região de Languedoc) de que eram os únicos a carregar em seu sangue a linhagem divina”. Ainda de acordo com Margaret, presumivelmente, a família refugiada da Palestina se manteve no seu novo lar, em Provença, o mais discretamente possível. As lendas afirmam que a linhagem de Madalena e Jesus sobreviveu e que, eventualmente, pertenceu aos reis francos, os merovíngios.

 

A pintura de Paolo Veronese mostra a conversão de Maria Madalena, após um sermão de Jesus. De forma subjetiva, revela sua vida mundana por meio do vestido decotado, impróprio para uma visita ao templo. Suas joias escorregando de seu pescoço simboliza a renúncia aos bens materiais. Apesar de não ser descrita na bíblia, a cena é narrada no livro de Pietro Aretino L’umanità di Cristo de (1535), sendo difundida no norte da Itália | Foto: The National Gallery, Londres

 

Antes de Starbird, em 1982, Michael Baigent também afirmou em seu polêmico livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada que a família guardiã do Graal, na verdade, era composta por nobres franceses descendentes de Jesus e Maria Madalena.

 

 

Muitas em uma

Maria Madalena, de todas as personagens bíblicas, talvez seja a mais instigante. Sua vida foi encoberta por inverdades divulgadas ao longo dos séculos pela Igreja ou por interpretações errôneas dos textos bíblicos. Em algumas dessas versões, Madalena teria sido “aquela que muito pecou”, expressão bíblica cuja interpretação deu margem a crenças que ela era uma prostituta. Mas, de acordo com os quatro evangelhos aceitos pela Igreja Romana como verdadeiros, houve, sim, uma mulher chamada Maria, da região de Magdala, que acompanhava Jesus, junto aos apóstolos e outras mulheres, por várias localidades na Galileia, onde ele fazia suas pregações. Madalena, inclusive, seria uma mulher generosa que ajuda o seu ministério com suas posses.

 

De onde surge, então, a lenda do caso de amor entre mestre e aluna? De uma série de textos, a maioria deles encontrados no Egito e escritos em copta, como é conhecida a língua egípcia durante a época romana. O mais famoso deles é o Evangelho de Felipe, no qual Maria Madalena é descrita como a “companheira” de Jesus e diz-se que Cristo “costumava beijá-la com frequência”.

 

Outros evangelhos encontrados no mesmo lugar e não reconhecidos pela Igreja Católica como verdadeiros (um deles supostamente escrito pela própria Maria Madalena) contam versões semelhantes com a citada no Evangelho de Felipe. Madalena e Jesus teriam se casado de fato. As bodas de Canaã, relatadas no Novo Testamento, seria a história do casamento dos dois.

 

Maria Madalena | Foto: National Gallery of Art (Washington, United States)

 

O Evangelho de Maria Madalena também dá indícios que ela teria sido uma discípula de suma importância entre todos os seus seguidores e apóstolos. Jesus teria confidenciado informações a ela que não passou aos outros discípulos. E pela confiança depositada em sua discípula, o próprio Cristo a teria escolhido para comandar a sua Igreja, o que teria gerado ciúmes, desconfiança e indispôs Pedro contra Maria Madalena.

 

Mas um fato parece ser unânime entre os historiadores: o fato, incomum para a época, de Cristo não se importar em ter seguidores dos dois sexos pode ter sido um dos motivos de tantas interpretações diferentes: “Ele recrutava seguidores e era itinerante. Porém, mais incomum ainda era o fato dele recrutar homens e mulheres e viajar com ambos”, escreve Ben Witherington III, especialista em Novo Testamento do Seminário Teológico Asbury (Estados Unidos).

 

Legião de anjos

A última referência à Madalena no Novo Testamento diz respeito ao seu encontro com Cristo ressuscitado no Domingo de Páscoa. Depois desse episódio,não existem fontes consideradas absolutamente seguras para saber o que aconteceu com ela depois desse encontro. Mas não faltam teorias a respeito.

 

Para alguns estudiosos, Madalena foi para Éfeso, na Grécia, em companhia de Maria, mãe de Jesus, logo após a ressurreição e morreu por lá. Em 886, seus restos mortais teriam sido transferidos para Constantinopla, atual Istambul, na Turquia, onde estão preservados.

 

Jesus Cristo | Foto: Alamy

 

Uma das tradições francesas conta que Madalena, seu irmão Lázaro, os amigos Maximiliano e José de Arimateia, depois de fugirem da Terra Santa com medo da perseguição dos soldados de Herodes, atravessaram o Mar Mediterrâneo em um frágil barco e foram parar na costa sul francesa, na cidade de Saintes-Maries-de-la-Mer, próxima a Arles.

 

De lá, o grupo seguiu para Marselha e começou o trabalho de evangelização, convertendo toda a Provença. De acordo com a lenda, Madalena se retirou para uma colina chamada La Sainte Baume (a Caverna Sagrada), onde se entregou a uma vida de penitência por 30 anos.

 

 

Santuário em La Sainte Baume

Prestes a morrer, seu corpo teria sido carregado por anjos para Aix-de-la-Provence até a igreja de São Maximiliano para receber seus últimos sacramentos. Seu corpo teria ido para um local conhecido como Villa Lata. Segundo Historiadores, essa história teria sido relatada pela primeira vez por volta de 745, registrada pelo cronista medieval Sigisberto. De acordo com o mesmo relato do cronista, os restos mortais da santa teriam sido removidos para Vezélay por medo dos ataques dos sarracenos.

 

A liberdade guiando o povo, de Eugène Delacroix: no livro A questão judaica, Marx já salientava a falácia do arcabouço legal instituído pela Revolução Francesa que separou o homem legal do homem real | Foto: Wikipedia

 

Por volta de 1600, as relíquias foram depositadas em um sarcófago, operação que foi observada de perto pelo próprio papa Clemente VIII. A cabeça teria ido para um relicário em separado. Porém, o tesouro sagrado teria sido espalhado e destruído na Revolução Francesa. A Igreja de La Sainte Baume, próxima à gruta onde Madalena viveu por três décadas, também teria passado por depredações durante esse período, mas foi restaurada em 1814. Dez anos depois, a gruta foi novamente consagrada à Santa Madalena, onde se encontra até hoje a sua cabeça. O santuário é ponto de peregrinação de milhares de devotos daquela que foi considerada a amada companheira de Jesus.

Adaptado do texto “Maria Madalena e o cálice sagrado”

Revista Leituras da História Ed. 68