O Xamanismo é uma cultura de valorização da natureza

Diferente das sociedades secretas religiosas, elas não pretendem revelar um saber oculto de ordem divina, dogmática ou que precede de uma revelação. Em vez disso, propõem que seus adeptos melhorem a si mesmos ou a comunidade, colocando-os literalmente no caminho.

Da Redação | Foto: Reprodução/www.ceuazul.org.br | Adaptação web Caroline Svitras

O Xamanismo é um complexo de representações, práticas religiosas e mágicas difundidas em especial no norte da Ásia e na América do Norte. Conta uma lenda siberiana que, no princípio, viviam dois povos celestiais na Terra. O povo que vivia no Ocidente era bom, e o povo que vivia no Oriente era mau. Os deuses criaram os homens e tudo vivia em paz e harmonia, mas o Povo Mau enviou para os homens as doenças e a morte.

Para aliviar o sofrimento das pessoas, os deuses enviaram uma águia para transmitir os poderes medicinais do xamanismo. A águia foi até os homens, mas eles não entendiam sua linguagem, de forma que ela não conseguiu transmitir a ciência e o dom da medicina.

A águia voando, com a firme decisão de cumprir sua missão, viu das alturas uma bela mulher, dormindo nua nas sombras de uma árvore. Ela pousou, fez amor com essa mulher e do fruto desse amor nasceu o primeiro xamã da Terra. Essa metáfora ilustra a ligação do homem medicinal, do xamã ao animal.

(Trecho retirado do livro Espírito Animal, de Léo Artese)

 

O xamanismo se baseia na crença nos espíritos e nos fantasmas e na existência de pessoas especialmente dotadas, os xamãs. São eles que entram em contato direto com as instruções do mundo do além e colocam em ordem a relação abalada entre o homem e a natureza. O xamanismo não é vinculado a nenhuma religião específica. Os elementos essenciais são estados alterados de consciência, como o êxtase relacionado ao transe, o tema da viagem da alma e as ações recíprocas com os espíritos.

 

Foto: Eduardo Viveiros de Castro – Antropólogo. Professor do Depto. de Antropologia do Museu Nacional (RJ)

Na cultura xamânica, todos os elementos da natureza possuem uma função e importância na vida da humanidade e do universo, por isso, estar conectado com ela significa estar em contato com o mais primordial da essência da origem da vida. Plantas, terra, minerais, água e animais fazem parte da construção da vida e o seu contato mais profundo nos ajudam a nos descobrir e dar força para enfrentarmos as dificuldades e obstáculos do nosso dia a dia. O xamanismo tem por base uma imagem cosmológica do mundo, que normalmente o divide em três partes: um supramundo (céu) e um submundo, intercalados pelo mundo carnal, que em geral deve ser apreendido com os sentidos. Essas áreas tem como eixo a chamada árvore do mundo.

 

Na imagem do mundo do xamanismo, a natureza é dominada por espíritos do mato, doenças do corpo e transtornos mentais. Só o xamã pode restaurar a harmonia entre os seres humanos e as deidades. “Praticar o xamanismo é buscar a excelência espiritual, enxergar a realidade existente por trás dos conceitos, harmonizar-se com as marés naturais da vida”, exemplifica Léo Artese, xamã e autor de vários livros sobre o assunto. As relações entre homens e animais são de natureza espiritual, ela é tão íntima que os xamãs acreditavam ser possível tornarem-se animais. “Para os xamãs, tudo o que é da natureza e convive conosco sobre a Mãe Terra tem sua energia própria. Da mesma forma, os animais, plantas, pedras (minerais, metais). Mas o que interessa são os ´espíritos´ desses seres”, lembra Denis Rojas, guerreiro da Tribo do Arco-íris, condutor de jornadas xamanicas na Casa de Bruxa em Santo André.

 

A presença dos bichos dentro da filosofia xamânica é tão grande, que um dos primeiros rituais realizados no xamanismo é para a descoberta do animal de poder de cada participante. Além disso, em todas as cerimônias, alguns animais são reverenciados e tidos como protetores do ambiente.

 

Revista Leituras da História Ed. 87

Adaptado do texto “Xamanismo”