Obras recentemente encontradas podem ter autoria de Da Vinci

Por vezes, improváveis; por outras, simplesmente inesperadas: eis o mito de Leonardo

Por Átila Soares da Costa Filho* | Foto: Reprodução | Adaptação web Caroline Svitras

A história costuma seguir o mesmo padrão: referências soltas, informações mínimas no Google e uma única imagem – de qualidade baixa – disponível ou em livros muito antigos, ou pela internet. Aí, depois de um período que pode levar sabe Deus quanto tempo, surge aquela pintura daquele grande mestre sendo revelada ao mundo em todo seu esplendor. E Da Vinci é campeão neste sentido: nos últimos anos foram diversas vezes que isso ocorreu envolvendo seu nome e, inclusive, culminando no ressurgimento da Jovem Mona Lisa e Salvator Mundi.

 

Mesmo o celebrado afresco perdido A Batalha de Anghiari parece ter sido achado em 2012, no Palazzo Vecchio, Florença, abaixo da camada de outra pintura, um mural de Giorgio Vasari – além de artista, também o maior biógrafo dos pintores renascentistas italianos. Entretanto, em nome da preservação do magnífico afresco superficial, preferiu-se não levar o projeto adiante que resultaria na destruição do mesmo: a perfeita situação em que se opta por não trocar o certo pelo duvidoso. Já em outros tantos casos – a maioria – envolvendo um provável Da Vinci inédito, simplesmente, tudo se revela em alarme falso.

 

Nada disto é tão difícil de entender: diante da tão escassa produção pictórica do artista considerado a mente mais brilhante de todos os tempos, era natural que a posteridade cuidasse de buscar suprir tal lacuna por via das mais variadas formas de se aumentar a lista dos Da Vinci originais. Seria o equivalente à função dos evangelhos apócrifos do século 3º em diante, em relação à tão curta e fria narrativa canônica sobre a vida de Jesus; ou seja, o que se quer é prolongar aquele “maravilhar-se” diante de algo (ou alguém) tremendamente especial, ungido com a aura da mítica.

 

 

“Isabella d’Este”

A marquesa de Mântua, Isabella d’Este, esposa de Francesco Gonzaga II, foi uma das mulheres mais influentes da Renascença italiana. Patrona das artes, fashionista e dama de ferro na política, esta bela figura chegou, mesmo, a ser referida como “a primeira dama do mundo” pelo escritor Niccolò da Correggio, neto ilegítimo de Niccolò d’Este III. Uma de suas imagens mais celebres é um desenho executado por Leonardo da Vinci enquanto acolhido pela Casa de Mântua a partir de 1499. O que ocorre é que em muito se especulou sobre se este desenho seria um preparatório para uma pintura a óleo. Caso sim, onde estaria a obra finalizada (se é que, de fato, existia)?

 

Assim, há um ano, foi anunciado que uma pintura a óleo sobre tela, medindo 61 cm x 46,5 cm, de propriedade de uma família suíça, se poria como séria candidata a original perdida do retrato de Isabella d’Este – aqui, retratada como Santa Catarina de Alexandria. Pelo menos, uma datação por carbono indicou que tenha sido executada em princípios do século 16.

 

Entretanto, a questão está longe de ser uma unanimidade entre os especialistas. De fato, o estilo mais seguro nos traços faciais que se vê na fase mais madura do artista não é tão claro aqui. Além do quê, também há um elemento histórico destoante: Santa Catarina de Alexandria era a padroeira dos Sforza e dos Visconti em Milão. O correto seria Isabella vir como a maior protetora dos Gonzaga de Mântua, Santa Justina de Pádua. E, ainda que se argumente que esta estranha caracterização pudesse ser resultado das intervenções de colaboradores de Da Vinci após sua morte, o mesmo não nutriria maiores interesses em pintar um retrato de Isabella, justamente por não simpatizar com o comportamento arrogante e prepotente da marquesa.

 

Jovem Dama em manta de pele

Segundo nos informa o site ARTNET, em julho deste ano, um consultor americano em Arte de um escritório nova-iorquino, divulga no Facebook ter recebido o telefonema de um agente – o qual, pelo visto, nunca seria plenamente identificado – dizendo-se representar alguém disposto a vender não um, mas DOIS Leonardos: o furtivo JOVEM DAMA EM MANTA DE PELE (Portrait of a Woman with a Fur Wrap, como referido na matéria) e, ao que parece, um retrato de seu companheiro mais famoso (de Da Vinci), o “endiabrado” Salaino (Gian Giacomo Caprotti). Após ter entrado em contato com o escritório em Nova Iorque, obtive gentilmente a informação de que o consultor não estaria mais envolvido no assunto, e que não haveria mais dados a serem divulgados que trouxessem maiores esclarecimentos.

 

Jovem dama em manta de pele, cuja autoria é um mistério

Seja como for, pelo menos em nível mais aparente, da imagem de “Jovem Dama” já é capaz de se permitir alguns esboços de análises. A paisagem que se enxerga pela janela, por exemplo, é similar à da Gioconda, entretanto, os traços faciais da modelo são muito parecidos com os da Jovem Mona Lisa, assim como de uma série de pinturas executadas por Da Vinci e seguidores – a meu ver, tomando-se o rosto e o célebre sorriso desta última como matriz: Lisa Gherardini em torno dos dezesseis anos de idade. Estas pesquisas, inclusive, resultaram em um estudo publicado por mim neste ano com o título de “A Jovem Lisa”. Então, seguindo-se a referência, pode-se considerar a pintura como não sendo anterior à execução desta Mona Lisa suíça – pelo menos, não antes de 1503.

 

O trabalho, em si, também apresenta certo grau de qualidade, principalmente na construção da paisagem ao que, porém, perde algum impacto na representação do rosto e demais detalhes, tomados sem tanto esmero quanto se esperaria de um Leonardo. A obra poderia, sim, ser classificada como “di bottega”, “de estúdio”, em colaboração com outro artista. Este outro pintor deverá ser Salaino, a julgar pelo senso menos clássico dos traços, e em razão da proximidade que o mesmo teve com o quadro original (Jovem Mona Lisa). E, a julgar pelo estilo e tratamento, seu João Batista da Pinacoteca Ambrosiana de Milão, parece indicar a fase em que tenha sido executado em torno de 1515. Além disto, se aquele agente estiver correto, a outra peça em aquisição de seu cliente, um Retrato de Salaino, seria mais uma pista a indicar a autoria da “Jovem Dama” como do companheiro de Leonardo. Isto, porque é muito mais provável as duas obras terem vindo de um mesmo nicho – cuja conexão com Salaino já é um fato – que, milagrosamente, em duas ocasiões “únicas”, tendo-se em vista a raridade que é se achar um Da Vinci à venda.

 

Obviamente que só uma minuciosa e longa sessão de análises (tanto físicas quanto de observação direta), procurará oferecer uma resposta à principal dúvida comum: “Jovem Dama” é – ou “até que ponto é” –, mesmo, um Da Vinci? Mas é incerto que toda esta história tenha continuidade. Entretanto, se for o caso, poderia representar um capítulo adicional a reafirmar a aura de encantamento que o nome de Leonardo invariavelmente abriga. Não apenas para o mundo das artes, mas para toda a humanidade que sempre busca o fascínio do “belo” e vê, na mítica leonardesca, sua tradução mais vibrante.

 

Em tempo: há uma notável versão de 1512 desta obra, da autoria de Sebastiano del Piombo, a Jovem Romana (Dorotea), hoje em Berlim.

 

Revista Leituras da História Ed. 78

Adaptado do texto “Obras desaparecidas do gênio?”

*Átila Soares da Costa Filho é professor, especialista em História da Arte, Filosofia e Sociologia, colaborador da Mona Lisa Foundation e autor do livro A Jovem Mona Lisa e outras questões curiosas na História da Arte (Ed.Multifoco).