Os astecas

Para os historiadores, entre os principais povos da América pré-colombiana, eles foram os mais poderosos e desenvolvidos

Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Segundo as lendas, os astecas que viviam como tribos guerreiras nômades, ao decidirem seguir as instruções dos deuses para se fixarem onde vissem uma águia que, pousada em um cacto, devorava uma cobra, depois de uma longa e lenta migração que começou em Aztlán, lugar de existência ainda questionável situado no sudoeste do atual do território norte-americano, chegaram ao Vale do México, por volta do ano 1100.

 

Em termos políticos, a época era bastante confusa e, ao se estabelecerem na região onde já havia outras populações urbanas, sedentárias e agrícolas, entre as quais os toltecas, eles começaram a se mesclar com os habitantes locais. Ao mesmo tempo, as já existentes cidades de TenochtitlánTlatelolco que cresciam em importância, trouxeram mais recursos para os assentamentos locais, facilitando a vida dos astecas. Porém, as disputas políticos-comerciais entre ambas também passaram a exigir uma linhagem de soberanos, o que se consolidou com a eleição de um tlatoani (aquele que tem a palavra).

 

Em meio a esse contexto, aos poucos, os astecas começaram a dominar as rotas comerciais e receber tributos de quase toda a Mesoamérica, enquanto faziam do idioma náhuatl a língua oficial. Guerreiros como eram, por meio de campanhas militares, eles foram lentamente construindo uma rede de relações tributárias, comerciais e ideológicas. Por volta de 1200, com a ajuda das cidades de Texcoco e Tlacopan, finalmente assumiram o poder local, sob o reinado de Montezuma, o Velho, que consolidou o poder político na região, legitimado pelos laços de parentescos disseminados em seu domínio, sobreposição de deuses e alianças matrimoniais.

 

Reprodução de uma página de um códice desconhecido que mostra o povo asteca em atividades cotidianas | Foto: Creative Commons

 

A partir daí, as astecas começaram a conquistar outras cidades do vale, atingindo um raio de mais de 200 quilômetros. Já no século 15, graças ao império que formaram, controlavam todo o centro do México e, assim, no princípio do século 16, tinham expandindo seus domínios de costa a costa, fundamentados principalmente pelo modo de produção tributário.

 

O centro do império

No período anterior à sua expansão, conforme documentos redigidos por religiosos espanhóis, o povo asteca estava no mesmo estágio cultural dos outros povos mesoamericanos. Por isso, ele apenas absorvia os conhecimentos das civilizações preexistentes, na intenção de construir sua própria cultura. Mas, em virtude da origem militar autônoma, eles empreenderam uma rápida expansão e passaram a subjugar e dominar os povos das redondezas.

 

Mural instalado no Palácio Nacional da Cidade do México que mostra a vida na cidade de Tenochtitlán de acordo com a concepção de Diego Rivera, um dos maiores pintores mexicanos do século 20 | Foto: Palácio Nacional da Cidade do México

 

De acordo com esse processo, em 1325, fundaram a cidade Tenochtitlán, em uma ilha do lago salgado de Texcoco, e a partir dela começaram a controlar o imenso império, que abrangia desde o centro ao sul do atual México. Nessa grande extensão territorial, estabeleceram as cidades-estados, cada qual controlada por um rei próprio. Porém, quando os espanhóis chegaram à Mesoamérica em 1519, o povo asteca como um todo apenas reconhecia em Montezuma II o único imperador. Por conseguinte, desde os primórdios da civilização, o sistema de governo sempre foi fundamentado na monarquia, na qual o conselho do imperador elegia o seu sucessor, a partir de membros da linhagem governante da chamada Casa Real, de forma hierárquica ou não, mas sempre alicerçado na origem divina. Contudo, o imperador não regia sozinho. Ele tinha o auxílio do Grande Conselho, que fortalecia sua obrigação tanto de proteger o povo quanto de homenagear os Deuses.

 

Inserida nesse panorama político, apesar da sociedade ter pouca liberdade de ação devido ao poder autocrata, mesmo sendo dividida em classes sociais, ela era bastante livre e ainda tinha a seu favor a mobilidade social. Havia nobres, soldados, trabalhadores e comerciantes que, em virtude das próprias atividades, relacionavam-se com outros povos. Na base da pirâmide social ficavam os escravos e servos, no meio dela as famílias das casas grandes e no topo a nobreza. No entanto, até os integrantes das camadas mais baixas tinham a oportunidade de chegar aos altos postos militares ou serem consagrados supremos sacerdotes por meritocracia.

 

Afinal, quem são?

 

Apesar desse privilégio, a grande maioria dedicava-se ao cultivo de milho, mandioca, cacau, algodão, fumo, batata, vagem, pimentão e abóbora – alimentos originários da América. Porém, os camponeses, artesãos e trabalhadores urbanos, ainda eram obrigados a exercer trabalho compulsório para o imperador, quando convocados para as obras públicas, que abrangiam desde o sistema de irrigação, repleto de aquedutos e canais por onde transitavam barcos, passando por estradas e ruas pavimentadas, templos e até pirâmides.

 

 

A cultura de Tenochtitlán

Embora os astecas, como os demais povos mesoamericanos, não conhecessem a roda nem o arado, eles desenvolveram técnicas agrícolas, obras de drenagem e ilhas de cultivo – chamadas de chinampas. Criaram também uma escrita bastante complexa, composta por desenhos e símbolos, e um calendário baseado no ano solar de 365 dias que, após algumas modificações, foi usado pelo povo maia. Os conhecimentos de astronomia e conceitos matemáticos que detinham surpreendem até os cientistas atuais. Além disso, eles mantinham escolas militares, religiosas e profissionais para as diversas classes, o que possibilitava a ascensão individual. Entre essas escolas, a dos nobres tinham grandes bibliotecas, repletas de riquíssimos códices feitos de papel preparados com folhas de sisal, que eram enrolados como pergaminhos ou dobrados como mapas. Eram também grandes artesãos, que se destacavam pela confecção de tecidos, objetos de ouro e prata, além de pinturas.

 

 

O cotidiano

Fisicamente, em sua maioria, o povo da cidade era forte, tinha pele escura, rosto redondo e cabelos curtos e grossos, aparência semelhante a de alguns grupos indígenas que ainda hoje vivem em pequenas aldeias perto da Cidade do México. Quando adultos, eles cobriam a cabeça, os braços e as pernas com plumas e peles de animais, calçavam alpargatas, usavam pintura corporal e adornos nas orelhas, no nariz e no queixo, adereços que indicavam a classe social a qual pertenciam. Os homens ainda usavam um pano amarrado na cintura e uma manta quadrada presa com um nó no ombro direito. As mulheres vestiam saia e uma ampla camisa com mangas.

 

Já as crianças quando completavam oito anos eram encaminhadas para as calpullis (escolas). De início, tanto os meninos quanto as meninas aprendiam o básico da escrita e as tradições do império. Depois o ensino era dividido. Enquanto as meninas eram orientadas em como tecer, costurar, cozinhar e cuidar de crianças, os meninos aprendiam a guerrear. Aos 21 anos, ambos estavam formados. As moças, então, já se mostravam preparadas para se casar e os jovens tornavam-se guerreiros, como todos os homens livres de Tenochtitlán.

 

Ilustração de uma chinampa – ou ilha de cultivo | Foto: Creative Commons

 

Em consequência, eles também demoravam um pouco mais para contrair matrimônio, o que acontecia somente por volta dos 25 anos. Mas quando casados recebiam do chefe de região que habitavam um lote para trabalhar junto a sua mulher e futuros filhos – até que eles também se casassem. Por conseguinte, em tempos de guerra, quando o marido ia para guerras, a mulher ficava tomando conta da propriedade. Porém, se ele ascendia na carreira militar que era levada em paralelo à sua vida de lavrador, ainda podia receber mais terras, fato que elevava sua família socialmente. Com mais terras, sua produção também aumentava e a venda dela lhe permitia comprar desde sementes até escravos, passando por obras de arte e bens de consumo. Assim, o homem também ganhava prestigio na vida pública da cidade e o Grande Conselho podia até lhe conferir um assento na espécie de senado que mantinha.

Além dessa possibilidade de enriquecer, havia outras duas. Ao guerreiro asteca era permitido vender prisioneiros para os toltecas e pochtecas, que não participavam do exército do império, mas precisavam fazer sacrificar humanos aos seus deuses. Já os demais homens do povo também podiam financiar plantações perdidas e, nesse caso, os proprietários delas tornavam-se devedores que, caso não pagassem a dívida, além de perderem suas terras ainda passavam a ser servos de seu credor.

 

Mapa dos domínios astecas em 1519 | Foto: Binghams Place

 

Outro aspecto interessante da sociedade asteca era a poligamia masculina que, embora fosse permitida, era não muito difundida, exceto entre alguns poucos homens muito ricos.

 

 

A religião do império

Os astecas eram politeístas. Portanto, eles cultuavam diversos deuses da natureza, para os quais construíram enormes pirâmides utilizadas para cultos e sacrifícios realizados em datas específicas em homenagem às deidades que, segundo a crença do povo, satisfaziam-se apenas com o derramamento de sangue, tanto de animais quanto de seres humanos, que ainda era tido como o alimento principal do sol. Em consequência, os sacrifícios eram realizados em grande escala.

 

Sacrifício asteca representado no códice Magliabechiano | Foto: Creative Commons

 

Embora o deus mais venerado tenha sido Quetzalcoat, a serpente emplumada que representava as energias telúricas que ascendem, a vida, a abundância da vegetação e o alimento físico e espiritual para o povo que a cultuava, a maioria dos sacrifícios eram dedicados a Huitzlopochtli – padroeiro de Tenochtitlám, deus do Estado e da guerra – e a Tlaloc – deus da chuva e senhor do raio, do trovão, do relâmpago e do inferno, para quem os astecas anualmente ofereciam o sangue de crianças, pois quanto mais elas chorassem durante o ritual, mais chuva o deus providenciaria para império.

 

Além deles, Nezaucoyoatl, rei de Texoco, mandou erguer um templo sem ídolos em forma de torre, para um deus sem face, invisível e impalpável, definido como “aquele, graças a quem nós vivemos”, que foi cultuado somente em torno dos domínios do rei citado.

 

 

Veneração da serpente nas religiões

 

 

O governo do império

Além de heterogêneo, o império asteca assumiu um aspecto informal e descontínuo. Não havia uma autoridade suprema sobre as terras conquistadas nem interferências nos assuntos locais das cidades-estados, conhecidas como altepetl, desde que os pagamentos de tributos fossem efetuados. Consequentemente, enquanto as cidades cresciam também havia uma grande competição entre elas que, de certa forma, foi responsável tanto pelo controle do império quanto pela decadência dele, devido à unidade política regional exercida pelos imperadores de cada uma delas.

 

De acordo com essa concepção, se o cruel Ahuizoti, imperador que governou de 1486 a 1502, foi o que mais expandiu o império, o seu sucessor, o justo e pacifico Montezuma II, que regia aproximadamente 500 cidades, que lhe pagavam altos impostos, permitiu que os espanhóis que já tinham massacrado tribos vizinhas, entrassem em seus domínios, por um detalhe bem curioso: a expedição do conquistador espanhol Hernán Cortez desembarcou em Tuxpan, em 1519, ano previsto para uma possível volta de Quetzalcoatl. Por conseguinte, o invasor foi tido como um representante do deus branco já esperado, fato que abalou definitivamente o império asteca.

 

Hernán Cortez, conquistador espanhol em retrato de autor desconhecido | Foto: Creative Commons

 

A partir daí, além de roubar parte dos objetos de ouro dos astecas, os conquistadores ainda escravizaram o povo, para forçá-lo a trabalhar nas minas de ouro e prata da região, o que fez tal crença cair por terra e Montezuma II se tornar refém dos espanhóis. Esse ínterim, o povo se revoltou contra os invasores e um soldado asteca acabou matando o imperador com uma pedrada na cabeça.

 

Antevendo os fatos, o Grande Conselho já havia empossado Cuitlahuac, que apesar de ter reinado por apenas 80 dias, ofereceu resistência aos conquistadores, que foram expulsos da cidade, totalmente destruída, em 30 de junho de 1520. Após esse período, com a morte do novo imperador em consequência de varíola, doença trazida para a região pelos espanhóis, o império foi assumido por Cuauhtémoc, que embora tenha tentando manter o que ainda restava de Tenochtitlán, depois de oito dias de contínuos combates, sucumbiu diante dos espanhóis, que em vez de matá-lo, preferiram usar sua autoridade, na tentativa de submeter os nativos aos desígnios do rei espanhol Carlos V. Só que em paralelo, o povo começou a jogar todo o ouro acumulado no fundo do lago Texcoco, para impedir a posse dele por parte dos conquistadores. Mesmo assim, a tomada definitiva de Tenochtitlán foi muito lucrativa para os espanhóis, pois eles encontraram uma rota segura para as regiões produtoras de ouro e prata.

 

Manifestações culturais e corporais

 

Em 1522, todo o império asteca já estava nas mãos da Espanha. Cortez, então, foi nomeado o Governador e Capitão-Geral da Nova Espanha nome dado ao antigo império. Passado dois anos os espanhóis iniciaram a conquista da península de Yucatán, na qual sofreram com a resistência maia, que só foi rompida em 1546. Enquanto isso, Cuauhtemoc que foi mantido vivo, foi obrigado a ver sua capital ser destruída e, em seu lugar, edificada uma cidade nos moldes europeus. Em 1525, ele morreu enforcado na praça principal de Nova Espanha, hoje Cidade do México, que teve boa parte do lago Texcoco drenado.

 

 

 

Vestígios das construções astecas

As ruínas da antiga cidade e do Templo Mayor que, por sua vez, medem aproximadamente 100 metros por 80 metros na base, foram encobertas pela nova cidade colonial espanhola. Apesar das inúmeras tentativas de localização, que ocorreram no final do século 19, somente nas primeiras décadas do século 20, parte do canto sudoeste do templo foi localizada e exibida publicamente.

 

Ruínas do Templo Mayor escavadas a partir de 1978 | Foto: Splake Spolt

 

Apesar do feito, não houve interesse na ampliação das escavações, pois a zona era uma área residencial da alta classe. Mesmo assim, em 1933, Emilio Cuevas descobriu parte de uma escadaria e de uma viga e, em 1948, Hugo Moedano e Elma Estrada Balmori escavaram uma plataforma que continha cabeças de serpente e oferendas. Dezoito anos depois, Eduardo Contreras e Jorge Angula encontraram uma arca repleta de oferendas.

 

Finalmente, em fevereiro de 1978, a escavação completa do sítio tomou impulso, a partir do momento que trabalhadores de uma companhia de eletricidade encontraram um monólito pré-hispânico em forma de um grande disco com mais de 3,25 m de diâmetro, 30 cm de espessura e pesando 8,5 toneladas, enquanto escavavam um buraco de dois metros de profundidade em um local conhecido como a ilha dos cães (nome relacionado ao fato de ser um lugar ligeiramente elevado em relação ao resto da vizinhança que, quando os arredores se inundavam, sempre atraia cães de rua). O achado repleto de relevos referentes à Coyolxauhqui, a deusa da lua, foi datado do final do século 15.

 

Disco de pedra referente à Coyolxauhqui, a deusa da lua, datado do final do século 15 | Foto: Miguel Angel Alvarez Bernardo/Creative Commons

 

A partir de então, iniciaram-se os projetos de escavação do templo. Como rapidamente muitos artefatos foram encontrados em boas condições de estudos, um decreto presidencial autorizou  a demolição de 12 edifícios da área para ampliar os trabalhos arqueológicos que, desde então, já renderam mais de sete mil objetos, incluindo efígies, oferendas, vasos de barro, esqueletos de tartarugas, sapos, crocodilos e peixes, conchas de caracóis e coral, além de algum ouro, alabastro, figuras mixtecas, urnas de cerâmica, máscaras, chocalhos de cobre, crânios decorados e facas de obsidiana e sílex, peças que atualmente estão guardados no Museu do Templo Mayor, cuja finalidade é resgatar, conservar e estudar a antiga pirâmide, seu Recinto Sagrado e todos os objetos associados a ela.