Os donos do Universo

Bem nascidos, ricos e poderosos, os sócios do Skull and Bones, um dos grupos mais fechados do mundo, parecem estar por trás dos grandes acontecimentos que abalaram a paz mundial no século 20

Por Rose Mercatelli | Foto: Manuscripts & Archives, Yale University Library | Adaptação web Caroline Svitras

Ao contrário das sociedades medievais como a dos templários, das quais faziam parte dezenas de milhares de peregrinos que não tinham nada a perder, a não ser suas almas imortais, existem fraternidades tão sigilosas e exclusivas que fica até difícil acreditar em sua existência. Mais difícil ainda é conceber a ideia que apenas uma centena de pessoas é capaz de controlar e intervir diretamente na vida de 7 bilhões de habitantes do planeta Terra.

 

Entretanto, historiadores, sociólogos, filósofos do mundo inteiro não só acreditam como elaboraram inúmeras teorias sobre esses clubes ultraprivados que almejam apenas uma coisa: dominar o mundo.

 

Ritual macabro
Universidade de YALE nos tempos coloniais | Foto: Yale Collection Of American Literature Beinecke Rare Boo

Imagine a cena: um ambiente na penumbra, um indivíduo jovem, branco e completamente nu se apresenta deitado em um caixão. Não, não é filme de ficção científica nem de terror. Está para acontecer mais um ritual de iniciação da Skull and Bones (Crânio e Ossos), sociedade secreta formada por estudantes de Yale, EUA.

 

A universidade, situada em New Haven, em Connecticut desde 1701, é a terceira associação de ensino superior mais antiga dos Estados Unidos. De suas classes saíram inúmeros ganhadores do Prêmio Nobel, juízes do Supremo Tribunal norte-americano, ministros, chefes de Estado, dirigentes da CIA e até presidentes dos Estados Unidos, considerados os homens mais poderosos do planeta.

 

Mas não é qualquer estudante de Yale que irá conseguir, no fim da cerimônia, “morrer para o mundo e ressuscitar para a fraternidade”, o que parece ser, segundo os historiadores, o significado desse rito de passagem. E também não é sua atuação acadêmica que irá contar pontos para a ficha de inscrição. Entretanto, se o candidato ao clube privé for branco, protestante, herdeiro de uma família fabulosamente rica e, de preferência, com pais e avós ex-estudantes de Yale, pode começar a se considerar bem-vindo ao grupo.

Plano de voo: a Casa Branca
George H. W. Bush | Foto: Library of Congress, Washington, D.C.

Alexandra Robbins, jornalista investigativa, professora universitária e autora de Secrets of the Tomb (“Segredos da Tumba”, sem tradução para o português) escreveu em seu livro: “A Skull and Bones é a sociedade secreta mais poderosa dos EUA”, afirma. Para ela, o melhor exemplo desse poder aconteceu em 2004. Os dois candidatos que concorriam à mesma eleição presidencial, o republicano George W. Bush e o senador democrata John Kerry, foram membros da fraternidade.

 

Antes de George W. Bush, seu pai George H. W. Bush, fazendeiro e empresário de petróleo no Texas e membro da fraternidade na turma de 1948, também fez do Salão Oval seu gabinete de trabalho entre 1989 e 1993. Setenta anos antes de Bush pai ser aceito na irmandade, William H. Taft, filho de um dos fundadores do grupo, também começava a sua iniciação. Anos mais tarde (1909-1913), viria a ser o 27º presidente dos Estados Unidos da América.

 

Dinheiro suspeito
William Huntington Russell em 1833, | Foto: Manuscripts & Archives, Yale University Library

Ainda que um dos cartazes pendurados em uma das paredes da sede da sociedade avise: “Quem é tolo/ Quem é sábio/ Pedinte ou rei/ Que seja rico ou pobre/ todos são iguais na morte”, apenas quinze universitários de Yale são recrutados anualmente pela Skull and Bones para o seu rito de iniciação. Estes depois serão treinados pelos mesmos veteranos que participaram do seu batismo sinistro. Enquanto ainda são estudantes, os bonesmen – “homens dos ossos”, como são chamados os integrantes da sociedade secreta – se encontram todas as quintas-feiras e domingos na “Tumba”. Este é o nome carinhoso dado à sede da Skull and Bones, erguida 24 anos depois de William Huntington Russel ter criado a confraria em 1832.

 

Proprietário da Russell CO, uma empresa de transportes com fama de enriquecimento ilícito por contrabandear ópio para a China durante a Guerra do Ópio – conflito armado entre este país e a Inglaterra, nos períodos de 1839 a 1842 e depois entre 1856 a 1860 –, o rico universitário primeiro batizou sua fraternidade de Clube Eurogian, que depois virou Skull and Bones (Caveira e Ossos).

 

O nome se originou de uma brincadeira de seus primeiros associados que penduravam um cartaz com uma caveira sobre dois ossos cruzados na porta da capela do campus de Yale, usada para suas reuniões, alertando aos comuns mortais que não queriam ser perturbados em seus misteriosos encontros. A sociedade também foi conhecida como a Ordem da Morte, Estrela da Corporação ou, simplesmente, a Ordem.

 

O segundo capítulo
A marca da Skull and Bones: uma caveira, ossos cruzados e o número 322 (segundo teorias, 322 simboliza o ano de 1832, quando a sociedade foi fundada) | Foto: Manuscripts & Archives, Yale University Library

Um dos seus símbolos mais enigmáticos da fraternidade é o número 322, estampado nos armários de sua sede e em alguns logotipos que a identificam. Segundo pesquisas, o 32 é uma referência ao ano de sua fundação (1832). O “dois” adicionado seria um código cifrado, indicando que a associação é o segundo capítulo de uma história que começou anos atrás na própria Alemanha, em uma outra sociedade subterrânea conhecida como os Illuminati (veja matéria publicada na edição 56 de Leituras da História).

 

A desconfiança aparentemente tem razão de ser. Segundo a história, William Huntington Russel, antes de se graduar em Yale, entre 1831 e 1832, estudou na Alemanha, onde supostamente teria se iniciado em uma sociedade secreta alemã.

 

O que querem os Illuminati?

 

A hipótese parece ter sido confirmada durante obras realizadas na Tumba. Na ocasião, foi encontrado material que se refere à Skull and Bones como o capítulo americano da sociedade alemã Illuminati, na ilegalidade desde 1785.

 

Entretanto, não são poucos os historiadores a acreditarem que a organização clandestina vive até hoje e que o plano concebido por Adam Weishaupt, fundador dos Illuminati, de comandar um planeta com apenas uma moeda, um Exército e uma só religião, seja o embrião do que a seria conhecida atualmente como a Nova Ordem Mundial. Segundo os teóricos, o chamado “processo de globalização”, iniciado no fim do século 20, faz parte da conspiração maior que tem como objetivo dominar o mundo.

 

 

Negociando com o inimigo

Os bonesmen tem uma predileção macabra por manter caveiras e esqueletos decorando os aposentos de sua sede, junto a inúmeros objetos do comando nazista. A coleção pode ser uma espécie de brincadeira de mau gosto. Porém, muito mais sério, foi o forte envolvimento de membros da Bone nas relações com o regime alemão antes da 2ª Guerra Mundial.

 

Grande parte de o complexo militar industrial americano, dizem os historiadores, colaborou com a ascensão de Adolf Hitler ao poder. Em 1930, Prescott Sheldon Bush, o avô do ex-presidente George W. Bush, iniciado na fraternidade em 1917, então presidente da Union Banking Corporation, envolveu-se em uma série de negócios lucrativos com o alemão Fritz Thyssen, o magnata do ferro, que abasteceu a máquina de guerra do Führer.

 

Cartão postal alemão da Skull and Bones em 1882, com os dizeres “Quem foi o idiota, quem era o homem sábio, mendigo ou rei?” | Foto: Manuscripts & Archives, Yale University Library

 

Em 1938, o avô de Bush, então sócio executivo da Brown Brothers Harriman, concedeu um empréstimo à Alemanha para que o país importasse combustível americano. Em 1941, um ano antes dos Estados Unidos entrarem na guerra, a Standard Oil, que pertencia aos Rockefellers, com vários homens da Bones em seu quadro administrativo, tinham seis navios com bandeira panamenha e tripulação alemã para transportar combustível às Ilhas Canárias, no Atlântico, onde submarinos alemães esperavam para serem reabastecidos. Enquanto isso, tropas aliadas morriam nos campos de batalhas da Europa.

 

O Big Brother

“É assustador notar que dois membros da sociedade cheguem a concorrer à disputa pela Casa Branca ao mesmo tempo em que outros membros do grupo ocupem cargos importantes no governo da maior potência do mundo”, declarou a pesquisadora Alexandra Robins, em uma entrevista ao 60 Minutes, da CBS, programa de grande audiência da televisão americana.

 

Muitos pesquisadores concordam com ela. Existem 800 bonesmen vivos, a maioria na ativa, na posição de comando na economia americana e em suas instituições políticas. Por isso, dizem os teóricos, há razões suficientes para o mundo se preocupar, até porque essa não é a única sociedade que parece puxar os cordéis do poder mundial. Existem outras igualmente suspeitas de participar do jogo do poder, manipulando a economia globalizada, com o principal objetivo de dominar o planeta Terra.

 

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Leituras da História Ed. 63

Adaptado do texto “Os donos do Universo”