Os falares do Brasil

Gírias, expressões populares, provérbios, lexias, idiomatismos. O que todos esses termos nos releva sobre o falar do brasileiro? Essa resposta pode estar na experiência cotidiana, na oralidade trivial, no papel de ouvintes e no encontro com a fraseologia popular que acaba por relevar uma variedade de falares propagados em diferentes partes do país

Por Ávany França | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Por que baiano fala oxente, mineiro, uai e gaúcho, tchê? Se essa pergunta for feita a um mineiro, a resposta seria algo como: “Sei não, uai.” Resultado das repetições, as variações linguísticas acabam por se entrelaçar à linguagem falada informal, fruto da regionalidade e, sobretudo, da criatividade popular. Em Pernambuco, por exemplo, usa-se muito o “visse”, assim como na Paraíba, o “vexado”. Muitas dessas expressões são replicadas em canções populares, na literatura e nas artes cênicas, principalmente como fator característico da cultura em que se pretende comunicar.

 

O falar gaúcho e o baianês são exemplos veementes dessa diversidade linguística brasileira e das construções que vão se formando no cotidiano regional. No primeiro caso, nota-se uma situação histórica bem peculiar, comparando-se com outros Estados do país. Por causa de sua localização geográfica, o Rio Grande do Sul acabou sendo cobiçado por diferentes colonizadores, como portugueses, espanhóis, argentinos e uruguaios, que em épocas distintas tentaram se apossar das terras do Sul do país.

 

Além dessas disputas, observam-se, ainda, outros entrecruzamentos, tais como a influência dos índios guaranis, que compõem um substrato étnico, além dos bandeirantes portugueses que migraram de São Paulo para a região. Toda essa miscelânea acabou por influenciar na formação linguística da região sulista.

 

Na Bahia, essa pluralidade dialética extraoficial foi catalogada por Nivaldo Lariú, um engenheiro que, após viver no Estado, decidiu publicar um livro chamado de O Dicionário de Baianês. O resultado é uma leitura com muito humor e, claro, com tradução simultânea. Segundo conta Lariú, que é carioca, desde a adolescência ele se sentia fascinado ao cruzar com títulos como Capitães de Areia, de Jorge Amado, a sonoridade de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Betânia e tantos outros representantes do Nordeste brasileiro.

 

Esse contato lhe permitiu também a percepção da forma diferenciada com que se fala em outras partes do Brasil, o que atraiu a atenção do engenheiro-escritor. Foi assim que começou a anotar frases populares que escutava no dia a dia, encontrando expressões como “porreta, tá rebocado, lá ele, baba e é de lenhar”, palavras que hoje extrapolaram os limites da comunicação diária e ganharam reforço e reconhecimento identitário do povo baiano em seu livro.

 

Perspectiva histórica

É possível afirmar que muitas dessas expressões idiomáticas transmitidas pela cultura regional possuem autores anônimos, no entanto, algumas delas surgiram em consequência de contextos históricos bem curiosos. “Aquele é um cabra da peste” é um bom exemplo dessas construções.

 

Para compreender essa expressão tão repetida no Nordeste brasileiro, faz-se necessário voltar o olhar para o século 16. “Cabra” remete à forma com que os navegadores portugueses chamavam os índios. Já “peste” estaria ligada à questão da superação e resistência, ou mesmo uma associação com o diabo. Assim, com o passar dos anos, passou-se a utilizar tal expressão para denominar qualquer indivíduo que se mostre corajoso, ou mesmo insolente, já que a expressão pode ter caráter positivo ou negativo. Aliás, quem já não ficou de “nhe-nhe-nhém” por aí? O termo, que normalmente tem significado de conversa interminável, monótona ou resmungo, tem origem no tupi-guarani. “Ñeéng”, na língua indígena, significa “falar” e os índios tinham grande dificuldade de entender os portugueses recém-chegados ao Brasil, para eles, todo aquele falatório não passava de nhe-nhe-nhém.

 

Segundo defende o escritor e etimologista Deonísio da Silva, o “tchê” é um reflexo do “che” espanhol, uma interjeição que se aproxima do “ei” da língua portuguesa. O vocábulo utilizado nas regiões fronteiriças do Brasil acabou sendo incorporado ao português nos séculos 18 e 19, sendo muito utilizado nas regiões ribeirinhas, pelos índios guaranis e jesuítas. Acredita-se também que o apelido do revolucionário “Che”, o Ernesto Guevara, foi-lhe acrescido pelo fato dele utilizar muito essa expressão, que também pode significar “eu”, “meu”, “amigo”.

 

Em A Influência das Línguas Africanas no Português Brasileiro, a etnolinguista Yeda Pessoa de Castro promove uma interessante viagem entre os séculos 16 e 19, período em que os africanos chegaram em massa ao Brasil. Além dos braços fortes para o trabalho escravo nos engenhos de açúcar, eles trouxeram consigo também os muitos falares da África, o que foi paulatinamente incorporado ao português que circulava pela colônia. Dessa forma, o Brasil, que segundo dados históricos, em 1823, possuía 75% da população constituída por negros e mestiços, interagia fortemente com o dialeto das senzalas, das plantações, quilombos e minas.

 

Da mãe-preta que dava de mamar aos filhos das senhoras brancas, escutava-se canções de ninar com palavras de afeto como “dengo” e “xodó”. Da culinária, o dendê e o fubá, de outros dizeres, o lenga-lenga, muamba, mocotó, sunga, dengoso e mais uma lista interminável de palavras africanas absorvidas e adaptadas ao português brasileiro, firmando-se sobretudo nas regiões onde a escravidão foi evidente.

 

Os sotaques

Há quem diga que o sotaque nortista é esquisito, que os baianos falam um português preguiçoso ou mesmo que os cariocas são presunçosos na sua oralidade. Resumindo, todas essas considerações são reflexos da diversidade cultural e linguística do país, e que muitas vezes toma caráter estereotipado. Muito dessa sonoridade tão peculiar é fruto do processo de colonização, o que, de certa forma, veio por influenciar o falar em diferentes regiões.

 

Os gaúchos e catarinenses, por exemplo, carregam fortemente referências europeias, sobretudo dos espanhóis, explícito no “R” acentuado. Em Pernambuco, a presença dos holandeses no século 17 também transformou o sotaque local. Os mineiros, além da influência caipira que tende a usar palavras no diminutivo, incorporaram também o falar rápido e baixo, resultado do contato com os revolucionários da Inconfidência Mineira.

 

Já a pronúncia caipira que muitas vezes se escuta no interior de São Paulo difere da versão mineira, uma vez que aparece misturada às influências portuguesas nos séculos 16 e 17. Enquanto em São Paulo os paulistanos se apossaram muito da fala dos italianos que se estabeleceram na região, no Rio de Janeiro, endereço da Corte portuguesa entre os anos de 1808 e 1821, os cariocas acabaram por absorver um sotaque mais próximo do português de Portugal, com a pronúncia chiada do “S”, que quase tem som de “X”. Dessa forma, nesse emaranhado de influências, sons e sintaxe, o Brasil foi se pluralizando linguisticamente e também sonoramente.

 

Revista Leituras da História Ed. 74