Os filmes com pano de fundo histórico

Longas-metragens podem impactar a nossa sociedade de maneira emocional, comportamental e política. Países como Estados Unidos, União Soviética e Brasil já tiveram histórias oficiais como pano de fundo em narrativas consagradas, sucesso de público e crítica, no cinema

Por Sergio Batisteli | Foto: Shutterstock  | Adaptação web Caroline Svitras

Desde os primórdios da sétima arte, a chamada história documentada é uma fonte essencial de inspiração para a criação, sobretudo na forma de narrar os acontecimentos históricos, que são revisitados pela linguagem cinematográfica. Por meio de roteiros, reconstituição de épocas e a contextualização dos fatos na visão crítica de alguns diretores nas telonas.

 

A maquiavélica obra O Nascimento de uma Nação (1915), por exemplo, ambientada nos Estados Unidos da Guerra de Secessão (1861 a 1865), traz uma suposta intenção de apontar as atrocidades da guerra. Mostra os negros como a origem da discórdia e a causa da separação entre o norte e sul do país. A narrativa racista do longa-metragem induz o espectador a escolher o lado dos brancos. Os negros são retratados como gananciosos e ignorantes que conspiram para roubar o poder.

 

O filme do diretor norte-americano D. W. Griffith teve um grande sucesso comercial, mas foi duramente criticado por apresentar os afro-americanos, que foram interpretados por atores brancos com as caras pintadas de negro, como sexualmente agressivos em relação às mulheres brancas. O longa-metragem também foi combatido por transformar os ultrarradicais e violentos membros da Ku Klux Klan em heróis.

Ku Klux Klan, ódio e terror

 

A União Soviética de Sergei Eisenstein revelou para o resto do mundo os bastidores do navio de guerra Potemkin. Marinheiros protestaram depois que foram servidas carnes estragadas para eles comerem. Em O Encouraçado Potemkin (1925), um médico que estava a bordo mentiu quando disse que a carne estava em perfeito estado para ser consumida. Alguns marinheiros se recusaram a comer e os comandantes do navio ordenaram o fuzilamento deles. Filmado em 1925, o filme narra o fato histórico ocorrido em 1905.

 

Nos anos 30, o genial inglês Charles Chaplin usou a imagem em movimento para explicar o comportamento da sociedade. Em Tempos Modernos (1936), assistimos a revolução industrial, as máquinas começaram a fazer parte da vida humana e as pessoas viraram peças-chaves na produção das grandes fábricas. Os operários foram os responsáveis pela geração de fortunas para os industriais, que não ofereciam nenhuma condição digna de trabalho ao seu funcionário na época.

 

Foto: Divulgação

 

Hoje, considerado um dos melhores filmes da história do cinema, pela crítica e público, Tempos Modernos não foi sequer indicado ao Oscar, certamente por criticar fortemente a sociedade americana e o seu american way of life.

 

Provavelmente, o exemplo mais conhecido da memória popular mundial, sobre um filme baseado na história oficial, seja o Titanic (1997). Na noite de 14 de abril de 1912, o navio transatlântico, durante sua viagem inaugural da Inglaterra para os EUA, colidiu em um iceberg no oceano atlântico e afundou duas horas e 40 minutos depois. Com 2.240 tripulantes a bordo, o naufrágio contabilizou a morte de 1.523 pessoas.

 

Fotos: Divulgação

 

O roteiro criado pelo diretor James Cameron, entre jovens de classes sociais diferentes – Rose (Kate Winslet) uma jovem da alta sociedade, prestes a se casar com seu rico noivo e um rapaz simples e aventureiro Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) –, resultou na paixão entre os personagens a bordo do navio… E, em meio ao intenso romance, aconteceu o trágico acidente, que eles enfrentaram juntos. Titanic foi o vencedor de onze Oscars em 1997: Melhor Filme (Cameron), Melhor Diretor (Cameron), Melhor Edição (Buff IV, Cameron e Harris), Melhor Fotografia (Carpenter), Melhor Direção de Arte (Peter Lamont e Michael Ford), Melhor Figurino (Deborah L. Scott), Melhores Efeitos Visuais (Rob Legato, Mark A. Lasoff, Thomas L. Fisher e Michael Kanfer), entre outros. Foi também o primeiro filme a arrecadar mais de US$ 1 bilhão mundialmente.

 

História para fazer cinema

Sem dúvida o gênero documentário é um grande aliado dos filmes que contam fatos históricos no cinema. É um casamento que pode gerar uma parceria fantástica, como objeto de estudo. No Brasil, existem excelentes diretores especializados na produção desse estilo na sétima arte.

 

O documentário dirigido pelo jornalista e cineasta João Batista de Andrade, Vlado – 30 Anos Depois (2005), está intimamente ligado à história recente do jornalismo brasileiro. O filme mostra um panorama do auge da ditadura dos anos 70, quando havia a censura prévia instalada pelo governo militar, que regulava os órgãos de imprensa no Brasil e durou até a primeira metade dos anos 80.

 

Desaparecidos da ditadura

 

Esse documento nacional traz importantes depoimentos com formadores de opinião, como Elio Gaspari, Paulo Markun, Fernando Moraes, Konder, George Duque Estrada, Mino Carta, entre outros. A obra de Andrade esclarece como foi a morte do diretor de jornalismo da rede Cultura Vladimir Herzog, indicando cinematograficamente que ele foi assassinado pelo regime militar e não se suicidado como foi divulgado na época em 25 de outubro de 1975.

 

O longa-metragem registra de forma totalmente livre e transparente a versão da família de Vlado. Foram ouvidos o irmão Ivo Herzog, a viúva Clarice e os jornalistas que foram torturados durante o regime militar. O filme é narrado de maneira extremamente corajosa, na forma de abordar como foram feitas as prisões e a execuções das torturas praticadas.

 

Silvio Tendler | Foto: Divulgação

Após filmar a obra Encontro com Milton Santos (2007), o diretor Silvio Tendler nos apresenta a história, pelo seu ponto de vista dos últimos 50 anos do século 20. Ele contextualiza as guerras e as revoluções em Utopia e Barbárie (2010), que passou por 15 países, entre eles França, Cuba, Brasil, Vietnã e EUA.

 

Silvio Tendler utiliza vários trechos de filmes para ilustrar diversas revoluções, por exemplo, Roma Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini. Campesinos (1970-1975), Colômbia, de Marta Rodriguez e Jorge Silva. Documentário que trata da forma de como os grandes proprietários de terra impõe a sua cultura e os conflitos em ocupações de terras, sobre os índios e camponeses. Camilo Torres, de Bruno Muel e J.P. Sergent, sobre o padre católico e guerrilheiro colombiano. The Black Panther Newsreel (1967), EUA, trata de registros históricos com entrevistas, audiências públicas e depoimentos de integrantes do grupo revolucionário Panteras Negras. A Batalha de Argel (1965) narra a luta pela independência da Argélia, que põe em combate o Exército francês e a Frente de Libertação, dirigido por Gillo Pontecorvo. Talvez o mais impactante, por ser um trecho longo usado no documentário, Setembro Chileno relata a tomada do poder pelo general Pinochet. Obra de Bruno Muel, diretor, fotógrafo e jornalista. Tais filmes foram escolhidos a dedo para representar por meio de outras obras cinematográficas os ideais, sentimentos e pensamentos de uma geração. O longa-metragem mostra que a utopia existe e paga-se um preço muito caro por isso.

 

O Pantera Negra e o STF

 

Tendler conta a relação direta dos EUA com as ditaduras sul-americanas. Registros em áudio nos são apresentados com as vozes dos principais políticos que, na época, defendiam a ditadura militar no Brasil e que ainda influenciam a opinião pública.

 

Utopia e Barbárie é uma aula de história e segue como indicação para professores que se preocupam em ensinar fora da classe, preocupados em mostrar outras formas de conhecimento. Essa obra é o que se costuma chamar dentro do jornalismo de “grande reportagem”.

 

Tancredo, a Travessia (2011), fecha a trilogia das cinebiografias de importantes presidentes brasileiros, como Os Anos JK – Uma Trajetória Política (1980) e Jango (1984). O diretor Silvio Tendler utiliza o ficcional para contextualizar fatos históricos, ou seja, insere atores no documentário e ilustra como foi o suicídio de outra figura crucial para a política brasileira: Getúlio Vargas. O longa-metragem explica quais foram as relações entre Tancredo e Getúlio.

 

A entrevista que ajudou a derrubar Vargas

 

Durante todo o filme, Tendler traça um paralelo ao relacionar a vida política de Tancredo diretamente com a história recente do país. Exemplo disso é quando narra os bastidores do golpe militar de 64, como o general Castelo Branco foi eleito graças à influência de Tancredo e, posteriormente, revela o papel primordial do mineiro de São João Del Rei, na criação do Movimento Democrático Brasileiro (MPB).

 

Assim como em Utopia e Barbárie (2010) os entrevistados são influentes personagens (atores, músicos, jornalistas, políticos, escritores etc.), na edição, em vários momentos, a palavra é concedida ao próprio Tancredo.

 

O ritmo da narrativa do documentário não é monótono, um dos elementos fundamentais para dinamizar a vida do estadista é a trilha sonora. Silvio constrói um filme com inúmeras fotos de arquivos, várias capas de jornais da época e um denso trabalho de pesquisa. Tancredo, a Travessia tem a narração nas vozes de José Wilker, Christiane Torloni e Beth Goulart.

 

Estrada Real da Cachaça (2008) apresenta, no século 21, como está atualmente o percurso da antiga Estrada Real (ligação entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro), sempre com a presença da cultura da cachaça. Uma cultura que no passado inseriu uma mesma identidade social, entre o escravo e o senhor de engenho. Os dois consumiam a bebida e também comiam mandioca nas antigas fazendas. Esse primeiro longa-metragem de Pedro Urano como diretor, que também assina a fotografia e o roteiro do filme, tem como um dos objetivos mostrar um Brasil que não aparece nos grandes meios de comunicação.

 

Você sabia que a cachaça foi criada no Brasil? Confira

 

Por meio de imagens artisticamente distorcidas, o uso de preto e branco, o documentário mescla o passado e o presente dos tropeiros. Homens que foram os condutores de tropas, chamadas de comitivas montadas a cavalo. Os tropeiros tiveram grande importância cultural, pois eles eram as fontes de informação e os veiculadores de notícias, entre os vilarejos e comunidades distantes umas das outras, em uma época em que praticamente não havia estradas no país.

 

Estrada Real da Cachaça se utiliza de argumentos fundamentados na história oficial e na pesquisa da cultura popular realizada por Pedro Urano.

 

 

Revista Leituras da História Ed. 58

Adaptado do texto “Baseados em fatos reais…”