Ossos encontrados no Rio de Janeiro denunciam aspectos desumanos da escravidão

Mais de 5 mil fragmentos arqueológicos encontrados em um cemitério abandonado há 160 anos ajudam pesquisadores a desvendar um dos episódios mais cruéis da história do Brasil

Por Rose Mercatelli | Fotos: Dra. Sheila Maria Ferraz Mendonça de Souza / Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, RJ | Adaptação web Caroline Svitras

Assim como milhares de sítios arqueológicos espalhados pelo mundo, o Cemitério dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro, foi descoberto por acaso. Ainda que registros históricos indicassem a existência de um local destinado ao sepultamento de escravos mortos logo após o desembarque no Cais do Valongo, RJ, porto de maior movimento do tráfego negreiro nas Américas no século 19, não se sabia exatamente a sua localização.

 

Até que, em 1996, a história começa a vir à tona quando o casal Mercedes e Petruccio dos Anjos iniciou a reforma de sua residência na Rua Pedro Ernesto, nº 36, no bairro da Gamboa, Rio de Janeiro. Para testar o terreno, os operários abriram quatro buracos de diferentes dimensões e profundidades ao longo da área de circulação externa da casa. Ao iniciarem o trabalho, foi enorme o susto dos operários quando se depararam com uma grande quantidade de ossos humanos misturados à terra e ao lixo removido da obra.

 

28 ossadas foram recuperadas | Foto: Divulgação

Os proprietários logo suspeitaram que se tratava de um achado importante e entraram em contato com o Departamento Geral de Patrimônio Cultural (DGPC), da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. Após dois meses de cuidadoso trabalho de resgate, limpeza e separação do resto do entulho, os milhares de fragmentos ósseos e dentários, entre outros vestígios centenários de cerâmica neobrasileira e colonial, louça, objetos de adorno e de metal, foram encaminhados ao Laboratório de Antropologia Biológica do Instituto de Arqueologia Brasileira. “Através do resgate e das pesquisas históricas efetuadas foi possível identificar o local como o antigo Cemitério dos Pretos Novos (1770 a 1830), lugar destinado aos enterramentos de escravos recém-chegados que morriam logo após o desembarque no Rio de Janeiro”, escreveu Lilia Cheuiche Machado, em seu artigo Sítio Cemitério dos Pretos Novos: Análise Biocultural, interpretando os ossos e os dentes humanos, publicado no Boletim do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). O relatório é uma síntese dos primeiros estudos realizados com os fragmentos arqueológicos encontrados na Rua Pedro Ernesto, na Gamboa.

 

A arqueóloga Lilia Cheuiche Machado, especializada em Arqueologia Biológica, na época chefe do Laboratório de Antropologia Biológica do IAB veio a falecer em junho de 2005, dias após finalizar seu trabalho de pesquisa.

 

Maus tratos a bordo

Além das doenças específicas já existentes em seus locais de origem, os ossos encontrados no Cemitério dos Pretos Novos também revelaram aos pesquisadores uma série de outras enfermidades adquiridas pelos escravos após seu aprisionamento e devido às condições atrozes de transporte nos navios negreiros.

 

O pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que chegou ao Brasil em 1821 como desenhista documentarista da Expedição Langsdorff, deixou em seus apontamentos um relato sobre os porões de um navio negreiro: “Esses infelizes são amontoados num compartimento cuja altura raramente ultrapassa um metro e meio. Esse cárcere ocupa todo o comprimento e a largura do porão do navio. Aí eles são reunidos em número de 300 a 500, de modo que para cada homem adulto se reserva apenas um espaço de cinco pés cúbicos. Muitas vezes as paredes comportam, a meia altura, uma espécie de prateleira de madeira sobre a qual jaz uma segunda camada de corpos humanos. Todos têm algemas nos pés e nas mãos e são presos uns aos outros por uma comprida corrente.”

 

Cerimônia fúnebre na Costa do Ouro, África, século 18 | Gravura de Edward Cavendish Drake

 

Apesar dos ossos encontrados se apresentarem muito fragmentados, por meio da análise da biologia esqueletal foi possível chegar a alguns índices sobre o estado de saúde dos escravos que aportavam no Cais do Valongo no século 19. A baixa incidência de doenças severas nos ossos e a maior frequência de lesões traumáticas são indícios relacionados a acidentes e agressões e não à idade biológica dos indivíduos.

 

Não foram encontrados sinais de doenças crônicas de longa duração. Foi constatado apenas um tipo de deformidade provocada por anemia aguda, causada possivelmente por falta de ferro, uma deficiência nutricional comum até hoje em populações mais carentes. As ocorrências de defeitos no esmalte dos dentes, provocadas por carências de nutrientes também foram raras.

 

Esses dados permitiram aos pesquisadores confirmar alguns aspectos da escravidão no Brasil, já sinalizados em fontes historiográficas. A maior parte dos africanos trazidos pelo tráfico, por exemplo, teria entre 10 e 25 anos de idade (com predominância para o sexo masculino) e pertenciam a diferentes grupos étnicos.

 

Ainda existe muito trabalho a ser feito no sítio Cemitério dos Pretos Novos. Mas para que todos os pontos obscuros do intenso tráfego de escravos, ocorrido no Rio de Janeiro em fins do século 18 até meados do século 19, sejam explicados, é fundamental que outras escavações sejam realizadas para que milhares de outros restos mortais cheguem à superfície. Dessa forma, antropólogos, arqueólogos e historiadores brasileiros poderão reconstruir, finalmente, todo o passado tenebroso que foi enterrado com milhões de escravos que chegaram por aqui na época do Brasil colonial.

 

Revista Leituras da História Ed. 51

Adaptado do texto “Um doloroso enigma de 200 anos”