Pedaço do Tibete no Sul do Brasil

O Vale do Paranhana, na Serra Gaúcha, não é propriamente o Himalaia, mas guarda uma joia para os budistas: o Khadro Ling, um centro para o estudo e a prática espiritual do budismo tibetano

Por Rodrigo Trespach | Fotos: Tiago L. Trespach | Adaptação web Caroline Svitras

Localizado na cidade gaúcha de Três Coroas, cerca de 100 km distante da capital Porto Alegre e a pouco mais de 30 km de Gramado, Khadro Ling preserva e cultiva ensinamentos trazidos de longe por Chagdud Tulku Rinpoche. Há duas estradas de acesso ao templo, localizado no alto da montanha de Águas Brancas (que dá nome ao bairro de Águas Brancas, na cidade de Três Coroas/RS). Uma delas, pela qual seguimos, é estreita e íngreme. Mas a visão compensa a dificuldade. O vale é cortado pelo Rio Paranhana, um afluente do Rio dos Sinos, e do alto é possível ver toda a região em volta. Não se aproxima das montanhas do Tibete, tampouco lembra Lhasa – a antiga capital espiritual e ex-capital política do pequeno reino asiático, hoje uma província chinesa –, mas a região é tão bela quanto. A beleza da região, aliás, foi um dos motivos para que Chagdud Rinpoche decidisse se estabelecer ali, em 1995. Três Coroas, outrora conhecida como a cidade da canoagem, hoje é a cidade do templo budista.

 

“Cada religião tem uma tradição completa, com qualidades próprias. As tradições espirituais surgiram em resposta ao sofrimento dos seres em um determinado tempo e lugar. Cada uma oferece uma abordagem que responde às necessidades de um determinado tipo de pessoa. Da mesma maneira que um único remédio não pode curar uma centena de pessoas diferentes, assim também um único caminho espiritual não será apropriado para todos.”  -Chagdud Tulku Rinpoche

 

Compaixão e respeito
Casa de oração do Templo

Chagdud Rinpoche foi a última geração de mestres tibetanos treinados inteiramente conforme a tradição, antes da invasão chinesa do Tibete, no fim da década de 1950, quando o Dalai Lama e muitos budistas fugiram ou foram expulsos do país diante da ocupação comunista. Rinpoche tinha 29 anos quando os soldados chineses marcharam sobre a fronteira de seu lar ancestral. Passou 20 anos como exilado em comunidades de refugiados tibetanos e budistas na Índia e no Nepal. Antes de se estabelecer no Brasil, no início da década de 1990, viveu por um tempo nos Estados Unidos.

 

Um povo pacífico, adeptos da não violência, seguidor de uma religião que prega a compaixão e o respeito a toda forma de vida, os tibetanos não foram páreos para a força de ocupação chinesa. A religião sobreviveu devido às enormes comunidades de refugiados espalhados principalmente pela Índia. Em Dharamsala, são cerca de 20 mil. A invasão chinesa permitiu também, a exemplo do que ocorrera com o cristianismo na Palestina do século 1o, que o budismo se espalhasse pelo mundo por meio dos lamas – os mestres espirituais e orientadores para o caminho da verdade, que fizeram o papel dos apóstolos cristãos.

 

O budismo, que havia chegado ao Tibete, no século 5º, só assentou raízes profundas três séculos depois, por meio dos ensinamentos de Padmasambava, o “Senhor nascido no Lótus”, previsto pelo próprio Buda. Com o passar do tempo e a influência de novos mestres vindos da Índia, nos séculos seguintes, surgiram novos ensinamentos e interpretações para as mensagens dos textos sagrados. Dessa forma, no budismo tibetano, formaram-se quatro ordens monásticas: Gelug, Kagyü, Sakya e Nyingma, a mais antiga e tradicional delas – a escola utilizada para ensinamentos do grupo Chagdud Gonpa Brasil, responsável pelo Khadro Ling. A tradição acredita que Chagdud Rinpoche é a 16ª encarnação, um tulku, de um dos discípulos de Padmasambava. O Dalai Lama, a personalidade budista mais conhecida no mundo ocidental, pertence à ordem Gelupa. O Karmapa, pouco conhecido mundialmente, mas provável substituto do Dalai Lama, é o líder da ordem Kagyü.

 

Logo na chegada, vislumbramos o complexo de edifícios que formam o Khadro Ling. Com uma arquitetura tão peculiar, a sensação não poderia ser outra: estamos em um pedaço do Tibete. Somos recebidos por Nenung. Ele é membro da comunidade que ajuda a manter Khadro Ling funcionando. A comunidade é composta por cerca de 50 pessoas que residem em torno dos templos ou que residem em cidades próximas, como Porto Alegre – caso de Nenung –, e frequentam os templos nos feriados e fins de semana. Há também voluntários temporários que vêm de muitos lugares do país e do mundo e que permanecem durante determinada época do ano, em retiro, e são também participantes das várias cerimônias budistas realizadas no centro. Há brasileiros, de todas as partes do país, mas também têm estrangeiros – há uma argentina, um suíço, além de nepaleses, butaneses e tibetanos, estes últimos os responsáveis pela pintura e ornamentação dos templos, além dos lamas visitantes que vão e vêm.

 

Beleza incomum

Terra Pura de Padmasambava foi consagrado em 2008, após cinco anos de obras. Um majestoso templo de três andares com aspecto típico do Tibete, terra natal de Rinpoche. Assim como no La Kang, não é possível fotografar o interior, o que não deixa de ser frustrante para as dezenas de visitantes que estão em torno do templo posando para outra dezena de fotógrafos ávidos por documentar o exótico. Aliás, Terra Pura de Padmasambava recebe visitantes apenas em algumas oportunidades, ele é usado em celebrações, cerimônias e dias específicos.

 

Com uma majestosa estátua de Padmasambava em seu interior, cercada de outras menores que representam suas emanações, e tão ricamente ornamentado quanto La Kang, o templo guarda as cinzas de seu mentor, Chagdud Rinpoche. Aqui também artistas butaneses e nepaleses trabalharam por anos na decoração do interior. No segundo andar, está a estátua de Bodisatva Chenrezig, o Senhor da Compaixão. No terceiro andar, menor que os dois anteriores, está a estátua do Buda Amitaba, feita por Chagdud Rinpoche pouco antes de sua morte. Para a comunidade no Khadro Ling,“a essência de Padmasambava é a mesma essência de nossa mente e coração”.

 

A meditação talvez seja a prática mais associada ao budismo. E uma visita ao Khadro Ling, à beleza contemplativa de Terra Pura de Padmasambava e do La Kang, leva-nos a mais profunda meditação, uma reflexão com o próprio eu e uma ligação estranha de proximidade com todos a nossa volta. Paz. Àqueles que perguntam o porquê de tanta beleza física, uma beleza tão elaborada e incomum, em uma religião que prega o desapego e a simplicidade, a resposta pode ser a de nos lembrarmos da beleza interior de cada ser, que para o budismo está presente em todos, mesmo que adormecida e oculta sob a espessa camada de emoções negativas e ações errôneas do dia a dia.

 

Estátua de Padmasambava, no interior de Terra Pura de Padmasambava

 

É quase meio-dia quando nossa visita ao Khadro Ling está chegando ao fim. É hora de deixar Patrícia com seus afazeres. Também é hora do almoço, e a comunidade se reúne. Enquanto um grupo atende os visitantes, que na última hora se multiplicaram e ocuparam o amplo espaço entre os templos, outro grupo está reunido no refeitório. Todas as casas têm cozinha e, normalmente, as refeições são realizadas em família, mas como é domingo, a comunidade se reúne como uma grande família. Aqui, no Khadro Ling, há muitas crianças nascidas dentro do budismo, uma coisa nova no Brasil, um país historicamente cristão, mas que, também historicamente, recebeu muitos povos e religiões. Está é a família de Chagdud Rinpoche, que deixou como legado, além dos ensinamentos para cultivar a paz, alcançar a harmonia interior e a compaixão por todos os seres, um pedaço do Tibete no Sul do Brasil.

 

Para conferir mais textos como esse garanta a sua revista Leituras da História aqui!

Leituras da História Ed. 55

Adaptado do texto “Pedaço do Tibete no Sul do Brasil”