Peste negra pode ter sido usada como arma biológica na Antiguidade

Desde a Antiguidade, os estrategistas sempre empregaram micro-organismos e toxinas originárias de organismos vivos como armas de guerra para incapacitar as forças inimigas e eliminar os adversários

Por Morgana Gomes* | Foto: Indianapolis Museum of Art , Indianapolis, Indiana | Adaptação web Caroline Svitras

A Quinta Praga do Egito, de Joseph Mallord William Turner

A antiga Kaffa, na época do Império Otomano, era uma colônia genovesa localizada no Mar Negro. Tida como o principal porto para os grandes navios mercantes da Itália, ela se ligava tanto a Tana (atual Azov, na Rússia) pela navegação de cabotagem quanto ao Extremo Oriente por rotas de caravanas terrestres. Mas, desde o início do século 14, a cidade passou a sofrer com as oscilações existentes entre mercadores italianos e mongóis. Embora não seja aceito por todos os historiadores, um dos raros documentos do período foi escrito por Gabriele de’ Mussi, genovês nascido por volta do ano de 1290. Em tal documento, há relatos sobre o primeiro cerco às cidades de Kaffa e Tana, ambos promovidos em 1307 por Toqta, pertencente ao cã da Horda Dourada que, aparentemente, não se agradava do comércio de escravos turcos pelos italianos, sobre o período de tranquilidade que se seguiu e sobre os demais conflitos, que culminaram com o episódio de 1346, responsável pela disseminação da peste negra.

 

No primeiro conflito, os genoveses resistiram por um ano, mas em 1308 incendiaram e, em seguida, abandonaram a cidade. Somente quando o sucessor de Toqta, Özbeg, passou a governar é que os italianos puderam retomar a expansão naval, só que dessa vez, em Tana. Contudo, em virtude de mais uma briga entre eles e os muçulmanos que viviam na cidade, no ano de 1343, Janibeg, sucessor de Özbeg, iniciou um novo cerco, dessa vez, em Tana.

 

Os italianos, então, decidiram fugir para Kaffa. Na época, a cidade fortificada com saída para o mar, além de próspera, tinha uma população cosmopolita, composta por genoveses, gregos, armênios, judeus, mongóis e povos turcos. E como não poderia deixar de ser, ela despertou em Janibeg o desejo de expulsar os genoveses e obter seu controle. Por conseguinte, no mesmo ano, ele empreendeu outro cerco a Kaffa, que durou até fevereiro de 1344.

 

Mas, nessa altura da batalha, graças à chegada dos reforços italianos, Janibeg teve que recuar. Ele já havia perdido mais de 15 mil soldados e viu os seus adversários destruírem suas máquinas de batalha. A partir daí, por um ano, os genoveses mantiveram suas atividades em plena tranquilidade. Contudo, quando nada parecia ameaçá-los, o clã da Horda Dourada iniciou outro cerco que durou mais um ano. Na ocasião, os italianos bloquearam os portos mongóis e, em consequência, acirraram o embate.

 

“O Triunfo da Morte” de Pieter Brueghel, retratando os horrores da Peste negra | Foto: Peter Bruegel/Museu do Prado

 

Novamente, o Exército mongol levou a pior. Mas não foram os italianos que iniciaram a dizimação dele. Os soldados perderam a batalha para a peste negra. No entanto, ao ver que o cerco a cidade estava prestes a fracassar, Janibeg usou o infortúnio que se abateu sobre suas tropas para desestruturar os genoveses. Embora desconhecesse as causas da peste que contaminava suas forças, ele e seus homens já haviam percebido que, além de contagiosa, ela era extremamente mortal. Então, estrategicamente, eles resolveram catapultar os corpos dos soldados mortos pela doença por meio dos trebuchets – um trabuco de contrapeso.

 

Assim, toda vez que os corpos caíam sobre Kaffa, os residentes locais seriam obrigados a recolhê-los e lançá-los no mar. Dessa forma, como o contato era o principal responsável pela propagação da doença, esperava-se que, após a infecção de todos, a cidade cairia. A estratégia deu certo. A epidemia se espalhou entre os habitantes de Kaffa, tal como já havia acontecido entre os soldados mongóis, e as forças que defendiam a cidade foram derrotadas. No entanto, não houve vencedores nem vencidos, apenas mortes ocasionadas pela doença, além de poucos sobreviventes contaminados nas duas frentes de batalha.

Revista Leituras da História Ed. 69

Adaptado do texto “O cerco macabro de Kaffa”