Quem eram os inimigos de Hitler?

Entre os dias 4 e 11 de fevereiro de 1945, os "Três Grandes" se reuniram em Yalta, às margens do Mar Negro, na Crimeia, para conferência que delinearia o futuro da Europa e do mundo pós-guerra

Por Rodrigo Trespach* | Foto:  Getty Images | Adaptação web Caroline Svitras

A ideia de que Yalta representaria o fim do sistema de ação unilateral, das alianças exclusivas, esferas de influência, equilíbrios de poder e todos os outros caminhos que haviam sido tentados durantes séculos sem que jamais tivessem dado certo não passou de utopia e propaganda Aliada. Depois de 1945, com o fim da 2ª Guerra Mundial, o mundo entraria em estado de guerra não declarado chamado de “Guerra Fria“.

 

Os “Três Grandes”, Roosevelt, Churchill e Stalin, tinham pouca coisa em comum e o que os uniu durante os longos anos de guerra foi o objetivo comum em derrotar a Alemanha de Hitler. Engana–se, no entanto, quem pensa que seus objetivos eram unicamente a luta pela liberdade e pela democracia.

 

Tríplice Aliança

O mais impiedoso ditador do século 20 nasceu em 6 de dezembro de 1878 na pequena Gori, uma aldeia a 70 quilômetros de Tíflis (Tbilisi), capital da Geórgia, como Iossif Vissarionovitch Djugachvili. De sua terra natal, onde um pai alcoólatra o espancava, passando pelo período difícil de internato no seminário, as primeiras manifestações revolucionárias, os frequentes e longos períodos de exílio na Sibéria, as leituras e estudos marxistas, a pobreza extrema, a Revolução Russa de 1917, a tomada do poder, o suicídio da esposa, os expurgos até controle total da URSS em 1922, Iossif transmutou-se em “Sosso”, “Koba”, até finalmente o nome pelo qual passou para História: “Stalin“, o homem de ferro. Ainda que “stal” signifique mesmo aço em russo, uma das muitas lendas em torno do enigmático georgiano diz que o nome Stalin teria surgido de seu relacionamento com Ludmila Stahl, que o teria auxiliado em seus muitos exílios no período pré-revolução.

 

Nem mesmo Adolf Hitler e o nazismo foram responsáveis por um número tão grande de perseguições, expurgos e assassinatos quanto os perpetrados pelo líder soviético. Só entre execuções, deportações e trabalhos forçados nos gulags, alguns historiadores modernos estimam que mais de 8 milhões de pessoas tenham morrido nas mãos do terror vermelho. E não são poucos que elevam o número de vítimas para algo entre 15 e 20 milhões.

 

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Assim como hoje, as atrocidades cometidas por Stalin eram pouco conhecidas na época da grande aliança que destruiu o nazismo e venceu a 2ª Guerra. Muitos políticos norte-americanos na época das conferências de Teerã e Yalta acreditavam que Roosevelt havia sido ingênuo diante do ditador soviético, mas o presidente americano sabia que se tivesse dito ao público a verdade sobre Stalin – que a URSS era governada por um ditador tão sanguinário e implacável quanto Hitler – os aliados não teriam atingido seu objetivo e um número enorme de vidas norte-americanas desperdiçadas. Ao contrário de Stalin, que não via problema algum em sacrificar exércitos em favor do objetivo final, Roosevelt tinha uma grande preocupação em poupar vidas americanas.

 

Winston Churchill, Theodore Roosevelt e Josef Stalin: os Três Grandes | Foto: The National Archives (United Kingdom)

Franklin Delano Roosevelt era um político de origem aristocrática; para alguns, um idealista altruísta de enorme autoconfiança; para outros, um político frio. Roosevelt, assim como Stalin, raramente permitia que inimigos e mesmo aliados políticos soubessem o que tinha em mente. Nascido em 30 de janeiro de 1882, em Hyde Park, Nova Iorque, o presidente norte-americano estava em seu quarto mandato consecutivo quando uma hemorragia cerebral o matou em 12 de abril de 1945, a poucos dias da rendição alemã. Sendo o presidente que havia tirado os Estados Unidos da Grande Depressão, Roosevelt lutava há anos contra a poliomielite que limitava o movimento de suas pernas e o colocara em uma cadeira de rodas.

 

O mais velho dos Três Grandes e o mais ferrenho inimigo de Hitler era um inglês sisudo de difícil trato e gosto excessivo pelo álcool. Winston Leonard Spencer Churchill nasceu em 30 de novembro de 1874, em Woodstock, a 100 quilômetros de Londres, na Inglaterra, e assim como seu aliado norte-americano, vinha de uma família aristocrática.

 

Quando se tornou primeiro-ministro, em maio de 1940, Churchill tinha 66 anos de idade e havia passado uma boa parte da vida servindo aos interesses do Império Britânico, seja no exército, onde serviu na Primeira Guerra, seja na política, no Partido Conservador.

 

O primeiro-ministro foi desde o início da década de 1930 um ardente crítico de Hitler, do nazismo e do imperialismo alemão. Mas isso não quer dizer que ele próprio não tivesse interesses de domínio e expansão. Em Yalta, preocupado que a criação das Nações Unidas pudesse limitar o poderio britânico, ele declarou a Roosevelt: “Enquanto eu for primeiro-ministro, não cederei um centímetro de nosso patrimônio”. Um dos “patrimônios” do Império Britânico era a Índia e a independência da grande colônia asiática causava calafrios em Churchill. Ele acreditava que os hindus eram um “povo bestial, com uma religião bestial” que servia aos interesses econômicos ingleses.

 

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Adaptado do texto “O futuro do mundo (Após o fim da 2ª Guerra Mundial)”

*Rodrigo Trespach é historiador e autor de O Lavrador e o Sapateiro; Cidade dos Ventos; Quatro Dias em Abril – Ensaio sobre a Guerra Civil ou Revolução Federalista de 1893; e Histórias não (ou mal) contadas: Segunda Guerra Mundial, 1939-1945; entre outros.