Quem são os Black Blocs?

Esta é a pergunta que não se cala desde junho de 2013, mês em que uma invasão inusitada e violenta surpreendeu o povo que ocupava pacificamente as ruas de São Paulo, para protestar contra as tarifas dos transportes públicos

Por Morgana Gomes | Fotos: Reuters | Adaptação web Caroline Svitras

Passado mais de três anos das passeatas organizadas pelo Movimento Passe Livre, não dá para esquecer que São Paulo foi surpreendida por mascarados que, misturados aos demais manifestantes, começaram a quebrar portas de bancos e de concessionárias de carros importados, enquanto enfrentavam com uma violência singular toda a repreensão imposta a eles. Após as primeiras cenas de depredação que, certamente, tirou o sono das principais autoridades do Brasil, os adeptos da tática Black Bloc tomaram conta dos noticiários, momentos em que foram rotulados por preconceitos reforçados pelo foco especulativo da imprensa. Mas como ninguém sabia quem realmente eram eles, a pesquisadora, socióloga e professora da Universidade Federal de São Paulo — Unifesp, Esther Solano Gallego, entrou no mundo, na cabeça e no cotidiano dos jovens protagonistas das cenas de selvageria que assustaram a capital paulista e, em seguida, a maioria das cidades brasileiras. Desse contato emergiu a visão que os mascarados têm de nosso país, da sociedade, das autoridades e de si mesmos.

 

A partir daí, ela se uniu ao jornalista Bruno Paes Manso que, durante uma cobertura jornalística feita para um jornal de São Paulo, também passou a entender o raciocínio desse grupo. Mas ainda faltava dar a palavra aos adeptos da tática. Então, coube ao também jornalista Willian Novaes mostrar tanto as origens distintas dos membros quanto o discurso convergente contra o sistema político-social vigente no país, bem como a versão do coronel da Policia Militar que foi agredido pelos mascarados.

 

Com todo o trabalho finalizado surgiu à obra os Mascarados: A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc, de autoria dos três. Polêmica para alguns e esclarecedora para outros, ela pretende acabar com os achismos e ainda esclarecer as estratégias e objetivos do grupo de preto. Por isso, considerando que há grandes possibilidades de eclodir novas manifestações que, inegavelmente, irão trazer de volta os mascarados para as ruas, decidimos entrevistar Esther Solano e Willian Novaes para tentarmos entender a realidade do Black Bloc em meio ao contexto político-social que vivenciamos na atualidade.

 

Leituras da História – Quando, onde e por que surgiu o Black Bloc? Podemos dizer que se trata de um movimento ou não? 

Esther Solano e Willian Novaes – Surgiu nos anos 80, na Alemanha, a partir dos movimentos autonomistas, com a proposta de ser uma tática de protesto, sem líder, estrutura de poder ou cargos. E é exatamente essa estrutura autônoma que ainda confunde as avaliações sobre o Black Bloc que, por sua vez, não é um movimento. Na Alemanha daquela época, por exemplo, o Bloco Negro dividia as manifestações de rua com os Blocos Verdes dos ambientalistas e os Blocos Vermelhos dos sindicatos.

 

LH — Quais são as principais táticas que os adeptos usam?

ES — A violência performática, simbólica contra alegorias do capitalismo e do sistema, além do preto e da máscara para representar tanto unidade de pensamento quanto a dissolução da individualidade.

 

Manifestantes “Black Block” protestam em passeata contra o governador Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro | Foto: Fernando Frazão/ABr

 

LH — O que eles visam quando atacam os símbolos do capitalismo?

ES e WN — Provocar um debate sobre a violência do sistema. Segundo eles mesmos, o verdadeiro vandalismo não provém do Black Bloc e, sim, do sistema. Portanto, eles querem atrair a atenção da mídia para essa reclamação. É inegável que a violência simbólica ou espetáculo atrai os flashes. Consequentemente, a lógica do Black Bloc funciona da seguinte forma: uma manifestação pacifica não chama a atenção dos veículos de comunicação; no máximo, ela vai conseguir uma nota de rodapé. Já ao destruir a fachada de um banco ou de uma concessionária, os adeptos conseguem a atenção. Só que aqui no Brasil os ataques ficaram maiores que as manifestações e as próprias pautas do Black Bloc.

 

LH — De que forma e quando a tática dos mascarados chegou ao nosso país?

ES — Fundamentalmente nos anos 90, com a Cultura punk, mas ressurge com força nas lutas antiglobalização dos anos 2000.

 

LH — Qual o perfil dos adeptos brasileiros? Eles são politizados? 

ES — A maioria é politizada sim! Eles têm uma percepção bastante estruturada dos problemas do sistema brasileiro e conseguem formular bem sua crítica. São jovens de periferia e semiperiferia que trabalham, estudam e utilizam os serviços públicos precários da cidade.

 

LH — Eles têm consciência de que suas ações impõem certo medo entre as autoridades e o povo? 

ES — Segundo a visão deles, esse medo vem da visão distorcida que a imprensa apresenta sobre as ações do Black Bloc e da truculência que a Policia Militar exerce nas manifestações.

 

LH — Como é a percepção que eles têm de nosso país, da sociedade, das autoridades e de si mesmos? 

ES — Uma percepção muito crítica que não difere muito da maioria dos cidadãos. Eles são fortemente apartidários. Portanto, contrários à ideia de partido, por considerar que são estruturas de poder que não representam a população, mas sim os interesses das elites.

 

Manifestante Black Bloc durante um confronto direto com a polícia, após uma tentativa de invadir a Assembleia Municipal do Rio de Janeiro

 

LH — As roupas e máscaras pretas que os grupos usam para garantir o próprio anonimato não permitem a infiltração de baderneiros que distorcem a intenção deles? 

WN — Eu acredito que isso é incontrolável, eles não focam nisso, mas, com certeza, existe a infiltração de arruaceiros. No entanto, enquanto acompanhei o Black Bloc durante as manifestações que ocorreram em São Paulo, não vi essa distorção, exceto em apenas um caso, no qual houve saques realizados em várias lojas no centro da cidade. Mas como o bloco normalmente era formado de 70 a 80 jovens, os baderneiros não ficavam até o final. Então, não há muito que se fazer.

 

LH — Há alguma estratégia que esses mesmos grupos utilizam para restringir a ação desses elementos? 

ES — Os adeptos acabam reconhecendo esses indivíduos pelos seus comportamentos. Quem depreda pequeno comércio ou rouba não é um adepto da tática Black Bloc.

 

LH — O que levou os senhores a abordar o tema em um livro?

ES e WN — Era um assunto que levantava muito interesse social e da imprensa, mas normalmente abordado de forma superficial e enviesado. Nossa ideia era desmistificar este fenômeno e entender o que realmente significa, sem pré-julgamentos, escutando os protagonistas. Portanto, o livro é um registro da história no momento em que ela acontece. Sem o distanciamento, propositalmente, para mostrar para sociedade um raio-x daquele instante específico. Além disso, devido à falta de informação imparcial sobre essa tática, já que os veículos sempre satanizaram os jovens mascarados, a proposta foi desmascarar as razões e quem são os adeptos. E nós acreditamos que conseguimos!

 

Esther Solano e William Novaes | Foto: Divulgação

 

LH — Após as primeiras cenas de violência presenciadas, enquanto faziam o trabalho de campo, quais os conceitos que conseguiram desmistificar em relação ao Black Bloc?

ES e WN — Eles não têm relação partidária. São poucos, embora pelas matérias da grande imprensa pareçam muitos, não fazem uma grande destruição e há divergências entre eles mesmos sobre o uso da violência. O que vimos eram jovens descontentes com o rumo do país. Entre eles, além de praticantes engajados no anarquismo, havia vários que tinham as suas próprias motivações. Identificamos, entre muitas particularidades, a de descontar no Estado e nos bens privados a revolta pela violência policial que sofrem na periferia, o racismo da sociedade e até o assédio sexual. De certa forma, os adeptos formam uma boa amostra da sociedade brasileira, principalmente dos jovens.

 

LH — Se os adeptos Black Bloc só atacam estruturas materiais capitalistas, o que alega o coronel da Policia Militar Reynaldo Rossi sobre a agressão sofrida no terminal Dom Pedro, no centro de São Paulo, durante os protestos do Movimento Passe Livre em 2013?

ES — Essa é uma das questões de divergência, alguns defendem que violência só pode ser simbólica e contra objetos, enquanto outros defendem a brutalidade contra a polícia porque, conforme alegam, é uma corporação violenta nas periferias e também contra os manifestantes. O coronel não era um inimigo pessoal do Black Bloc, mas sim uma pessoa fardava que representava a Polícia Militar. A violência que ele sofreu poderia ter sido direcionada a qualquer soldado ou outro agente do estado. O próprio coronel em entrevista avisou que outros policiais também saíram feridos das manifestações.

 

Um policial caminha em frente de um ônibus incendiado pelos Black Blocs

 

LH — Pelo senso comum, toda ação Black Bloc é anarquista, mas especialistas dizem que essa concepção é errônea. Por quê?

ES — Porque, embora a ideologia principal deles seja o anarquismo, eles também se identificam com pautas nacionais que consideram válidas, como por exemplo, a redução da tarifa, a luta dos secundaristas, o Não vai ter Copa, entre outras.

 

LH — Se nenhuma manifestação pacífica atinge quem está no poder, por que o Black Bloc ainda é tão repudiado por uma sociedade que pede mudanças urgentes? 

ES — Porque o uso da violência simbólica é muito polêmico e difícil de ser entendido pela população.

 

LH – Considerando a crise que vivenciamos na atualidade, é possível fazer alguma observação sobre o tema relacionando-o a ela? 

WN – Estamos vivendo uma época de extremos, polarizada e dividida. A população ainda não captou que os adeptos do Black Bloc são independentes. Na verdade, ninguém acredita nisso. Mas muitos agem por impulso para criminalizar, seja para um lado, como para o outro. O Partido dos Trabalhadores é identificado como os mantenedores por parte da população. Já a esquerda acredita que os adeptos Black Bloc são financiados pela direita para desestabilizar o país. É tudo feito no achismo, sem a constatação in loco. Mas a violência simbólica está sendo usada até por personalidades da imprensa e da sociedade em geral, que emitem opiniões raivosas ou racistas e, assim, elas acabam se tornando figuras legitimadas por parte da mesma sociedade. Esse é um dos perigos que presenciamos com as polêmicas que surgiram durante o lançamento de Mascarados. Em várias circunstâncias fomos acusados de defender o Black Bloc, mas, o que é pior, os acusadores não leram nenhuma linha do livro! Por isso, volto a frisar o problema do achismo. A sociedade precisa, primeiro, qualificar-se e entender o assunto, em vez de optar por palavras fáceis.

 

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Leituras da História Ed. 98

Adaptado do texto “Afinal, quem são os mascarados?”