Reflexo da Revolução Cubana

“O intercambio desigual funciona como sempre. Os salários de fome da América Latina contribuem para financiar os altos salários dos Estados Unidos e da Europa. A América latina proporciona a saliva além da comida e os Estados Unidos se limitam a pôr a boca”- Eduardo Galeano, em As Veias Abertas da América Latina

Por Valter Costa | Foto: International Center of Photography/The International Art Heritage Foundation | Adaptação web Caroline Svitras

 

Em Havana, as primeiras horas do ano de 1959 surgiram no horizonte trazendo muita novidade e ansiedade. Nas ruas, milhares de pessoas esperavam a chegada do jovem exército revolucionário liderado por Fidel e seus soldados que, ao chegarem à praça principal de Havana, convocam a população para que o líder possa fazer o seu primeiro discurso logo após a tomada de poder. Foram três anos de guerrilha embrenhados nas serras e florestas tropicais de Cuba; inúmeras perdas humanas ao longo da caminhada, mas, finalmente, a mais longa ditadura cubana estava chegando ao fim e um novo governo, desprendido de qualquer vínculo comercial e político com os Estados Unidos emergiu.

 

Castro em visita aos Estados Unidos em 1959 | Foto: Creative Commons

Nos célebres discursos nacionalistas de Fidel, Cuba deveria ser pensada e administrada para os interesses do povo cubano. A riqueza da nação deveria ser compartilhada por todos e não por uma minoria rica e privilegiada detentora de terras e poder político. Com forte apelo por justiça social e em defesa aos direitos dos trabalhadores, campanhas de alfabetização passaram a ser, imediatamente, difundidas no campo e na cidade. As grandes propriedades agrárias não poderiam ter mais de 405 hectares e inúmeras empresas americanas produtoras de cana-de-açúcar foram confiscadas. Os grandes latifúndios entraram na lei da Reforma Agrária. Deu-se uma melhoria significativa do transporte rodoviário e uma ampla campanha pela erradicação das doenças tropicais fortaleceram a imagem do governo de Fidel diante do povo.

 

O legado de Fidel Castro

 

No exterior, o governo cubano passou a ser admirado pela maioria dos países em desenvolvimento. Até aquele momento, o governo Eisenhower não classificava de “comunista” o governo de Fidel – nem mesmo como “aliado” ao bloco soviético. Entretanto, os métodos de reforma agrária introduzidos com determinação, mobilizando e politizando milhões de camponeses, e os famosos julgamentos populares que levaram à morte centenas de militares e torturadores pró-Batista (conhecidos como paredão) envolvidos em algum crime de guerra não agradavam a Washington.

 

Em meados de abril, mesmo com todas as mudanças radicais em Cuba, Fidel foi convidado pela imprensa americana a dar palestras e entrevistas em importantes cidades americanas. Resgatou a herança cultural entre os povos cubano e americano. Foi questionado por inúmeros jornalistas por suas posições políticas muito próximas aos líderes revolucionários da China e da Rússia. Conversou com o vice-presidente americano, Richard Nixon, sobre política internacional, mas rejeitou qualquer ajuda financeira que interferisse nas mudanças sociais e econômicas em Cuba. Em contrapartida, Che Guevara viajou para a Europa e Ásia, sendo cumprimentado por Mao Tse-tung, Tito e outras lideranças mundiais. Sobre a Guerra Fria, Guevara defendeu a política de neutralidade em que Cuba – e todos os demais países do Terceiro Mundo – deveria encontrar alternativas políticas e econômicas que não estivessem diretamente afinadas aos interesses de Estados Unidos ou União Soviética.

 

Fidel Castro (à esquerda) e Che Guevara (centro) em uma marcha memorial em Havana, no dia 5 de maio de 1960. Cuba acusou a CIA pela explosão do navio francês La Coubre, no porto da cidade

 

No final de 1959, Fidel Castro e seu exército já exerciam o controle militar e administrativo na ilha e contavam com a simpatia de milhões de camponeses, mas as atividades contrarrevolucionárias adversárias a Castro e seu governo também passaram a se organizar dentro e fora do País. No campo, os grandes proprietários de terra organizaram os seus próprios exércitos particulares contra a reforma agrária. No exterior, milhares de exilados cubanos passaram a ser treinados na Nicarágua e na Flórida por assessores americanos, mas o grande desafio e preocupação do novo governo se concentravam na área econômica.

 

O maior parceiro comercial deu sinais de que não havia interesse em comprar grandes cotas de açúcar na ilha. Tradicionalmente, os Estados Unidos era o maior consumidor de açúcar e também o maior exportador de máquinas e produtos industriais para aquele país. As relações comerciais entre os dois países se mantiveram estáveis por mais de 150 anos, período em que a balança comercial sempre esteve favorável aos produtos americanos. O dinheiro obtido na venda do açúcar e charutos permitia que os cubanos comprassem mercadorias americanas – literalmente, Cuba era o quintal dos EUA.

 

Kennedy enviou uma brigada de exilados cubanos para deter Fidel, episódio conhecido como “invasão da Baía dos Porcos”. A investida falhou, e as forças cubanas derrotaram os rebeldes | Foto: Three Lions/Hulton Archive/Getty Images

 

Desde o mais simples abajur instalado nos famosos cassinos, até elegantes carros esportivos que circulavam em Havana, tudo era produzido nos Estados Unidos. Quando Fidel sobretaxou as mercadorias importadas o governo daquele país ficou furioso e decidiu intervir militarmente na ilha. Em contrapartida, Fidel e Che passaram a mobilizar e armar o povo contra uma possível invasão. Além disso, o rompimento do contrato comercial forçou Fidel a encontrar “outros” parceiros comerciais. Em fevereiro de 1960, o vice-primeiro-ministro soviético, Anatas, visitou Cuba e se comprometeu em comprar toda a produção de açúcar da ilha nos próximos cinco anos. Gradativamente, Cuba passou a contar com ajuda econômica soviética e terminou se aproximando dos países do Bloco Socialista.

 

A paz entre a Colômbia e as FARC

 

Os planos para eliminar Castro e derrubar o seu governo passam a ser articulados pelos agentes da CIA. No final de março daquele ano, aviões procedentes da Flórida bombardeiam plantações de açúcar e órgãos públicos em várias cidades cubanas. Ainda no final de maio, o governo cubano recebe o primeiro navio petroleiro procedente da Rússia. Fidel solicita que as três refinarias americanas convertam o petróleo em gasolina e outros derivados. Diante da recusa, o presidente confisca as três companhias e todas as empresas americanas são nacionalizadas. As relações diplomáticas entre as duas nações converteram-se em constantes acusações e denúncias de ambos os lados. Castro, em seus longos discursos, acusava os Estados Unidos de desrespeitar a soberania dos povos e o presidente americano Eisenhower dizia que Cuba estava sendo controlada por comunistas.

 

Adaptado do texto “Um continente em busca de justiça”

Para ler o artigo na íntegra adquira sua revista Leituras da História Ed. 97