Retrato genético do Brasil

Somos um dos países americanos, ou quem sabe o único, a receber escravos de todas as partes da África. Hoje, as pesquisas genéticas comprovam cientificamente esse fato...

Por Rose Mercatelli | Fotos: Reprodução | Adaptação web Caroline Svitras

Pesquisadores costumam afirmar, sem exagero, que as riquezas conquistadas pela sociedade brasileira entre os séculos 16 e 19 foram provenientes da mão de obra escrava. Por quase 400 anos, essa se tornou nossa maior força de trabalho. No século 16, foram os índios. Os primeiros carregamentos de cana de açúcar que saíram de Pernambuco rumo à Europa, por exemplo, foi resultado do esforço indígena.

 

Porém, alguns fatores levaram os donos de engenho trocar os índios pelos negros que começavam a desembarcar no Nordeste. “Em 1539, Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, solicitou isenção do imposto que devia pagar pela importação de ‘peças’ africanas”, escreve José Roberto Pinto de Góes, professor de História do Brasil da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador da CNPq, em um artigo para a Rede Virtual de Memória Brasileira, da Fundação Biblioteca Nacional, RJ: entre 1531 a 1575 desembarcaram nos portos do Nordeste cerca de 10 mil escravos.

 

De acordo com o pesquisador Góes, foram três os motivos que levaram os portugueses a fazer a troca. De 1540 a 1560, a população indígena diminuiu consideravelmente devido às mortes ocasionadas seja por guerras ou por epidemias. Em contrapartida, com a criação de novos engenhos por conta da expansão da produção açucareira, houve um aumento substancial da necessidade de mão de obra. Por fim, os portugueses não poderiam deixar de aproveitar a boa relação de negócios que se estabeleceu entre eles e os dirigentes africanos que comandavam o comércio de escravos do outro lado do Atlântico já no fim do século 15: “A captura e o embarque de milhões de pessoas que vieram como escravos para as Américas não teria sido possível se não tivessem existido sólidos interesses ligados ao tráfico transatlântico em ambas as margens do oceano”, pondera o professor José Roberto Pinto de Góes.

 

Para inglês ver

Em pouco tempo, o tráfego negreiro, a despeito de todas as dificuldades encontradas nas viagens, tornou-se uma das transações mais rentáveis do Brasil colônia. No período, houve uma intensa movimentação pelo Atlântico de navios negreiros, também conhecidos como tumbeiros devido ao alto índice de mortes que ocorriam durante as viagens, partindo das costas oeste e leste do continente Africano e desembarcando escravos nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, principalmente.

 

Essa enorme circulação de pessoas foi um dos maiores deslocamentos populacionais de toda a história da humanidade. “Entre os séculos 16 e 19, mais de 12,5 milhões de africanos foram levados para a América e Europa. Desses, cerca de 10,7 milhões chegaram vivos ao fim da travessia”, contabiliza o historiador Manolo Florentino, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense.

 

De todos os todos com cultura escravagista, o Brasil foi o país americano que mais importou mão de obra africana. Entre os séculos 16 e meados do 19, vieram cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças, o equivalente a mais de um terço de todo comércio negreiro nas Américas, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

 

As evidências das origens étnicas africanas são, em geral, baseadas em dados históricos. Os primeiros foram os registros dos navios negreiros. Mas nem sempre esses apontamentos estavam corretos. Por razões comerciais, muitos lançamentos eram falsos. Por exemplo: em 1810, Portugal e Inglaterra assinaram o Tratado de Aliança, Comércio e Amizade no qual entre outras coisas, estava previsto a extinção gradual do tráfego de escravos. Mas tudo continuou na mesma. Em 1827, para ser reconhecido como país livre, a Inglaterra fez pressão e o Brasil teve de ratificar o acordo de 1810, prometendo extinguir o tráfego de vez. Por fim, a lei que ficou conhecida como “Lei para inglês ver” foi promulgada em 7 de novembro de 1831, a qual proibia terminantemente o tráfego, sem mais demoras.

 

“Embora promulgada, a lei foi solenemente ignorada por traficantes, fazendeiros e autoridades”, confirma o professor Góes. Por isso, apesar da proibição e, melhor ainda, com a Coroa portuguesa fora do negócio, os contrabandistas continuaram mais ativos do que nunca até 1850 quando foi aprovada a lei de autoria de Eusébio de Queirós, ministro da Justiça do Segundo Reinado, que regulamentava a extinção total do tráfego de escravos. Portanto, muito contrabando foi feito nesse período de 20 anos. Daí a dúvida sobre os registros da origem de muitos escravos, principalmente dos que afirmavam que o porto de embarque foi em Angola.

 

Até 1700, os portos de Guiné e Congo, na costa ocidental, eram os maiores exportadores de negros, mas durante o século 18, os navios negreiros saíam com mais frequência de Angola. Os portugueses preferiam fazer seus negócios na costa oeste da África porque conheciam bem o mercado escravista dessa região desde antes do descobrimento do Brasil. Entretanto, durante muitos anos, para driblar a lei e os ingleses, os traficantes em vez de se dirigirem aos portos conhecidos da África Ocidental, desviavam a rota para Moçambique, do outro lado, na costa leste do continente, banhada pelo Oceano Índico. De lá, saiam escravos que eram trazidos para o Brasil e registrados como angolanos.

 

Também existem evidências históricas de que muitos comerciantes africanos se viram obrigados a avançar mais para o centro do continente à procura de gente, por conta das populações que viviam em toda a extensão litorânea (leste e oeste) e se deslocaram para outras áreas na tentativa de não serem capturadas.

 

Mil grupos, línguas e culturas

Na verdade, os milhões de africanos que vieram para o Brasil sempre foram considerados como se pertencessem a um só povo, com uma cultura que, ainda por cima, era considerada inferior. Nada mais longe da verdade do que essa hipótese. Ainda hoje, os pesquisadores não sabem identificar com exatidão quais foram (e para onde se dirigiam) as milhares de etnias africanas que chegaram ao Brasil. Para confundir ainda mais, quando chegavam, os escravos recebiam o nome do porto de seu embarque. Os principais eram da Costa da Mina, de Luanda, de Benguela (Angola) e de Cabinda (Congo). Como consequência, os escravos passavam a ser chamados de Maria Mina ou Antonio Cabinda, por exemplo.

 

Entretanto, hoje já se sabe que pelo porto de Luanda – de onde saiu a maior quantidade de escravos para o Brasil – embarcaram as etnias dembo, ambundo, imbangala, lunda, entre outras. Já do centro e do leste do continente africano, em geral, do porto de Moçambique, partiram outras etnias também do grupo Banto, que falavam vários idiomas como o umbundo, o quimbundo, o kicongo, o nagô e o macua.

 

Entre os séc. 16 e 19 vieram cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças, mais de 1/3 de todo comércio das américas | Foto: Johann Moritz Rugendas

 

Não fica difícil imaginar a complicação que ainda é para os pesquisadores definir quais as verdadeiras raízes étnicas e culturais das várias regiões do Brasil que receberam os escravos que se tornaram fundamentais na construção e na identidade do povo brasileiro – seja de São Luiz do Maranhão, Rio de Janeiro ou Porto Alegre.

 

Para resgatar parte dessa história ainda não de todo esclarecida, os geneticistas Sérgio Danilo Pena, pesquisador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Maria Cátira Bortolini, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul realizaram um estudo de suma importância para a história e para a maioria dos brasileiros que, independente da cor da pele, recebeu como legado os genes dos escravos que vieram para cá.

 

Analisando o DNA de pessoas que vivem em três capitais brasileiras, os pesquisadores compararam o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros. Dessa maneira, puderam saber qual a participação de cada região africana no envio dos escravos para o Brasil. Os resultados confirmaram que três regiões (oeste, centro-oeste e sudeste), foram as que mais exportaram mão de obra para cá. Até aí, tudo bem. As pesquisas históricas já tinham revelado esse fato.

 

A novidade é que a proporção de homens e mulheres iorubás, jejes e malês, por exemplo, capturados na África Ocidental, vasta região litorânea banhada pelo Atlântico, pode ter superado em muito o cálculo estimado há anos por pesquisadores americanos. Avaliando registros de viagem dos africanos, Herbert Klein, da Universidade de Colúmbia, e David Eltis, da Universidade Emory, ambas nos Estados Unidos, calcularam que, no total, 10% dos escravos teriam vindo da região oeste da África.

 

O material genético analisado pelos pesquisadores Sérgio Pena e Maria Cátira Bortolini revelou que a proporção de escravos oriundos da faixa litorânea que hoje compreende países como Senegal, Guiné-Bissau, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Togo, Benim, Nigéria, Camarões, Gabão, as duas Repúblicas do Congo e Nigéria pode ter sido de duas a quatro vezes maior do que supunham os pesquisadores americanos. Mesmo com a correção dos cálculos, no total, o número dos escravos vindos de Angola (considerada como parte da região centro-oeste africana), antiga colônia portuguesa que conseguiu sua independência somente em 1975, ainda supera o de qualquer outra região.

 

O tráfego em números

Segunda conclusão da pesquisa: a proporção dos escravos vindos do oeste africano não foi a mesma para todas as regiões brasileiras. Os geneticistas Sérgio Pena e Vanessa Gonçalves analisaram amostras de sangue de 120 paulistas que se consideravam negros, bem como aos seus pais e avós. Resultado: 40% desses paulistas apresentavam material genético típico do oeste africano.

 

Essa proporção, no entanto, foi menor no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, segundo artigo das geneticistas Maria Cátira e Tábita Hünemeier da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicado no American Journal of Physical Anthropology. Dos 94 negros cariocas, 31% herdaram de seus antepassados a genética do oeste africano, que também esteve presente em 18% dos 107 gaúchos.

 

Para tentar entender as diferenças, foi a vez dos geneticistas saírem em busca de fatos históricos que confirmassem seus resultados. Foi aí que conseguiram entender as discrepâncias nos percentuais dos três Estados.

 

A proporção de homens e mulheres iorubás, jejes e malês capturados na África Ocidental supera em muito o cálculo estimado, há anos, por pesquisadores americanos| Foto: Johann Moritz Rugendas

 

Nos séculos 16 e 17, os africanos da costa oeste chegaram aos portos de Salvador e Recife e foram trabalhar nos engenhos de cana-de-açúcar. Porém, anos mais tarde, com a decadência da produção açucareira, parte dessa mão de obra se deslocou para os cafezais que floresciam no Estado de São Paulo. Daí o Estado apresentar uma maior proporção de descendentes de escravos oriundos da costa oeste.

 

Já a geneticista Maria Cátira Bortoloni acredita que a baixa concentração de indivíduos originários da região em Porto Alegre aconteceu por uma causa indireta: 80% da mão de obra africana do Rio Grande do Sul vinha do Rio de Janeiro, que recebia escravos de todos os lugares. Os escravos do sul também vieram de Moçambique (no sudeste africano), mas em menor proporção (12%). Principalmente depois que a Inglaterra aumentou o controle sobre os portos africanos situados no Atlântico, muitos deles tiveram alterados seus registros de entrada como sendo originários de Angola.

 

Mamma África

Outro resultado encontrado pelos pesquisadores é que, embora tenham vindo muito mais homens do que mulheres, o negro brasileiro contemporâneo traz em seu material genético uma contribuição bem maior das mães africanas. Ou seja, 85% dos negros brasileiros têm uma ancestral africana, enquanto a herança genética de um antepassado (homem) escravo é de 47%. O restante dos negros brasileiros, em sua linhagem paterna, apresentou a genética de sua ancestralidade europeia.

 

A proporção de homens e mulheres iorubás, jejes e malês capturados na África Ocidental supera em muito o cálculo estimado, há anos, por pesquisadores americanos| Foto: Johann Moritz Rugendas

 

Esses dados vieram confirmar a teoria do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre que em seu clássico ensaio sobre a formação do povo brasileiro, escrito em 1933, relatou que as mulheres da senzala exerceram um fascínio todo especial sobre os senhores de engenho, brancos de origem europeia e que habitavam a casa-grande.

 

Revista Leituras da História Ed. 51