Parabéns, Albert Einstein!

O cientista alemão Albert Einstein foi um homem além de seu tempo, de mentalidade muito avançada para sua época no que se refere à sua profissão de físico. Uma de suas realizações mais festejadas e conhecidas foi a formulação da Teoria da Relatividade que, estabelecendo postulados que rompiam com a Física antes considerada irrefutável, veio trazer para a vida cotidiana uma abordagem dos fenômenos naturais que acabou tendo indiscutível influência na vida das pessoas malgrado a complexidade das leis físico-químicas que a caracterizavam

Por Luiz Muricy Cardoso | Fotos: Creative Commons | Adaptação web Caroline Svitras

 

A energia atômica, os modernos circuitos elétricos, os avanços empregados nas viagens espaciais, a hodierna revolução dos materiais, tudo isso deve ao gênio de Einstein um tributo de reconhecimento inestimável. Sua morte foi celebrada em diversos países e inúmeros eventos aconteceram para lembrar que viveu na terra o homem que, com os olhos voltados para o futuro, vislumbrou para além dos horizontes do universo do conhecimento técnico-científico de seu tempo. No ano passado, uma complexa teoria por ele formulada teve sua veracidade confirmada por meio de experimentos científicos.

 

“Que tipo de arma seria usada na eventualidade de uma 3ª Guerra Mundial?” – perguntaram-lhe. “Não sei. Mas numa 4ª Guerra Mundial as únicas armas seriam machados e facas de pedra” – foi a resposta do cientista alemão Albert Einstein. Tendo vivido durante um importantíssimo período da História – a 2ª Guerra – exatamente no centro dos acontecimentos (Einstein,  que era judeu, emigrou de seu país), a Alemanha Nazista, o físico não deixou de ser responsável pelo desenvolvimento da física quântica que acabou levando à construção da bomba atômica. Mesmo assim, preocupado com o bem-estar da raça humana, escreveu uma carta ao presidente americano Franklin Delano Roosevelt, tentando demovê-lo de usar tal artefato contra os partidários de Hitler.

 

A correspondência afinal não chegou a ser aberta pelo presidente. Morto esse de maneira repentina em 12 de abril de 1945, sucedeu-lhe no governo dos EUA Truman, que não deu ouvidos a Einstein ou aos outros cientistas que pensavam com ele e, ordenado os ataques a Hiroshima e Nagasaki, inaugurou uma época de equilíbrio de forças bélicas baseado no poder de dissuasão atômica que até hoje dita as regras das esferas de influência das nações.

 

Albert Einstein era um homem simples, segundo se sabe, humilde mesmo. Seus olhinhos de criança e sua carinha de vovô contrastavam com a atmosfera de austeridade que cerca os físicos. O cientista, que no final de sua vida definiu- se como “uma simples partícula da natureza”, parecia ser a antítese da soberba e sua imagem mais divulgada é uma foto em que ele aparece dando língua aos sérios.

 

 

Ele, que foi agraciado com o prêmio Nobel de Física em 1921, não era, então, um homem rico. Filho de Hermann Einstein, um comerciante de artigos elétricos de Munique, trabalhou, no início, dando aulas particulares ou substituindo professores em escolas secundárias. Einstein se graduou pela Escola Politécnica de Zurique, na Suíça Alemã, para onde havia se mudado, e tentou, após a formatura, conseguir um emprego naquela instituição – não o conseguindo, obteve afinal um posto na Repartição de Patentes de Berna. Isso resolvia os problemas financeiros com que se preocupava então.

 

 

Aura mística

O gênio de Albert Einstein tinha qualquer coisa de místico. Seus biógrafos lhe emprestam uma aura de quase santidade. A própria física possui esse mote. A Matemática, que, no dizer de seus estudiosos, “tem fim aberto”, traz em si essa razão incompreensível, essa atmosfera de magia, de sobrenatural. Dizer que a Matemática tem fim aberto é revelar sua abstratividade. Porque é nessa ciência que se veem os tão reverenciados e tão famigerados sofismas, que os gregos antigos usavam para demonstrar a infinitude da criação e a implausibilidade do pensamento racionalista. Assim, por exemplo, de acordo com um sofisma, a distância entre dois pontos chega a zero se a formos diminuindo. Porém, se a dividimos indefinidamente, não chega a zero nunca, tendendo porém a ele e dele se aproximando cada vez mais. São muitos os enigmas capciosos já propostos e os gregos tinham uma porção deles para nos lembrar da pequenez humana face à infinitude e inexplicabilidade do universo, que dirá do Criador…

 

Quando criança, Einstein começou a falar tarde, mas adorava música clássica no violino e ciências | Foto: Bettmann/Corbis

 

Por isso a aura mística em torno da Física, uma ciência inextrincavelmente atrelada às matemáticas. Ora, a Física clássica, newtoniana (desenvolvida pelo cientista inglês Isaac Newton no século 17), traz em si essa aura. Quanto mais a Física quântica, que era o objeto de Einstein. Contestando a Física clássica, a nova abordagem chega a postular ideias que parecem completamente absurdas, como “A menor distância entre dois pontos não é uma reta” e “Uma partícula pode ser, ao mesmo tempo, uma onda”. É tudo muito sofismático na Física einsteiniana. O judeu alemão tão festejado pelos seus colegas era uma pessoa extremamente intuitiva, que ultrapassava as barreiras do pensamento discursivo-analítico. A revista Enciclopédica, de 1969, afirma dele: “…se aproxima dos antigos místicos, alquimistas e taumaturgos”. Tudo isso dava a ele uma atmosfera de simpatia que perdura até os dias atuais.

 

Por isso pensadores como o catarinense Rupert Rohden o biografaram. Rohden tem graduação em Ciências, Filosofia e Teologia em instituições como as universidades de Innsbruck, na Áustria, Valkenburg, na Holanda e Nápoles, na Itália. Ele escreveu Einstein, o Enigma do Universo. O livro, dirigido ao público acadêmico e também leigo, é uma obra de linguagem acessível e ao mesmo tempo erudita, em que o autor procura explicar as principais teorias e traça um perfil da vida e do caráter do genial cientista cuja “misteriosa personalidade” era profundamente marcada pela simplicidade.

 

Einstein e sua irmã mais nova, Maria | Foto: Bettmann/Corbis

 

 

Rompendo com Newton?

Einstein teve precursores. Um deles, o escocês James Clerk Maxwell, já em meados do século 19, formulou a teoria que, sugerindo a existência das ondas eletromagnéticas, afirmava que elas se propagavam com a velocidade da luz, 300 mil quilômetros por segundo. Foi em 1888 que Heinrich Hertz, famoso cientista alemão, produziu essas ondas em laboratório, provando que a luz, por possuir uma “natureza ondulatória”, era também uma onda eletromagnética. A admissão da luz como uma onda trouxe à tona uma questão: de acordo com a Física newtoniana, toda onda é uma vibração de um meio no qual ela se propaga. Dessa forma as ondas do mar, por exemplo, são uma vibração da água, as ondas sonoras, uma vibração do ar etc. Assim, a propagação da luz deveria se dar pela vibração do meio no qual ela se move. Logo, procurou-se formular um pensamento baseado nesse postulado. Então se imaginou a existência de um meio sutil por meio do qual a luz se propagaria. A esse meio foi dado o nome de “éter”.

 

O físico Niels Bohr e Albert Einstein, em um momento de descanso, 1925

 

No final do século 19 os cientistas, baseados nesse princípio, buscavam demonstrar a existência dessa substância chamada éter. Os cientistas Albert Michelson e Edward Morley inferiram que esse éter deveria causar uma diferença na velocidade da luz caso ela se propagasse na direção do deslocamento dele ou contrária. Tal discrepância, entretanto, não se mostrou factível; a velocidade da luz se mantinha constante independentemente da direção em que o feixe dela se propagasse, de acordo com as experiências daqueles físicos. A partir desse momento surgiu uma irrecorrível contradição entre a Física clássica, newtoniana, e a Física quântica, na verdade  uma nova ciência. A confirmação da inexistência do éter criou as bases para a Teoria da Relatividade que Einstein, em seguida, formulou. Esse postulado, que estabelecia conceitos quase sobrenaturais, místicos, dizia que “o tempo se dilata” e os objetos, movendo-se nele, aumentam ou diminuem de tamanho… muito estranho!

 

 

Gênio indomável

Nascido em 14 de março de 1879, em Ulm, Einstein passou a infância em Munique. Seu pai era proprietário de uma loja de artigos elétricos. Na escola, o estudante que os professores consideraram medíocre, logo teve a curiosidade despertada para a ciência. Seu tio Jacob, engenheiro, despertou–lhe o interesse pela matemática. Albert Einstein, um aluno rebelde, considerado subversivo pelos professores, foi expulso da escola em Munique e, nessa ocasião, sua família mudou-se para Milão. Depois ingressou na Escola Politécnica de Zurique, na Suíça Alemã,  onde se graduou. Na Suíça conheceu Milena Maritsch, sua primeira mulher, com quem teve dois filhos.

 

Albert Einstein conheceu sua primeira esposa, Milena Maritsch, enquanto estudava no Instituto Federal Suíço de Tecnologia. Cartas entre o casal revelam que Maric ajudou Einstein, observando os dados científicos, verificando os cálculos e notas de cópia | Foto: AFP/Getty Images

 

Ele não concordava com os métodos de ensino de sua época, o que lhe trouxe dificuldades outras, como o fato de não ter conseguido o emprego de assistente na Escola Politécnica. Foi então que trabalhou como professor particular e depois conseguiu emprego na Repartição de Patentes de Berna.

 

Einstein (primeiro sentado à esq.) e seus colegas da escola secundária em Aarau, Suíça

 

A famosa fórmula E=mc² é amplamente difundida e uma marca registrada sua. Propõe que a massa pode ser transformada em energia e vice-versa. A equação diz que a energia (E) é igual à massa (m) multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz (c²). O fato de Albert Einstein ser judeu não impediu que até mesmo Hitler se rendesse a sua graciosa personalidade e seu enorme talento científico. O chanceler alemão convidou-o a retornar ao seu país de origem – onde seu gênio seria aproveitado no esforços de guerra, “esquecendo-se o fato de ser judeu”, nas palavras do próprio Führer.

 

Foi com a ascensão de Adolf Hitler ao poder que Einstein deixou a Alemanha e foi se radicar em Princeton, EUA, tendo se empregado no Instituto de Estudos Avançados. Sua casa na América passou a ser frequentada pelos cientistas mais renomados os quais debatiam com ele as teorias e descobertas científicas mais relevantes da época.

 

Carlos Chagas e a equipe do Instituto Oswaldo Cruz, em recepção a Einstein | Foto: Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

 

Einstein, que foi um aluno rebelde e considerado relapso era, entretanto, um aplicadíssimo estudioso. É dele a afirmação de que o gênio consiste em um por cento de inspiração e 99 por cento de transpiração, dando e entender que a inteligência, embora tenha uma faceta atávica, só pode ser atingida por meio de muito estudo e trabalho.

 

Einstein recebendo do juiz Phillip Forman seu certificado de cidadania americana, 1940

 

Teoria confirmada!

No começo de 2016, o cientista Einstein teve sua última teoria confirmada. Experiências físicas recentes vieram comprovar a veracidade da Teoria das Ondas Gravitacionais, proposta pelo alemão há cem anos. De acordo com esse postulado, todo corpo provoca perturbações no espaço ao redor quando em movimento. Trata-se de feixes energéticos que distorcem o espaço-tempo, o conjunto quadridimensional formado pelas três dimensões do espaço (altura, largura e profundidade) mais a dimensão tempo. Essa fabulosa constatação será importante, de acordo com os estudiosos, para o estudo dos buracos negros. Esses, dizem os cientistas, são formados pelo resfriamento de estrelas gigantescas que passam a atrair em quantidades dantescas matéria, energia e… luz!

 

Documentos históricos originais relacionados com a previsão da existência de ondas gravitacionais de Einstein | Foto: AP

 

Os físicos dizem que puderam comprovar a existência das ondas eletromagnéticas por meio da descarga de feixes de raio laser para dentro de enormes tubos,de 3 quilômetros de largura, o que, pela discrepância de velocidade entre eles,  comprovaria a veracidade da teoria. Em relação ao espaço percorrido em velocidade da luz, tem-se a dizer que é algo absurdamente pequeno, da ordem de tamanho menor que um nêutron, uma das partículas que formam o núcleo do átomo. Mesmo assim os cientistas concordam que foi dado um salto importantíssimo no conhecimento das leis atômicas e cósmicas e no comportamento dos elementos e dos corpos celestes. Agora os cientistas que fizeram a descoberta são os candidatos mais prováveis a ganhar o prêmio Nobel de Física em 2016.

 

Cientistas disparam lasers por longos túneis, tentando identificar as ondulações no tecido de espaço-tempo | Foto: LIGO

 

Adaptado do texto “Gênio Indomável”

Revista Leituras da História Ed. 94