Saiba como a sexualidade era tratada no mundo oriental antigo

Nem sempre as sociedades pensaram o erotismo com os valores e preconceitos de hoje

Por André Bueno* | Foto: Reprodução/www.brooklynmuseum.org | Adaptação web Caroline Svitras

Quem pensa que o mundo islâmico era desprovido de erotismo está redondamente enganado. As representações imagéticas não são muitas, e o discurso religioso também era casto e reservado como o dos cristãos. No entanto, o erotismo pululava nas páginas da literatura árabe e persa. É só procurarmos: as famosas Mil e uma Noites são recheadas de passagens eróticas – e o fio condutor que amarra a construção da história é o sexo. O rei Xariar é traído por sua esposa e, desgostoso com isso, resolve ir embora com um amigo. No meio do caminho, encontram um “Djin” adormecido e sua esposa voraz, que os força a fazer sexo com ela sob ameaça de despertar o terrível gênio malvado. Xariar, então, decide voltar, matar a esposa e matar toda aquela com quem se casasse logo depois das núpcias para não ser traído. Isso, até encontrar Xerazade, mulher sábia que, em companhia da irmã, o entretém (e o educa) todas as noites com uma história.

 

As famosas Mil e uma Noites são recheadas de passagens eróticas – e o fio condutor da história é o sexo | Foto: Sani ol-Molk

Muitas histórias têm fortes pitadas eróticas, que foram editadas nas traduções feitas para o Ocidente. No entanto, o manual O Jardim Perfumado [também conhecido como Jardim das Delícias], do xeique Nefzaui, não deixa dúvidas de como o assunto era apreciado. O livro é um manual sobre sexo e relações humanas, que visa proporcionar a felicidade para os parceiros. Obviamente, manuais surgem quando a cultura se esquece de como as coisas eram feitas – ou, tentam propor uma visão ideal de como deveria ser feito. Mesmo assim, a imaginação ocidental criticava, no Islã, seus desejos reprimidos: os haréns, as mulheres voluptuosas da dança do ventre, os costumes homoeróticos do Norte da África. O erotismo é um bom espelho invertido das sociedades.

 

A Índia tinha uma tradição bem distinta nesse campo. Lá, o erotismo sempre foi tratado como um tema de cunho religioso e espiritual. A realização sexual estava ligada ao desenvolvimento espiritual e à libertação do mundo material. Isso criou perspectivas diversas. Por um lado, existiam ascetas que defendiam um total controle sobre as energias sexuais, praticando a abstinência. Existiam aqueles que entendiam a prática do sexo como uma função social – propiciar encarnações para as almas nesse mundo, e formar uma família. Por fim, havia quem entendesse o erotismo como algo inerente à humanidade e, portanto, como algo divino.

 

O historiador das religiões Mircea Eliade explicou isso muito bem em seu livro O Erotismo Divino da Índia. O sexo também era entendido como uma via de libertação espiritual. O orgasmo envolvia o despertar da “kundalini”, a energia vital que se localiza na espinha, e que é sentida no momento do auge do prazer. Exercitá-la, de modo correto, poderia levar ao aprimoramento da alma. Assim, surgiram vários tipos de disciplinas corporais e escolas filosóficas (como os famosos tantristas) que defendiam a prática sexual. Neles, existia o culto à mulher, que incitava sua participação ativa no ato sexual, pois se acreditava que satisfazê-la ao extremo ajudaria no domínio corporal tanto de homens quanto de mulheres. Alguns homens optavam por se transformar em travestis sagrados, prostituindo-se para proporcionar renda para seus templos.

 

Pintura representando a deusa hindu Kali e o deus Bhairava, em união carnal | Foto: www.collections.lacma.org

Uma dinastia indiana, os cholas (ou chandelas), do século 10 d.C., construiu templos repletos de imagens eróticas em Khajuraho, cujo objetivo era cultuar as forças sexuais divinas por meio de orgias sagradas. Há cenas de todos os gêneros e gostos, o que pode causar uma impressão equivocada para um observador desavisado, que não compreenda a proposta tântrica. Os indianos também proporcionaram uma interessante literatura de manuais eróticos, dos quais os mais conhecidos são o Livro do Desejo (Kama Sutra) e o Ananga Ranga. Ambos tratam de questões comuns, a escolha de parceiros, as práticas sexuais, sociais etc. Na verdade, são livros interessantes para compreender a mentalidade indiana em suas épocas diferentes, para além, claro, de vislumbrar as capacidades criativas e acrobáticas dos indianos antigos em termos de sexo.

 

Já na China, desde a Antiguidade, o sexo nunca fora considerado pecado ou uma questão religiosa. As práticas eróticas eram tidas como absolutamente naturais e prazerosas, e viraram, inclusive, tema de textos sobre saúde. Inúmeros tratados foram encontrados em uma tumba em Mawangdui, em 1974, e versavam sobre como cuidar da saúde praticando sexo. O objetivo era harmonizar o yin (feminino) e o yang (masculino) por meio de exercícios e jogos sexuais que proporcionariam o máximo de prazer e bem-estar aos praticantes. Entendia-se, porém, que homem e mulher serviam para constituir família; mas, para o sexo, a liberdade de opção era amplamente tolerada. Há um atrito constante, ao longo da história chinesa, entre o desejo de submeter o feminino ao masculino, representado por grupos ligados ao poder, e o restante da sociedade, que era bastante “frouxa” nesse sentido. Fato é que só depois da invasão mongol, em um período bem “recente” da história chinesa (século 13 d.C.), instituiu-se um discurso absolutamente machista, que desde então se acentuou. A reação a isso foi o surgimento da pornografia e de uma riquíssima arte erótica, dedicada a “educar” e a “disseminar” aquilo que não podia ser abertamente assumido. Livros como o Tapete de Carne (Rouputuan) e o Vaso do Lótus Dourado (Jing Pinmei) mostravam que os chineses não estavam satisfeitos com as divisões sociais moralistas. Ainda assim, os deuses chineses nunca meteram seu bedelho em assuntos eróticos, e o sexo nunca se transformaria em pecado.

 

 

Revista Leituras da História Ed. 69

Adaptado do texto”Subversão moral? Depende da época…”

*André Bueno é pós-doutor em História e professor da Unespar; Helayne Cândido é formada em pedagogia e especialista em Educação; Vanessa Chucailo é mestranda em História pela Unicentro.