Saiba mais sobre a Guerra da Coreia

A divisão da península coreana em Coreia do Norte e Coreia do Sul foi um efeito colateral direto da vitória dos Aliados na 2ª Guerra Mundial

Da Redação | Adaptação web Caroline Svitras

A turbulenta década de 40, caracterizada por confrontos mundiais e o uso indiscriminado de armas nucleares, terminou com muitas dúvidas e questionamentos sobre a nova política mundial. A Revolução Chinesa (1949), o fortalecimento dos movimentos de independência e a debilidade militar e política das nações europeias em manter as suas colônias sem distúrbios sociais, demonstravam que o início da nova década no continente asiático seria tenso e conflituoso.

 

A emergência da revolução chinesa e sua influência ideológica na região despertaram o fascínio e a admiração de milhões de pessoas. Enquanto as superpotências reacomodavam suas forças políticas na nova conjuntura mundial, dividindo e rearticulando o seu domínio por toda a Europa e América e criando instituições financeiras para o seu interesse político (FMI e BID), a maioria dos povos da Ásia concentrou as suas forças em antigas reivindicações políticas vinculadas à luta pela independência e pela soberania nacional.

 

Na nova ordem mundial, EUA e Rússia preferiram consolidar seus domínios, estabelecendo uma política diplomática de plena negociação mundial. Para o governo soviético, o período pós-guerra era o momento de reconstrução interna do país. As principais cidades russas e o parque industrial eram prioridades. No campo internacional, Stálin concentrou seus interesses na formação de um bloco de países aliados e afinados com os interesses russos. Política e militarmente, a zona do Leste Europeu ficou sob a sua esfera de dominação. Para o governo americano, a nova ordem mundial significava a expansão comercial dos produtos americanos e a penetração da cultura americana por todo o globo.

 

No início da Guerra Fria, a Coreia do Norte comunista entrou em guerra com seu vizinho capitalista. O conflito sangrento durou de 1950 a 1953

Ao contrário do governo russo, os americanos não precisaram reconstruir internamente as suas cidades e nem investir pesadamente no parque industrial. O pós-guerra se converteu em uma época de ouro para a política americana e tudo o que deveriam fazer era impor a sua dominação – pacífica ou militarmente – sem muita intervenção de outras nações. A península da Coreia foi o melhor exemplo de negociação diplomática entre as duas superpotências.

 

Faltando algumas semanas para o término da 2ª Guerra Mundial, o exército soviético penetrou ao norte do território coreano, derrotou e sufocou o poderio japonês por toda a região. A penetração russa na península foi rápida e fácil e, em poucas semanas, o exército russo poderia ocupar todo o país. Conforme as negociações travadas entre Stálin e Truman (Acordo de Potsdam – 1945), as forças soviéticas deveriam ocupar somente o norte da Coreia. O sul ficaria sob o controle e jurisdição americanos. Entre as duas potências foi criada uma linha imaginária que passou a separar o país em duas partes. O vergonhoso e imaginário paralelo 38 definia o país sob a ótica da dominação russa e americana, sem a participação e discussão com os líderes locais. Talvez essa seja a principal razão do conflito militar.

 

Um passado de dominação

Ao longo dos séculos, a península coreana sempre esteve nas mãos de poderosas nações. Durante séculos os chineses administraram a região, fundaram cidades e áreas portuárias, mas no início do século 20, precisamente em 1910, o Japão ocupou militarmente o país e o transformou em uma nova colônia japonesa. Para os olhos imperialistas japoneses, a Coreia não passava de um centro de exploração econômico, onde a extração de riquezas minerais e o aumento da produção agrícola eram as principais prioridades.

 

As bombas de Hiroshima e Nagasaki

 

Como todas as nações imperialistas no início do século 20, o Japão desenvolvia qualquer atividade econômica no país em função dos interesses industriais e comerciais da metrópole (Tóquio). Entre 1912 e 1933, a produção de arroz e trigo aumentou em mais de 50%, mas a maior parte se destinava exclusivamente ao mercado japonês, complicando a vida de milhões de coreanos que dependiam exclusivamente desses alimentos. O período de fome e miséria que assolou milhões de coreanos ocorreu juntamente aos anos de grande produção agrícola. A economia coreana funcionava conforme as necessidades da produção industrial japonesa.

 

Durante o período da guerra mais de 5 milhões de trabalhadores coreanos trabalhavam direta e indiretamente nas indústrias japonesas da Coreia. Quase um milhão de coreanos trabalhava em regime de semiescravidão no Japão. Proibidos de comercializar os seus produtos com outras nações, os coreanos vendiam somente para as empresas japonesas. Os preços e as formas de pagamento eram determinados pelos representantes do governo japonês. Nos últimos anos da guerra, milhões de pequenos agricultores estavam arruinados, pois toda a produção agrícola destinada ao mercado consumidor japonês raramente era paga.

 

Em 1949, o governo de Rhee mantinha em cárcere 36 mil prisioneiros políticos com um saldo de mortes de mais de 100 mil pessoas

 

As péssimas condições de vida e a violenta repressão do exército japonês sobre os coreanos proporcionaram o aparecimento de movimentos de luta contra a dominação nipônica por toda a Coreia. Bem antes do início da 2ª Guerra Mundial os movimentos guerrilheiros de forte inspiração marxista eram conhecidos e respeitados entre os camponeses e trabalhadores coreanos. O Comitê de Preparação da Independência da Coreia (CPIC) abrigava milhares de coreanos de diferentes correntes ideológicas, mas grande parte do movimento era composta por partidos clandestinos de esquerda, com forte influência revolucionária.

 

A repressão da polícia secreta japonesa aos seus líderes não enfraqueceu o movimento que, em poucos anos, passou a contar com a simpatia de sindicatos e ligas camponesas. A influência do processo revolucionário chinês despertou atenção de milhares de coreanos. A extensa faixa de terra que separa a Coreia e a China permitiu o ingresso de quase meio milhão de coreanos no processo revolucionário chinês. Às vésperas da tomada do poder, o exército revolucionário de Mao Tse-tung contava com o apoio e a solidariedade coreanos de todas as classes na conquista da região mais importante da China, a Manchúria.

 

Entenda quem foi Mao Tse-tung

 

A rendição das tropas japonesas (1945) e a saída imediata de seu exército da Coreia aumentaram a expectativa do povo coreano em obter a sonhada independência. Mas a súbita divisão da nação em dois países trouxe frustração ao povo coreano e acirramento político entre as principais lideranças do país. No sul, o exército americano passou a ter dificuldade em instalar um governo pró-américa. A falta de funcionários leais ao novo governo obrigou o general Douglas Mac Arthur a empregar japoneses na nova administração, resultando em muita insatisfação e ódio do povo coreano.

 

As organizações políticas que lutaram pela independência da Coreia nos anos de dominação japonesa foram marginalizadas e perseguidas pela administração americana, pois o programa político dessas organizações estava mais associado às propostas comunistas do que à livre iniciativa. O sentimento de continuísmo e submissão moveu sindicatos e organizações políticas a organizarem greves e passeatas por todo o sul do país. A forte repressão militar americana, fechando sindicatos e prendendo e torturando lideranças populares, só aumentou a tensão social na região. A arrogância americana em resolver o assunto político por meio da força e do amedrontamento conduziu milhares de sul-coreanos à clandestinidade.

 

Syngman Rhee, o polêmico presidente da Coreia do Sul

Em 1947, surgiu o movimento guerrilheiro do sul da Coreia, e sua base de apoio poderia ser encontrada tanto no campo como na cidade. A necessidade de instalar um governo afinado com os interesses capitalistas forçou o governo americano a indicar o liberal conservador Syngman Rhee ao posto de presidente da República da Coreia do Sul. Os seus atos conservadores contra a reforma agrária e os direitos trabalhistas, vinculado à sua dura personalidade em combater todas as forças políticas que criticavam a sua administração, não melhoravam a sua imagem.

 

O seu governo era impopular e suas posições ideológicas, quanto ao futuro político das duas Coreias, só aumentavam a tensão entre norte e sul. Seguindo as orientações de Washington, que passou a fornecer toda ajuda financeira e militar, Rhee governou a Coreia do Sul em estado de terror e perseguição. Durante o outono de 1946, uma série de greves e passeatas exigindo melhores salários e direitos trabalhistas tomaram conta da cidade de Seul. Na manifestação, a polícia foi autorizada a atirar na multidão matando 41 grevistas. Logo depois, centenas de grevistas foram presos, torturados e condenados à pena de morte. Em 1949 o governo de Rhee mantinha em cárcere 36 mil prisioneiros políticos e um saldo de mortes de mais de 100 mil pessoas.

 

A instabilidade política na Coreia do Sul preocupava o governo americano, mas estava determinado a impedir de todas as formas o avanço comunista na região, mesmo que seus amigos desrespeitassem todos os artigos da Declaração dos Direitos Humanos. Foi neste momento de dúvidas e preocupações que o governo americano autorizou a fundação das escolas militares para jovens de diferentes nacionalidades. Concentrado basicamente no combate ao comunismo e no fortalecimento de ideias liberais, a elite de militares seria responsável pela instauração de governos autoritários e repressivos por toda a America Latina e África. Nomes envolvidos nos golpes militares da America Latina, como Pinochet, no Chile; Hugo Banzer, na Bolívia; Videla, na Argentina; e inúmeros generais brasileiros, foram alunos destas academias militares.

 

Truman autorizou o envio de milhares de soldados americanos na região e, com a aprovação unânime dos membros do Conselho das Nações Unidas

 

A situação política da Coreia do Norte nas mãos do governo soviético, era oposta à do seu vizinho. Em 1946, o governo soviético nomeou como presidente daquele lado do país o líder comunista Kim II Sung. Em poucos meses de governo, Kim lançou o programa comunista de reforma agrária nas grandes propriedades e a estatização do sistema financeiro e industrial. Além dessas reformas econômicas, Kim lançou também os programas sociais de melhoria da qualidade de vida, combatendo o analfabetismo e erradicando a fome e miséria. Em resumo, Kim era popular entre as duas Coreias e seu grande sonho era unificar as duas a qualquer preço. O contrabando de armas procedente da Coreia do Norte para o movimento guerrilheiro do sul era coordenado pelos oficiais militares do governo de Kim.

 

O conflito militar

O verão de 25 de junho de 1950 foi registrado como o início da Guerra da Coreia. O exército de Kim ultrapassou o paralelo 38 e determinou a todos os seus comandantes o ataque às principais cidades da Coreia do Sul. Fortemente armados por tanques, canhões e aviões de combate soviéticos, os soldados norte-coreanos penetraram facilmente na fronteira. Em poucos dias detinham o controle de praticamente 80% da Coreia da Sul. Cinco dias depois, o presidente americano, Truman, autorizou o envio de milhares de soldados americanos na região e, com a aprovação unânime dos membros do Conselho das Nações Unidas, outros países alinharam interesses com as tropas americanas.

 

Os combates passaram a acontecer por todos os lados. No ar, os novos aviões supersônicos soviéticos e americanos passaram a ser testados regularmente em combates aéreos. A primeira geração do MiG-15 russo enfrentou os novos F-86. Já nos primeiros combates, a superioridade tecnológica dos Migs era nítida, mas a habilidade e a destreza dos pilotos americanos proporcionaram inúmeras vitórias. Depois da guerra, a Força Aérea Americana alegou que derrubou 792 MIG e somente 108 F-86 foram abatidos.

 

O general Douglas Mac Arthur empregou japoneses na nova administração e incitou a insatisfação e o ódio do povo coreano

 

Por terra, os conflitos entre as forças aliadas da Coreia do Sul contra o exército da Coreia do Norte eram constantes, e ambas as partes proclamavam vitórias. Nos primeiros meses, as tropas norte-coreanas destruíram 89 tanques, 76 canhões de alto alcance, 7 mil soldados estavam mortos e 16 mil foram capturados, mas, em contrapartida, milhares de soldados norte-coreanos eram atingidos diariamente pelos bombardeiros americanos B-29.

 

O uso do helicóptero em zonas de combate aconteceu pela primeira vez em missões de socorro, mas ao longo do conflito esta nova arma poderia prestar outros serviços. A princípio, a Guerra da Coreia se concentrou exclusivamente na expulsão das tropas norte-coreanas do território sul-coreano, mas ao longo das sucessivas vitórias americanas, os planos de Truman e do general Mac Arthur passaram a ser mais ambiciosos. Convenceram os membros do conselho permanente das Nações Unidas a votarem uma resolução para invadir a Coreia do Norte e unificá-la ao sul.

 

Uma rápida aprovação permitiu que o exército dos EUA ultrapassasse o paralelo 38. Com a força de 70 mil soldados americanos e mais 30 mil soldados de outras nações, a capital da Coreia do Norte, Pyongyang, foi tomada em 19 de outubro. No final daquele mês o exército norte-coreano estava rapidamente desintegrado e os poucos batalhões que restavam passaram a se refugiar bem próximos da fronteira chinesa. Dois dias depois, Mao Tse-tung ordenou que o exército chinês e a milícia revolucionária estivessem prontos para a guerra. A tática do exército chinês, em andar a pé durante 19 noites interruptamente ao redor do rio Yalu e descansar camufladamente durante o dia, impediu que o exército americano percebesse a movimentação militar chinesa por toda a Coreia do Norte.

 

Nos primeiros dias de novembro de 1950 milhares de soldados chineses passaram a atacar em todos os flancos, causando a perda de milhares de soldados americanos. Em um momento de desespero Truman pensou em lançar uma bomba atômica entre a Coreia do Norte e a China. A forte pressão política dos países aliados (Inglaterra e França) convenceu o presidente a não usar essa arma – o fato é que a Rússia poderia lançar a sua bomba atômica na Europa, caso houvesse alguma tensão política.

 

Dois meses após a posse de Dwight Eisenhower o termo de armistício foi assinado, em 27 de junho de 1953. Os soldados puderam, finalmente, voltar para casa

 

A crise da Coreia começou a ser resolvida por meio da negociação diplomática em julho de 1951. Durante os dois últimos anos de guerra houve poucos confrontos armados entre chineses e americanos. O candidato a presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, prometeu em campanha eleitoral que a sua vitória significaria o fim do conflito da Coreia. Dois meses após a sua posse foi assinado o termo de armistício, em 27 de junho de 1953, no qual as Coreias do Sul e do Norte voltariam a ser separadas pelo paralelo 38.

 

O início da Guerra Fria trouxe o trágico balanço de mortos: 95 mil soldados da força da ONU, 34 mil soldados americanos mortos em batalha e mais 21 mil mortos por doenças ou acidentes. Aproximadamente 3 milhões de coreanos do Sul e do Norte morreram no conflito e mais de um milhão de soldados chineses. Infelizmente, este desgastante conflito continua trazendo tensão e medo por toda a região. Como no passado, tanto a Coreia do Sul como do Norte, sinalizam que gostariam de estar unidas e prósperas, mas nenhuma tem pretensão de ceder politicamente.

 

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Fotos: Leituras da História Ed. 92