Saiba mais sobre a imigração italiana para o Brasil

A crise de emprego na Itália na segunda metade do século 19 e a promessa de novas oportunidades do Brasil republicano terminou por gerar um fluxo de imigrantes daquele país que moldou, em certa medida, parte da identidade do Brasil

Por Tarcísio José Martins | Foto: Raimundo Alves Pinto/SIA/APM | Adaptação web Caroline Svitras

A região do atual Sudoeste Mineiro, localizada a Oeste do lendário rio Sapucaí, foi conhecida em seus primórdios como Sertões do Jacuhy. A atual cidade de Arceburgo se localiza a Oeste desse Sudoeste de Minas, limítrofe ao Estado de São Paulo. O município de Monte Santo de Minas, ao qual pertenceu o povoado de São João da Fortaleza, chamou-se, em seus primórdios, São Francisco de Paula do Tejuco. Segundo o historiador Hiansen Vieira Franco, sua paróquia foi criada pelo bispado de São Paulo (sic), em 1858. Em um mapa, disponibilizado no site do Arquivo Público Mineiro, datado de 1862, há uma citação à toponímia “S. Francisco de Paula do Tijuco”.

 

O modesto povoado de São João da Fortaleza, pertencente ao Município de Monte Santo, foi elevado a distrito em 1901, emancipando-se em 1911, quando foi elevado a município com o nome de Arceburgo e teve seu território desmembrado de Monte Santo.

 

O desenvolvimento de ambos os municípios se deveu à imigração italiana nas Minas Gerais. Os árabes sempre estiveram em grande número nessa região, mas não tiveram disposição tão grande de imigração para o Brasil como os italianos. A imigração italiana em São Paulo teve início no ano de 1875, mas Minas, tendo sido escravista radical até 1888, só passou a se preocupar com a essa possibilidade ao final dos anos oitocentos, começo dos novecentos. Da mesma forma, São Paulo fundou seu Partido Republicano em 1873, Minas, somente ao final de 1889 e, mesmo no pós-República, continuaria monarquista por muito tempo, fatos que, salvo melhor interpretação, comprometeram, e muito, a sua historiografia quanto à contribuição dos pretos na construção da Pátria Mineira.

 

Mapa de Henrique Halfed e Frederico Wagner, concluído em 1855, nunca publicado no Brasil, hoje disponibilizado pelo APM | Foto: Arquivo pessoal

 

Quando os novos imigrantes chegaram ao Povoado de São João da Fortaleza não faziam a menor ideia do passado dessa região, pois não receberam informações a respeito, sabendo apenas que haviam sido atraídos para trabalhar nos cafezais sob o pomposo nome de “colonos”, adjetivo enganador para quem veio com a finalidade de substituir a mão de obra escrava recém-extinta.

 

Um mapa de 1939, assinado pelo chefe do serviço geográfico do Estado de Minas Gerais e pelo então prefeito municipal de Arceburgo, Adolfo de Souza Caldas, imortalizou os nomes de 13 colônias onde os imigrantes, provavelmente os mais pobres, foram assentados para trabalharem principalmente com o café. De sul para norte do território municipal: 1) Colônia da Usina, 2) Colônia Pedra Branca; 3) Colônia Santa Isabel; 4) Colônia Nova; 5) Colônia Velha; 6) Colônia Barreiro; 7) Colônia Santo Antônio; 8) Colônia Santa Lídia; 9) Colônia Mandioca; 10) Colônia Marimbondo; 11) Colônia (perto de Aureliano Pereira); 12) Colônia Arantes e 13) Colônia Cascatinha. Grande parte da toponímia primitiva foi esquecida. A Colônia Marimbondo manteve essa toponímia de origem banto (quimbundo e umbundo). Já o córrego Guaritá ou Guaretá é, sem dúvida, uma italianização da toponímia guarita ou gorita, nome que se dava aos chamados morros de espia dos quilombos, no caso, provavelmente o tal morro do Pedregulho também registrado no mapa de 1939.

 

A maioria dos nomes desses imigrantes italianos pode ser encontrada no Arquivo Público Mineiro que exibe em seu site o registro de chegada, muitas vezes, por grupo familiar. Por exemplo, veja-se Ernesto Longo:

Reprodução

 

Outros nomes desses imigrantes podem ser encontrados no Museu da Imigração de São Paulo (www.museudaimigracao.org.br), pois a conexão cafeeira de São Paulo e Minas àquela época foi muito maior do que se possa pensar. Considerando informações fornecidas pelas pessoas idosas de Arceburgo – fontes básicas a serem pesquisadas para se acrescer dados à história da cidade – é possível reconstruir a história da imigração italiana na região, trajetória essa bastante conectada ao sistema de imigração fomentado por São Paulo a partir do ano de 1875. Embora, pelas razões expostas, ela não tenha se constituído como regra em Minas, mas, sim, como uma ínfima exceção experimentada mormente no sudoeste do estado a partir da Proclamação da República.

 

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Adaptado do texto “Raízes de Minas”

*Tarcísio José Martins é advogado, historiador e gestor do site cultural MGQUILOMBO que, em mais de 30 anos de pesquisas, trouxe de volta a História da Confederação Quilombola do Campo Grande – www.mgquilombo.com.br.