Saiba tudo sobre a ditadura militar panamenha

Manuel Antonio Noriega, ex-ditador que comandou com mão de ferro o Panamá nos anos 1980, entre seus (maus) feitos, estabeleceu uma rede de corrupção que se espalhou por todos os segmentos da sociedade panamenha

Por Rose Mercatelli | Foto: Carlos Guardia/AP | Adaptação web Caroline Svitras

Com 83 anos, o ex-ditador Manuel Antonio Noriega teve sua morte anunciada no final da tarde do último dia 29 de maio. O antigo homem forte, que governou o Panamá entre os anos de 1983 e 1989, estava internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santo Tomás, o maior do país, em estado grave, desde o dia 7 de março, depois de ter sido submetido a uma cirurgia para a remoção de um tumor cerebral benigno. Durante sua internação, foram frequentes os rumores de sua suposta morte ou de agravamento de sua saúde já bastante frágil. Nos últimos anos, Noriega sofreu com diversas doenças, como bronquite e pressão alta.

 

Quando ascendeu ao poder, em 1983, ele ganhou certa notoriedade na América Latina, quando aparecia em discursos públicos no Panamá brandindo um facão e rugindo “Nenhum passo atrás!”, durante as ruidosas manifestações das suas Brigadas da Dignidade (Batallones Dignidad), milícias paramilitares nacionalistas e fortemente anticomunistas criadas por ele, com a principal missão de defender o território nacional de uma possível invasão liderada pelos Estados Unidos – o que aconteceria finalmente em dezembro de 1989 – além de lutar contra grupos insurgentes de esquerda e organizações anti-Noriega.

 

O vice-presidente dos Estados Unidos, George Bush, conhece Manuel Noriega em 1983 | Foto: Sygma/Corbis

 

Porém, o que o mundo não sabia é que, apesar de seus discursos inflamados, o inescrupuloso e oportunista Noriega manteve relações simultâneas com a CIA americana, com o narcotraficante colombiano Pablo Escobar, o líder cubano Fidel Castro e com vários serviços de inteligência, como o de Moscou.

 

Depois de ser tirado do poder pelos americanos em 1989, Manuel Noriega foi extraditado para os Estados Unidos e França, onde cumpriu pena por mais de 20 anos. De volta ao Panamá em 2011, o ex-ditador cumpria a pena de 60 anos na prisão El Renacer, nos arredores da capital panamenha, até o dia 28 de janeiro de 2017, quando a Justiça concedeu a ele prisão domiciliar temporária para que fizesse o pré e o pós-operatório. Apesar de ter solicitado perdão e ter sofrido vários derrames cerebrais, complicações pulmonares, cancro de próstata e depressão, as autoridades panamenhas negaram todos os pedidos de prisão domiciliária. A respeito da morte do ex-ditador, o atual presidente do país, Juan Carlos Varela, limitou-se a escrever em sua conta no Twitter: “A morte de Manuel A. Noriega encerra um capítulo da nossa história. As suas filhas e familiares merecem realizar um funeral em paz”.

 

O avanço da esquerda

No período da Guerra Fria, do início da década de 1960 até meados dos anos 1980, vários grupos paramilitares e partidos políticos seguidores das ideologias de esquerda, socialista e comunista concentraram seus esforços na América Latina, com o alegado propósito de libertar os povos de vários países que, frequentemente, se viam dominados por ditadores e caudilhos, desde o processo de independência dos territórios latino-americanos em meados do século 19.

 

“Um dos exemplos mais importantes desse movimento de esquerda foi a ascensão de um governo socialista no Chile em 1970, comandado pelo médico Salvador Allende”, diz Yvone Dias Avelino, professora de História da América da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP). Até então, o Chile consolidava-se como uma democracia parlamentarista, alicerçada pela hegemonia da burguesia industrial.

 

Em 1970, o cenário começou a mudar com a vitória do candidato da Unidade Popular, o socialista Salvador Allende. Pela primeira vez na história mundial, o Chile elegia democraticamente um presidente socialista com a proposta de fazer a transição pacífica do sistema democrático vigente na época para o socialismo, respeitando as liberdades individuais e a constituição.

 

Salvador Allende com Fidel Castro | Foto: World History Archive / Alamy Stock Photo

 

Essas mudanças, que já vinham ocorrendo na América Latina desde a tomada do poder em Cuba por Fidel Castro, em janeiro de 1959, preocupavam cada vez mais o governo americano que, em geral, por meio de interferência de seus serviços de inteligência procurava intervir nos acontecimentos: “A partir da década de 1960, os golpes militares ocorridos em vários países latino-americanos foram, em boa parte, uma resposta dada pelo governo americano a essa vontade das esquerdas de dominar a América Latina”, explica a pesquisadora Yvone Dias Avelino. Foi o que aconteceu no Chile com o governo de Allende, que desagradava tanto a classe dominante chilena quanto os Estados Unidos que, em 1971, estabeleceu um bloqueio econômico informal ao país, fazendo com que a crise, já existente depois de um ano de mandato, se intensificasse.

 

O resultado final do caos político e social que se estabeleceu no Chile culminou com o bombardeio do Palácio La Moneda, sede do governo chileno, pelas tropas comandadas pelo ultradireita General Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973. Um golpe militar (como outros tantos que aconteceram na AL) com as bênçãos e o patrocínio do governo americano, o que foi confirmado décadas depois com a divulgação de comentários registrados em fitas magnéticas feitos pelo presidente dos EUA, Richard Nixon, e de seu secretário de Estado, Henry Kissinger, demonstrando o papel de Washington no golpe do então presidente chileno.

 

 

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Adaptado do texto “Caudilho sanguinário”