Saiba tudo sobre a História e religião da sociedade celta

Apesar de serem associados constantemente ao druidismo, cuja importância é essencial para a estrutura organizacional deles, e à saga arthuriana, conjunto de lendas referentes ao mítico rei Arthur, eles não se resumem só à religião ou ao mito, tanto que, antes da conquista empreendida pelo Império Romano, boa parte da população da Europa Ocidental pertencia às etnias celtas

Por Morgana Gomes | Foto: inhp.com/park-history/celtic-early-christian-age | Adaptação web Caroline Svitras

Em virtude da ausência de documentos originais, boa parte da história dos povos celtas ainda é hipotética. A mesma situação ocorre com sua origem, que continua um tanto controversa. Apesar disso, historiadores acreditam que ela se deu entre 1900 e 1500 a.C., devido à fusão de descendentes de agricultores danubianos neolíticos com povos pastores oriundos das estepes que, aos poucos, também se misturaram com outras tribos e grupos distintos, entre os quais se destacavam os bretões, os gauleses, os batavos, os belgas, os gálatas, os trinovantes e os caledônios.

 

Estudos também apontam que a história céltica se estendeu por 19 séculos, a partir de 1800 a.C. até o século 1º a.C., momento em que entrou em decadência devido à própria desunião de suas várias tribos, que ainda foi impulsionada pela invasão do Império Romano às terras que ocupavam. Só que, durante todo esse tempo, os celtas conseguiram se individualizar culturalmente dos demais povos indo-europeus, a ponto de ser considerado pelos pesquisadores atuais os mais civilizados da Europa.

 

Ainda de acordo com especialistas, os celtas viveram sua época mais brilhante, aproximadamente, entre 725 e 480 a.C., na era de Hallstatt, período no qual se deu o início da civilização céltica do ferro que, por sua vez, coincide com a ocupação de uma grande parte do oeste da Europa – da Península Ibérica à Anatólia (atual Ásia Menor, ocupada principalmente pela República da Turquia), continente aonde chegaram, provavelmente, por volta de 4 mil a.C. Consequentemente, em torno de 1800 a.C., bem antes dos gregos e dos romanos, os celtas já tinham a sua cultura definida e um território totalmente estabelecido.

 

Exemplo de uma vila celta reconstruída da Irlanda, onde há várias delas abertas a visitação | Foto: Reprodução/wanderungs.com

 

Além desses aspectos, durante a primeira fase da Idade do Ferro céltica (que vai do século 8º a.C. ao século 5º a.C.), sepulturas repletas de finas peças de cerâmica grega e outros objetos, como bronzes de origem etrusca e tecidos de seda da China, que foram encontrados por arqueólogos, também indicam o surgimento de uma nova aristocracia e de uma crescente estratificação social, que se aprofundou a partir do século 6º a.C., período em que grupos célticos do norte da Europa e da região oeste dos Alpes estabeleceram contato comercial tanto com as colônias gregas fundadas no Mediterrâneo Ocidental quanto com regiões ainda mais afastadas. Em decorrência desse intercâmbio, estudiosos defendem que os gregos passaram a armazenar o vinho em vasos de cerâmica por influência celta, pois esse povo já armazenava suas provisões de forma semelhante.

 

Nessa mesma época, os centros urbanos celtas – que, na verdade, mais pareciam povoados – ainda se localizavam ao longo dos rios Ródano, Saona e Danúbio. Mas, a partir do século 4º a.C., já durante a segunda fase da Idade do Ferro europeia, período em que se deu o desenvolvimento artístico da cultura La Tène, eles começaram a se deslocar, conforme comprovam as sepulturas da época que, embora menos ricas, se comparadas às da fase anterior tida como pacífica, passaram a conter armas e carros de combate, em um evidente reflexo de uma maior expansão que alcançou o sul da Europa e que culminou, em 390 a.C., com a invasão do norte da Península Itálica (Gália Cisalpina) e, pouco depois, com um saque em Roma.

 

A religião celta

Além de nunca ter assumido um aspecto institucional, devido ao fato dela coexistir em todas as áreas da vida do povo, dificilmente dá para falar dos celtas sem citar a religião. No entanto, se, em consenso, muitos especialistas afirmam que o druidismo era responsável por nortear o comportamento e a conduta dos celtas, por outro lado, essa mesma religião é ainda um tanto obscura nos dias de hoje. Embora haja inúmeras informações que circulam por aí, a maioria divergente, faz-se necessário notar que o misticismo em relação ao conhecimento ancestral do povo celta nunca deixou de ser atrativo, principalmente para quem sabe explorá-lo para obter lucros. Mas, de histórico, ele não tem nada.

 

Ruínas de um templo druida em Swinton Estate, uma das maiores propriedades na Inglaterra, situada em North Yorkshire, Inglaterra | Foto: Reprodução/janmarsh.blogspot.com

 

Portanto, se partirmos de uma linha traçada por estudiosos que buscam respostas mais adequadas para tal religião, concluímos apenas que o druidismo pode ser dividido em duas correntes: a céltica e a druídica. Embora semelhantes, elas tinham suas diferenças. A céltica era mais rudimentar e ligada ao culto da Grande Deusa (simbolizada pela mãe natureza). Já a druídica se apegava a diversas outras divindades elementais ligadas ao ar, à água, ao fogo e à terra. Por isso, se alguns estudiosos defendem o politeísmo do povo celta, outros já consideram a religião deles como monoteísta, pois todas as divindades eram somente uma extensão da deusa-mãe. Apesar de polêmica, a solução dessa questão resulta única e exclusivamente do ponto de vista do interessado pelo assunto, pois ambas as afirmações têm suas bases bem fundamentadas.

 

Outro ponto interessante sobre o druidismo era a crença na alma e na vida pós-morte. Consequentemente, os druidas acreditavam na existência do “outro mundo”, onde residem os antepassados e demais espíritos, que poderiam ser contatados por pessoas específicas, que detinham o poder de comunicação entre o mundo físico e o espiritual. Portanto, a morte também não era temida pelos celtas, pois ela seria apenas uma prolongação da vida em outro plano.

 

Localizado na planície de Salisbury, próximo a Amesbury, no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra, o alinhamento megalítico de Stonehenge já foi apontado como um círculo ritual do povo celta, mas, hoje, pesquisadores defendem que ele era um antigo centro de estudo astronômico, provavelmente, dos druidas | Foto: Reprodução/hqwallbase.com/88408-stonehenge

 

Já em relação aos rituais destinados às divindades, eles também permanecem como incógnitas. Círculos de pedras, entre os quais o mais famoso é Stonehenge, por um bom tempo fizeram os especialistas acreditar que as cerimônias eram realizadas em lugares abertos, em campos e florestas, principalmente de carvalhos que, por sua vez, eram árvores sagradas para os celtas. No entanto, estudos mais recentes defendem que esses mesmos círculos de pedra, na verdade, eram usados como observatórios astronômicos e não como construções religiosas. Por conseguinte, o druidismo também poderia ser influenciado pelas estrelas e pela observação dos astros.

 

O mesmo acontece com os sacrifícios humanos. Embora haja vestígios arqueológicos que indiquem a possibilidade dessa prática, os motivos e os procedimentos adotados nesse tipo de cerimônia permanecem totalmente desconhecidos.

 

Em meio a tantas dúvidas, o que realmente sabemos é que os druidas formavam uma classe privilegiada na sociedade celta, a ponto de transcender as divisões tribais. Além das funções religiosas, também desempenhavam papéis diversos que abrangiam a Educação, a transmissão da história e da tradição celta, a medicina, a agricultura, a astronomia, o magistrado etc. Contudo, todo o conhecimento que acumulavam era transmitido apenas oralmente de geração para geração. Além disso, entre os druidas, as mulheres também eram privilegiadas e respeitadas, principalmente, em virtude da função de profetiza para a qual eram treinadas.

 

Revista Leituras da História Ed. 71

Adaptado do texto “Os povos celtas”