Saiba tudo sobre a Vera Cruz, a maior companhia cinematográfica do Brasil

A maior companhia cinematográfica nacional dos anos 50 durou pouco, mas se transformou no grande divisor de águas da história do cinema nacional

Por Rose Mercatelli | Fotos: Acervo Seção de Pesquisa e Documentação – PMSBC | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

“Do Planalto Abençoado para as Telas do Mundo”. Esse foi o slogan da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, concebida por empresários paulistas que, no fim dos anos 40, acreditaram ser esse o momento oportuno para criar em São Paulo um grande polo cinematográfico tendo como modelo o industrial cinema hollywoodiano. Para justificar o sonho, os empresários comentavam que o Brasil passava por transformações econômicas e sociais. Deixava de ser um país eminentemente agrícola para se inserir com vontade na era industrial.

 

No centro dessas mudanças estava a cidade de São Paulo que, na euforia de seu desenvolvimento, era chamada de “a cidade que mais cresce no mundo”. Entre o fim dos anos 40 e início dos 50, São Paulo ganhou o Museu de Arte de São Paulo (MASP), o Museu de Arte Moderna (MAM), a Escola de Arte Dramática (EAD), a 1ª Bienal de Artes Plásticas, a Cinemateca Brasileira, o Teatro de Cultura Artística, entre outros. Então, investir em cinema, um dos maiores símbolos de modernidade no pós-guerra, era mais que razoável e a ideia de abrir uma companhia cinematográfica começou a atrair intelectuais e empresários paulistas. Assim surgiu a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, no dia 4 de Novembro de 1949. “O dinheiro veio da família Matarazzo, mais precisamente de Francisco Antônio Paulo Matarazzo, conhecido como Ciccillo, e sobrinho do Conde Francesco, na época, o homem mais rico do Brasil, e de um de seus colaboradores mais chegados, o italiano Franco Zampari”, conta Antonio Andrade, professor de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e pesquisador da Cátedra Metodista/Unesco de Comunicação.

 

Além de grandes empresários, Franco e Ciccillo eram considerados os mecenas das artes em São Paulo e, no ano anterior, tinham inaugurado o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). O passo seguinte, portanto, seria a entrada para a indústria cinematográfica. Para os seus fundadores, a Vera Cruz teria uma única aspiração: produzir filmes brasileiros com padrão universal.

 

 

Samba, Carnaval e Futebol

De acordo com Maria Rita Galvão, conceituada pesquisadora do cinema brasileiro, não é possível falar em Vera Cruz sem citar o TBC. No livro de sua autoria Burguesia e Cinema, Maria Rita lembra que assim como o cinema nacional antes da Vera Cruz era considerado uma nulidade, o mesmo acontecia com o teatro antes do TBC. E não poderia ser diferente, afirma a autora, na medida em que o teatro e a empresa cinematográfica pertenciam ao mesmo grupo, tinham a mesma estrutura empresarial e contavam com diretores, técnicos, autores e atores como Paulo Autran, John Herbert, Renato Consorte, Tônia Carrero, Anselmo Duarte, Ruth de Souza, Cleide Yáconis, em comum.

 

Cena do filme Terra é sempre terra (1951) com Marisa Prado e Ruth de Souza

 

Por aquela época, a produção de cinema no Brasil se concentrava no Rio de Janeiro. As chanchadas, como ficaram conhecidos os filmes produzidos pelas empresas Cinédia e Atlântida, apesar de ser um enorme sucesso de público, eram massacradas pelos críticos paulistas e cariocas. Os filmes eram tecnicamente malfeitos, de baixo custo, mas com enredos de um enorme apelo popular como samba, futebol e política, entremeados com humor e muita música.

 

Pelo preço baratíssimo de um ingresso de cinema, o público poderia ver bem de perto Ângela Maria, Marlene e Emilinha Borba, por exemplo, grandes ídolos da música popular brasileira que faziam o maior sucesso pelas ondas do rádio, o meio de comunicação mais popular e de maior penetração por todo o território nacional. Entretanto, a Vera Cruz chegou com uma proposta diferente: produzir filmes sérios, de alto custo e com padrão de excelência compatível com o surto de progresso nacional que ocorria naquele momento.

 

O cachorro Duque ficou famoso com os filmes de Mazzaropi, como A Carrocinha (1951)

 

Antiga granja

Cinema de arte, no entender de Franco Zampari e Ciccillo Matarazzo, requeria instalações à altura. Ficou acertado, então, que seria construído um mega estúdio em uma área de 100 mil metros quadrados em São Bernardo do Campo.

 

A escolha do local não aconteceu por acaso. O terreno, onde existia uma enorme granja desativada, pertencia a Ciccillo, da época em que o empresário teve a intenção de criar uma produção de ovos em escala industrial: “O empreendimento granjeiro não foi para frente por causa do clima frio e úmido da região, que matava milhares de poedeiras todos os dias”, conta o pesquisador Antonio Andrade.

 

Área externa do pavilhão

 

E aí, o que fazer com aqueles enormes galpões sem galinhas? Os diretores das indústrias Matarazzo acreditavam ser possível transformar aquela imensa granja inativada em uma linha de produção de filmes de primeira grandeza. E assim surgiram as instalações da Vera Cruz, aos moldes dos estúdios americanos, os quais abrigavam equipamentos importados, câmeras moderníssimas (apesar de serem de segunda mão) e um sistema de som com 8 toneladas vindo direto de Nova Iorque, até então a maior carga aérea enviada dos Estados Unidos para a América do Sul.

 

 

Na contramão

Os investimentos de Zampari e de Ciccillo foram além de modernas instalações e equipamentos importados. O primeiro grande nome a ser lembrado para contratação no cargo de produtor geral foi o de Adalberto Cavalcanti, cineasta brasileiro que começou a trabalhar na França, no chamado cinema de vanguarda, mas ficou famoso por ter revolucionado a maneira de fazer documentário na Inglaterra.

 

Logo depois de contratado, Cavalcanti começou a travar suas primeiras batalhas com os fundadores da Vera Cruz. Cavalcanti era conhecido, entre outras coisas, por abominar filmagens feitas em estúdios. Seu negócio era fazer cinema com cenas externas. Por isso, seu primeiro filme na Vera Cruz, O Caiçara (1951), dirigido pelo italiano Adolfo Celi, foi totalmente rodado em Ilha Bela, no litoral de São Paulo. “Imagine os custos de produção de um filme feito em um local que não tinha nem energia. A empresa precisou construir um porto para desembarcar toneladas de equipamentos e uma central elétrica para as filmagens. E aquele estúdio enorme de São Bernardo ficou totalmente sem utilidade”, comenta Antonio Andrade. Apesar do sucesso, o dinheiro de bilheteria não cobriu nem de longe os altos custos da produção do filme.

 

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Torre de Babel

Outro entrave encontrado pelos empresários foi a falta de técnicos brasileiros preparados para trabalhar na indústria cinematográfica. E como não havia jeito, Cavalcanti teve de “importar” técnicos italianos, suecos, alemães, que não entendiam nada da cultura nacional. O resultado eram filmes que podiam até ser tecnicamente de qualidade, mas que não conseguiam cair no gosto popular: “Muito material valioso foi desperdiçado porque os montadores não conseguiam entender o humor de um artista excepcional, mas que improvisava pra valer como Mazzaropi. E eles não aceitavam improvisação e cortavam tudo”, comenta o professor Antonio de Andrade.

 

Mazzaropi

 

Mas, ao final, é inegável a contribuição desses técnicos europeus para o cinema nacional, pois muitos deles ajudaram a formar profissionais brasileiros nas mais diversas áreas, como fotografia, montagem, som, cenografia, produção, trabalhos de laboratório e maquiagem.

 

 

Salários altos e distribuição ineficiente

Os diretores da Vera Cruz também adotaram o sistema americano de contratação exclusiva de atores com altíssimos salários para que, na maioria das vezes, ficassem anos sem fazer um filme. Foi o que aconteceu com a grande dama do teatro brasileiro Cacilda Becker que durante anos ganhou um salário milionário sem filmar uma cena sequer. Ela só atuou em Floradas Na Serra (1953), quando a empresa já apresentava nítidos sinais de saúde financeira precária.

 

O sistema de distribuição também não ajudava o cinema nacional a vencer a concorrência estrangeira. “Pelo mesmo preço de um filme nacional, as distribuidoras ofereciam uma produção americana, por exemplo, de ótima qualidade e com um perfeito sistema de som e que davam muito mais bilheteria. Então, a escolha era óbvia”, diz o pesquisador.

 

Fachada do pavilhão

 

A decadência da Vera Cruz ainda continuava, quando, para surpresa geral, em 1953, uma produção da companhia, O Cangaceiro, sob direção de Lima Barreto, ganhou o Festival de Cannes, na França. Com temática brasileira, o filme foi um tremendo sucesso, aqui e lá fora, e poderia ter salvo a empresa da bancarrota. Porém, a bilheteria estrangeira, paga em dólares, em vez de ajudar a saldar as dívidas da Vera Cruz, ficou totalmente nas mãos de grandes empresas americanas, como a Columbia Pictures, que tinha os direitos de distribuição dos filmes fora do Brasil. O que foi arrecadado por aqui só deu para pagar um pouco mais da metade dos custos de produção. O filme, que poderia ter sido sua salvação, ajudou a enterrar mais depressa ainda a companhia que um dia sonhou em ser a grande Hollywood brasileira, como queriam seus fundadores e seus sonhos fantásticos.

 

A Companhia Cinematográfica Vera Cruz encerrou suas atividades em 1954. Apesar da vida relativamente curta e tumultuada da empresa, a produção dos seus 18 filmes e alguns documentários formou uma geração de cineastas e profissionais de cinema, o que não existia antes dela. A qualidade técnica e artística de seus filmes marcou uma época e mostrou que o cinema brasileiro de boa qualidade poderia ter sido, sim, um sonho possível.

 

 

Adaptado do texto “Hollywood Brasileira”

Revista Leituras da História Ed.50