Saiba tudo sobre as sociedades secretas

Associações com fundo político, econômico, religioso, ocultista ou esotérico. Elas têm operado no mundo inteiro e em países tão diversos quanto o Japão, Estados Unidos, Quênia, Alemanha, Inglaterra, Suíça, Itália, entre outros

Por Priscila Gorzoni | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O principal objetivo dessas organizações consiste em proteger um conhecimento secreto, mas também os hábitos e intenções que são mantidos em segredo para as pessoas que delas não fazem parte. As Sociedades Secretas estiveram presentes em toda a história da humanidade, ou para encorajar o aperfeiçoamento de aprendizado dos seus filiados, ou até para fins obscuros, com métodos suspeitos cujo objetivo único era o interesse pessoal.

 

Atualmente, quando se fala nessas sociedades, em geral, refere-se historicamente aos maçons, templários, rosacruzes, iluminatis, entre outros. Para Ailton José do Amaral, maçom, rosacruz e mestrando em História Social pela PUC-SP, existem ordens de cunho mais esotérico, como os rosacruzes e os martinistas; as ordens filosóficas, como a maçonaria; e as místicas, como a Ordo Templi Orients (O.T.O.), fundada por Aleister Crowley, que foi por muito tempo o guru do Raul Seixas e do Paulo Coelho. Existem também ordens dentro de ordens, a maçonaria é um exemplo disso, pois cada grau é uma ordem por si só. Temos as ordens mais antigas como Ordem dos Templários, a Ordem Carbonária. Temos as ordens denominadas como “o caminho da mão esquerda”, Ordo Nox Magistralis, The Church of Lucifer. Temos também ordens ligadas à escola teosófica fundada por Helena Petrovna Blavatsky, e tantas outras.

 

 

Esses devem estar próximos…

Além de todas essas, há sociedades que abrigam uma agenda política, como o Coletivo dos Partidos Socialistas, os Mau Mau, Odessa e Hashishim; organizações do juízo final, como a Aum Shinrikyo ou a Ordem do Templo Solar. Há também a Ku Klux Klan, cujo o principal objetivo ainda é avançar com as ideias extremistas racistas, ela pode ser colocada ao lado da Sociedade Thule, que também acredita em uma raça perfeita.

 

Ku Klux Klan, durante um cerimônia

 

Não se pode esquecer da Argenteum Astrum, organizada por Aleister Crowley, com seus obscuros rituais bizarros que, nesse requisito, está ao lado da Aum Shinrikyo e da Ordem Solar, cujos ensinamentos se tornaram uma religião para os seus discípulos, um meio pelo qual eles acreditavam alcançar a eternidade. Os hashishim compactuavam com essa ideia, e acreditavam que, no papel de assassinos, alcançariam o eterno paraíso.

 

Com muitas diferenças e particularidades, as sociedades secretas têm alguns pontos em comum, como uma formação hierárquica, rituais específicos de acolhimento e uma linguagem secreta simbólica, pertencente à chamada disciplina arcana. Os membros são comprometidos com o sigilo quanto aos rituais, símbolos e pensamentos da sociedade, sendo que o conhecimento secreto só pode ser transmitido dentro da organização. Além disso, os participantes e os quadros de gestão de uma sociedade secreta não devem chegar ao conhecimento público. No caso, o segredo não é tanto com relação à organização, mas, sim, com que a reserva de conhecimento sobre si própria. Uma SS é considerada, geralmente, como um círculo de esclarecidos, quem é membro conseguiu escapar de um ambiente social inferior e está agora em uma esfera dos escolhidos.

 

Lugar de cerimônias de La Orden Del Templo Solar

 

 

Segredo e poder

Os antropólogos acreditam que os grupos fechados começaram há mais de 40 mil anos. As primeiras associações foram os clãs por parentescos, formados pela consanguinidade. Depois os casamentos intertribais ampliaram os clãs, formando agrupamentos mais complexos. Com a evolução desses grupos sociais, surgiram as primeiras confrarias religiosas com o objetivo de se comunicar com os espíritos de animais ou de seus ancestrais.

O Homem de Cro Magnon, por exemplo, há 30 mil anos a.C. já tinha algumas normas para os seus rituais. Seus feiticeiros, por exemplo, cultuaram suas mágicas apenas na presença de uns poucos escolhidos. Com o desenvolvimento, as cerimônias sagradas se tornaram cada vez mais complexas e restritas a um número de pessoas da comunidade cada vez menor.

  • Os tipos
    Sabemos que existem vários tipos de SS, entretanto, não é possível identificá-las com tanta segurança, já que são fechadas. Além da diversidade, existe uma transição fluída entre comunidades religiosas, sociedades secretas, seitas e novas religiões. Por isso, dificilmente algumas organizações podem ser delimitadas. No entanto, em geral, são divididas em dois grupos principais: políticos e religiosos. É preciso ter claro, que algumas sociedades estão inscritas nas duas esferas. Muitas vezes, são também contemplados interesses econômicos, orientados para redes e interesses sociais. Levando em conta esse ponto de vista, distingue-se cinco tipos de associações secretas:
    1. Associações que querem obter influência política para concretizar seus objetivos ideológicos;
    2. SS estabelecidas por agências governamentais, sem parecerem ligadas ao governo;
    3. As que não se esforçam para mudar o planeta, mas criam um mundo paralelo – são as seitas puramente religiosas;
    4. Esotéricas, que se referem aos ensinamentos secretos da Grécia Antiga, acessíveis a um círculo interior;
    5. Sociedades secretas de cunho criminoso.

 

Pintura do século 14, do assassinato de Nizam al-Mulk por um Hashishim

 

  • A linguagem
    Serve para a definição de um grupo e a preservação de suas informações internas. Na Idade Média, os mercadores viajantes faziam uso de uma linguagem codificada, chamada de galês vermelho. Mais tarde, essa língua se tornou um dialeto. Mas não é só ali que se desenvolveu uma linguagem secreta, na província de Hunan, na China, desenvolveu- se a linguagem secreta de nu shu, que só as mulheres eram capazes de compreender.

 

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  • Filiação
    Reservada as diferenças, é comum em todas as sociedades secretas: as ordens hierárquicas, rituais e a obediência às regras. Os membros da ordem têm graus de iniciação e, por isso, as sociedades são hierarquizadas. Nessa estrutura, os conhecimentos secretos são passados em forma de graus superiores. Fora isso, não é qualquer um que pode fazer parte dessas sociedades secretas, ele precisa ser convidado ou indicado. Quem tenta uma adesão por outros meios só fará parte da sociedade, se essa o permitir. O recém-admitido deve passar por várias provas para se mostrar merecedor de participar desse grupo. A cada nível que conquista, seja por meio de estudos específicos ou rituais elaborados, ele aprende mais sobre a estrutura, a natureza e os mistérios da associação. Por isso, ele deve se submeter a rigorosos rituais e cerimônias. Outro fator comum a todas é que quem faz parte da sociedade secreta não poderá deixá-la, só a morte o fará livre dela. Caso contrário, há riscos de graves sanções, que poderão ameaçar a sua subsistência e economia.

 

Membros do Mau Mau capturados no Quênia | Foto: George Rodger/Time Life Pictures/Getty Images

 

  • Ritos de iniciação
    Iniciação é o nome dado aos ritos de consagração introdutórios. É por meio dele que um novo membro entra em uma sociedade e seita secreta. Todas as sociedades possuem um rito de iniciação. A iniciação ocorre segundo um contexto ritual, que possui atos cerimoniais, regras e gestos rigidamente estabelecidos. Os cultos mágicos ou as associações secretas são marcados por esses ritos de iniciação. Eles, em geral, são simbólicos e bem específicos. Os ritos de iniciação lembram os rituais praticados em sociedades indígenas ou africanas, quando os meninos se tornam jovens ou adultos. É por meio deles que o participante de determinada sociedade entra em uma nova fase. Após alcançada a inclusão do novo membro na sociedade secreta, ele se lança em uma nova aprendizagem, que deve ser submetida a provas constantes.

 

 

Teorias da conspiração

As SS estão frequentemente associadas a conspirações. Os antecedentes dessas conspirações são históricos e, muitas vezes, reais, de supostas sociedades que tinham interesse de derrubar ou dominar o cenário político.

Em várias ocasiões, as teorias da conspiração são também utilizadas para desviar a atenção das causas básicas dos problemas sociais, tais como guerras, atentados ou desemprego em massa. Essas teorias serviriam como bodes expiatórios e uma distração da verdadeira razão.

 

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Algumas teorias da conspiração se tornaram tão famosas que roubaram a atenção sobre qualquer outra informação a respeito de determinada sociedade secreta. Uma delas é a de que os iluminatis foram os responsáveis pela Revolução Francesa, o processo contra os templários por serem considerados os facilitadores da perseguição das bruxas, os Protocolos de Sião como motivadores do antissemitismo, entre outras.

 

Na Antiguidade

A história das sociedades secretas remonta aos tempos antigos e quase todas as atuais se relacionam direta ou indiretamente com suas precursoras na Antiguidade. O Egito, com suas SS dos sacerdotes pode ser considerado o pai de todas as iniciações secretas. Essa civilização oferece um rico panorama com monumentos, imagens e textos que fazem eco a misteriosas cerimônias referentes aos vivos – mas também aos mortos. Os iniciados, nessas sociedades, passavam por várias provações e pertenciam aos estratos mais poderosos da sociedade egípcia.

 

No Antigo Egito, havia um sistema fechado de castas e os sacerdotes pertenciam à casta mais alta e influente. Eles faziam parte da classe mais educada da população, suas atribuições iam desde a religião e seus rituais até às ciências e às artes. Eles dominavam a arte da cura e eram responsáveis também pelo sistema jurídico. Para executar tantas tarefas, os iniciados eram submetidos a várias privações, rituais e leis rigorosas.

 

 

A organização dessas sociedades de sacerdotes era hierárquica, o sumo sacerdote subordinava todos os demais sacerdotes e cada templo tinha um lugar para os deuses e uma cooperativa de sacerdotes. A principal tarefa dessas sociedades era a preservação das formas tradicionais de culto, oferendas e rituais de sacrifícios. Embora a religião egípcia tenha se desenvolvido pouco tempo após o início do reinado sacerdotal, a crença popular continuou a existir paralelamente e se manifestar em superstições.

 

Os egípcios acreditavam em demônios e magias negras e costumavam fazer rituais dentro desses cultos. O papel da sociedade sacerdotal era justamente conter essas tradições populares. Para tanto o sacerdócio resumiu os elementos religiosos e instituiu uma ordem religiosa secreta, com acesso apenas aos iniciados. As informações sobre essas sociedades são limitadas e só é possível serem acessadas por meio dos relatos dos escritores gregos. Segundo esses documentos, a iniciação tinha gradua-ções –ou seja, a posição dos sacerdotes foi dividida em diferentes categorias e graus. O buscador tinha de se submeter a uma cerimônia ritual e sua função era fazer uma reflexão por meio de determinados símbolos. No fim, ele era iniciado no último grau, atingindo assim o mais elevado nível de sabedoria.

 

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Pouco se sabe sobre o conteúdo dos estudos dessas sociedades. Provavelmente, tratavam-se de ensinamentos religiosos, filosóficos e científicos.

 

Segredos na Grécia

Os mais antigos e importantes mistérios gregos estão envolvidos com os segredos órficos, dionisíacos e eleusinos. No caso dos últimos, eram também os mais famosos e tinham lugar em Elêusis, na proximidade de Atenas. Eles eram considerados “como superiores, em mérito a todos os atos referentes à religião”, nas palavras do historiador Pausânias. Elêusis é considerado, desde a mais remota Antiguidade, um local dedicado à Deméter, deusa da agricultura e da fertilidade.

 

Ruínas da cidade de Elêusis

 

A lenda conta que Perséfone, a filha de Deméter, foi raptada por Hades, deus dos infernos. Deméter decidiu então não voltar para o Olimpo antes de encontrar sua filha e, durante o período que vagava, a terra se tornou estéril. A proteção à Deméter é necessária e também uma alegoria do perpétuo recomeço da natureza. O mito de Deméter, voltado para a crença da regeneração, deu origem a um culto celebrado principalmente em Elêusis, onde Deméter morou e mandou edificar seu templo.

 

 

Os rituais

A iniciação nos mistérios dos Elêusis foram celebrados durante aproximadamente 2 mil anos, antes de desaparecer no ano de 391 d.C., quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. Era aberta aos homens, mulheres de qualquer condição social, contanto que não tenham praticado crimes. De início, era reservada aos habitantes de Elêusis, mas logo foi estendida aos atenienses e, depois, a partir do século 5º a.C., a todos os gregos. Um século mais tarde, foi aberta também aos escravos, em uma época, inclusive, em que os cultos públicos eram proibidos a eles. Antes, porém, era necessário jurar conservar o maior segredo sobre o desenrolar da iniciação. Diferente de muitas sociedades secretas, essa não era destinada apenas aos ricos e à elite, e a sua promessa era de um além feliz.

 

Templários, ordem em defesa dos fiéis cristãos

 

O rito se desenvolveu em dois tempos: primeiro era necessário tomar parte nos “Pequenos Mistérios”, que eram celebrados na primavera, uma referência à purificação, que confere aos iniciados o status de mystés ou iniciado. Só assim era possível participar dos “Grandes Mistérios”, celebrados na época da semeadura, nos meses de setembro e outubro. Depois de serem purificados no mar, os iniciados imolavam um animal à deusa e a iniciação começava.

 

Os impetrantes eram levados ao Eleusinion, um templo de Atenas dedicado aos mistérios, onde lhes eram apresentados objetos rituais provenientes de Elêusis. Em seguida, os iniciados deveriam fazer um jejum de um dia destinado também à purificação. No dia seguinte, eles se dirigiam em procissão até Telestérion, a sala da iniciação, situado no santuário de Elêusis. Não se sabe muito mais do que isso sobre essa sociedade considerada secreta.

 

Sociedades…

Do latim societate, declinação de societas. Pouco a pouco, com a modernização do comércio, que demandava associação de duas ou mais pessoas, “sociedade” passou a designar formas de relação comercial.

 

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Secretas

Segredo vem do latim secretum, secreto, lugar isolado e escondido, derivado de secretus, supino de secernere, separa, escolher. O supino do verbo latino não existe em português; significa inclinado para trás. A palavra “segredo” designa a confidência entre duas pessoas ou mais, mas poucas, do contrário, perde a essência e também aquilo que é ocultado por vários motivos.

 

Divisões das SS

Religiosas: se estruturaram em torno de crenças, dogmas, de práticas que associam os homens a uma fé transcendente. São exemplos dessas sociedades: orfismo, culto orgíaco a Dionísio, os mistérios de Elêusis, druidas, essênios, seitas gnósticas, maniques, Shingon, alauítas, drusos, catáros, Opus Dei, entre outras.

 

Paola Binetti, senadora italiana membro da Opus Dei

 

Iniciáticas: são quase tão antigas quanto a humanidade. Diferente das sociedades religiosas, elas não pretendem revelar um saber oculto de ordem divina, mas propõe melhorar seus adeptos e a sociedade onde vivem. São exemplos dessas sociedades: xamanismo, pitagóricos, templários, rosacruz, franco-maçonaria, sociedade teosófica, entre outras.

 

Criminosas: elas utilizam o segredo como meio de conquistar o poder no final de uma atividade clandestina. Agem à margem da economia formal, desviando uma parte dela em proveito de si própria. O secreto é, portanto, ao mesmo tempo, a condição de sua sobrevivência. São exemplos dessas sociedades: coquillards, ninjas, thugs, máfias, yakuza, entre outras.

 

Yakuza, usa o segredo para alcançar o poder por meio de atividades ilícitas

 

Políticas: elas perseguem um objetivo bem preciso, na maioria das vezes, uma luta contra um Estado ou uma situação de dominação. Por isso, usam o segredo, a dissimulação ou mesmo a infiltração. O segredo não é uma finalidade em si, mas, antes, um meio indispensável. São exemplos dessa sociedade: Sainte-Vehme, assassinos, Carbonária, Mão Negra, Thule, OAS, Al-Qaeda, entre outras.

 

Al-Qaeda perseguem um objetivo bem preciso quase sempre, uma luta contra um Estado ou uma situação de dominação

 

 

Cada vez mais

A palavra seita vem do latim secta, sistema filosófico ou doutrina religiosa divergente dos conteúdos dominantes. Algumas religiões, hoje aceitas como representativas da pluralidade de cultos, foram vistas como seitas perigosas em seus começos, como foi o caso do luteranismo. Antigas e novas seitas proliferam no mundo todo, principalmente nas duas últimas décadas. Surgiram mais de 50 delas na União Soviética após a dissolução da URSS. No começo de 1996, uma comissão parlamentar fez um inventário das seitas que atuam em território francês e chegou ao espantoso número de 172.

Punição

De 1851 a 1968, a filiação em sociedades secretas era considerada uma atividade ilícita. Quem se filiava a uma sociedade corria o risco de ser preso e cumprir pena de um ano de prisão. Só após a revogação dessa lei, o acesso às sociedades secretas passou a ser liberado.

 

Iniciados egípcios

Eles foram os sacerdotes por serem considerados os únicos capazes de se aproximar da divindade. O faraó figura com um iniciado completo, pois é um hábil guerreiro no manejo das armas e das nobres artes, como o do arco, caça e a guerra.

 

 

Adaptado do texto “Elas ainda assustam”

Fotos: Revista Leituras da História Ed. 8