Será que São Patrício, padroeiro da Irlanda, era escravo? Entenda

Ele é quase sempre lembrado como aquele que teria expulsado todas as cobras da Irlanda e também por ter sido o principal responsável pela conversão dos irlandeses pagãos da Idade Média. Mas, o que, de fato, sabe-se sobre o patrono irlandês que de escravo passou a santo?

Por Por Ávany França | Foto: Huntington Library, Art Collections, e Jardim Botânico | Adaptação web Caroline Svitras

São Patrício, definitivamente, não foi um homem comum. De uma família abastada, desde muito jovem, mostrou-se possuir uma alma desprendida de temor às autoridades. E, foi justamente o seu espírito de liberdade que o tornou alvo fácil dos piratas irlandeses que o capturaram e o venderam como escravo na Irlanda. Mas, a verdade é que pouco se sabe sobre a curiosa biografia do santo mais aclamado em terra celta. Como um jovem rebelde britânico se tornou uma das personagens mais caricatas do país vizinho?

 

Período de grande conturbação

No século 4º d.C., a Europa vivia um período de grande conturbação religiosa, em meio a grandes embates entre cristãos e pagãos. No Ocidente, o cenário era de grandes transformações que vinham ocorrendo desde o século anterior, sobretudo nas escalas econômicas e sociais. A desordem política, associada às invasões bárbaras orquestradas pelas tribos germânicas, assim como a disseminação das ideias cristãs, enfraqueciam cada vez mais o Império Romano, que já titubeava desde o século 2º d.C.

 

Foi também nesse período que o cristianismo começava a se fortalecer, mas o fazia de forma lenta e em um contexto de marginalidade, dado ao fato de que os cristãos continuavam sendo perseguidos massivamente pelos romanos. Entretanto, os ideais promovidos pela religião em ascenção, os quais pregavam igualdade entre os homens e negava a adoração do imperador, causava cada vez mais impacto no povo romano atraindo adeptos.

 

Em Bruxaria e História, o historiador de história medieval Carlos Roberto F. Nogueira faz uma contundente narrativa sobre esse momento, em que o paganismo e a doutrina cristã emergente conviviam em meio a conflitos e emoldurados a uma complexa diversidade de pensamentos. Para a população pagã, os cristãos representavam o diferente, além de ameaçar as relações entre o Império Romano e os deuses.

 

A queda do Império Romano do Ocidente foi causada por uma série de fatores, entre os quais as invasões bárbaras que causaram a derrubada final do Estado | Foto : Thomas Cole

Para muitos historiadores, foi nos séculos 4º e 5º que o processo de cristianização ganhou contornos efetivos, e a Igreja Católica se tornou uma instituição organizada, sendo capaz de converter o Império Romano em um Império Cristão. Foi exatamente nesse cenário de grande metamorfose que, em 389 d.C., nascia Patrício, filho de uma família de aristocratas britânicos, neto de um padre e pai diácono. No entanto, Patrício cresceu alheio a todas as questões cristãs. Na flor da sua juventude, ele não demonstrava vocação alguma para os estudos e muito menos para a religião. Conta-se que fugir em busca de aventuras e principalmente da pressão dos seus pais era a sua maior diversão. Foi em uma das suas escapadelas que o jovem acabou sendo sequestrado e vendido por piratas irlandeses, tornando-se escravo na Irlanda.

 

 

A escravidão

Aos 16 anos de idade, a curiosidade era um dos traços mais salientes na personalidade de Patrício, que além de não professar nenhum interesse pela fé cristã que emergia no seu tempo, ainda possuía grande fascínio sobre os rituais pagãos comuns na sociedade britânica. Era na calada da noite que o jovem aproveitava o descuido dos seus pais para bisbilhotar as cerimônias de invocação às divindades da natureza promovida pelos pagãos.

 

Impetuoso, seus primeiros dias nos campos irlandeses foram circundados da rebeldia que lhe era peculiar, pois não se conformava em estar na condição de escravo em terras estrangeiras. Com o tempo, Patrício percebeu que o comportamento arredio não lhe seria útil no convívio com os piratas irlandeses e foi então que decidiu apelar para a oração que, apesar de lhe parecer estranha, o ajudava a apaziguar a angústia de estar longe de casa e em tais condições.

 

Assim como em toda a sua biografia, poucos fatos concretos puderam ser confirmados por historiadores sobre o período em que Patrício viveu em solo irlandês na condição de escravo. Há divergências, por exemplo, se ele teria permanecido na região do condado de Antrim ou em Mayo. Sabe-se apenas que, dos 16 aos 22 anos, se tornou um exímio pastor de ovelhas e vivia isolado nos campos irlandeses, dividindo-se entre o pastoreio e longos momentos de oração. Foi também durante esse período que ele teria tido uma das primeiras visões, a qual lhe indicava que era a hora de voltar para o Reino Unido, berço da sua família. Conta-se que Patrício caminhou cerca de 320 km em busca do local que, segundo ele, teria sido descrito por Deus por meio da visão. E, de fato, ele chegou à costa irlandesa onde barcos embarcavam na direção do seu país.

 


No vitral da Igreja de São Patrício, em Dublin, cenas da vida do santo irlandês: à esquerda, trabalho escravo e à direita como pastor de ovelhas | Fotos: Michael O’Connor/Igreja de São Patrício Dublin

A chegada do jovem foi cercada de alegria e comemorações por parte de seus pais, porém o Patrício que retornara a sua terra já não era mais o mesmo envolto em rebeldia. No coração do jovem, havia uma grande necessidade de conhecer melhor a fé que professara durante o período de isolamento nas montanhas irlandesas. Uma segunda visão o teria recomendado a retornar à Irlanda, onde ele deveria ensinar o povo pagão a doutrina do cristianismo. E assim, pouco depois de ter retornado ao ceio familiar, o jovem decide se tornar padre e cumprir o que lhe havia sido revelado na visão. Dessa forma, por pelo menos 15 anos, Patrício se dedicaria ao estudo das escrituras, ao latim e todos os demais ensinamentos os quais ignorava quando mais jovem. A sua ambição era se tornar bispo do país que o tinha tratado como escravo por seis anos.

 

 

A cristianização do povo pagão

A Irlanda, a qual o agora missionário Patrício queria evangelizar, era um dos países mais conectados ao paganismo. Envoltos à cultura celta, a religiosidade era pautada pela invocação dos espíritos e elementos da natureza. Para alguns estudiosos, o druidismo, orquestrado pelas figuras dos druidas, constituía-se de uma classe privilegiada, responsável pelas cerimônias religiosas, além de acumular outras funções como a de juízes, educadores e pela manutenção da tradição celta.

 

Enquanto o cristianismo se expandia por outros países europeus, em solo irlandês, o politeísmo e os rituais de sacrifício de animais e de seres humanos regiam a fé do povo. Por conta do contato direto com os britânicos, começava-se na Irlanda algumas tentativas de conversão. Não era incomum a chegada de missionários cristãos ao país na busca pela conversão dos locais. Segundo afirma Peter Neville, no livro A Traveller’s History of Ireland, o desenvolvimento do cristianismo naquele país está intrinsecamente ligado às investidas dos missionários britânicos, responsáveis, sobretudo, pela idade de ouro da Igreja Católica, ocorrida por volta do século 6º d.C. Foi nesse período que muitos mosteiros foram espalhados por toda a ilha.

 

Ainda como escravo, recebe a visita de uma anjo | Foto: Michael O’Connor/Igreja de São Patrício Dublin

 

No entanto, os primeiros missionários cristãos dispostos a investir na evangelização dos pagãos irlandeses foram recebidos com muita resistência e, em alguns casos, assassinados. A situação nos limites irlandeses era tão complexa que muitos dos missionários e bispos se recusaram a aceitar a árdua tarefa de cristianização do povo celta. Foi então que o ímpeto e a rebeldia do missionário Patrício se tornaram elementos indispensáveis na sua designação para a conversão dos pagãos em um povo temente a Deus e à fé cristã.

 

Embora ele não fosse uma das figuras mais recomendadas para a tarefa, sobretudo pela pouca erudição, em 432 d.C., Patrício é nomeado bispo, realizando, assim, o seu desejo de retornar à Irlanda, 15 anos após ter sido feito escravo no mesmo solo. A indicação de Patrício foi recebida com ironia e descrédito até mesmo por seus companheiros padres, que duvidaram da destreza do clérigo para a tarefa a qual fora designado.

 

Na narrativa de Marion Zimmer Bradley, em As Brumas de Avalon (1979), o patrono irlandês é citado como um fanático religioso, politicamente ambicioso e que não respeitava a autoridade do rei e nem mesmo do seu papa. É possível que essa seja uma representação fidedigna, dada à rebeldia de Patrício na juventude. Por outro lado, os contratempos que o bispo teria enfrentado durante mais de 40 anos de trabalhos árduos em solo irlandês certamente exigiram dele uma pitada de pulso, rebeldia e, sobretudo, coragem. A verdade é que São Patrício foi o único do seu tempo disposto a enfrentar os conflitos com a comunidade pagã irlandesa.

 

Convertendo os irlandeses | Foto: Michael O’Connor/Igreja de São Patrício Dublin

 

Porém, o mais fascinante no trabalho de evangelização orquestrada por Patrício e seus discípulos foi que ele o fez com uma destreza impressionante e utilizando-se dos elementos os quais os irlandeses pagãos estavam acostumados. Diferentemente de outras estratégias para erradicação do paganismo na Europa, Patrício procurou utilizar as crenças que já existiam para estabelecer relações com o cristianismo. Foi dessa forma que, segundo se conta, ele teria utilizado um trevo de três folhas para explicar a Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo. Da mesma forma, adotou a fogueira, tão comum nas cerimônias pagãs, para celebrar a Páscoa. A cruz celta, que possui representações desde 5000 a.C. e remete ao sol, elemento da natureza de indiscutível importância para o povo pagão, também foi absorvida pela doutrina cristã, durante os longos anos de ensinamento do bispo irlandês.

 

Apesar de sua biografia ser representada apenas por fragmentos, os quais para historiadores muitas das passagens se tratam de lendas, mitos e folclore acerca da figura do santo católico, é impossível não considerar o papel que São Patrício tem desempenhado na cultura irlandesa. A trajetória do patrono irlandês é composta de uma complexa teia cultural, histórica e religiosa cercada de interpretações que foram se estabelecendo ao longo dos séculos.

 

Para cativar os pagãos Patrício usou de elementos da natureza, como o trevo de três folhas | Foto: Elizabeth Gonçalves

 

São Patrício, apesar de não ter sido o único personagem no processo de cristianização do povo irlandês, foi, sem sombra de dúvidas, o que melhor conseguiu promover o encontro entre os rituais pagãos e a doutrina católica. Tornou-se uma das figuras mais importantes da cultura daquele país, mesmo não sendo um deles. Ainda hoje, milhares de irlandeses em todo o mundo celebram o dia 17 de março, dia da morte do santo, como um dos dias de maior veneração e importância.

 

A cruz celta foi incorporada nas pregações de São Patrício para atrair a atenção dos pagãos | Foto: Ávany França

 

Curiosidades em torno de São Patrício

Segundo geologistas, São Patrício jamais teria expulsado as cobras da Irlanda, uma vez que seria impossível que elas chegassem à ilha, devido às águas gélidas da região. A passagem repetida por séculos seria uma metáfora, representando o paganismo que o santo teria conseguido exterminar na terra pagã.

 


Segundo geologistas, São Patrício jamais teria expulsado as cobras da Irlanda | Foto: Creative Commons

Apesar de ser a figura que maior representa o cristianismo na Irlanda, estudos apontam que, ainda no século 6º e 7º d.C., 200 anos após a morte do santo, os cultos pagãos ainda eram realidade no país.

O verde, tão reincidente na biografia de São Patrício, na verdade, não possui nenhuma relação com o santo, e sim com a Irlanda. A cor se tornou símbolo do país por conta da variedade de tons de verde presente na paisagem irlandesa, dado ao grande volume de chuvas. A cor representada em artes da época de São Patrício seria o azul.

 

Foto: Ávany França

 

Todo dia 17 de março, a cidade de Chicago pinta seu rio de verde em homenagem ao patrono irlandês. Já a origem da parada de São Patrício é creditada à cidade de Nova Iorque, conhecida como a maior do mundo em homenagem ao santo. O fato das celebrações em torno do santo irlandês ser tão efusivas nos EUA se dá pela diáspora irlandesa em solo americano. Estima-se que 35 milhões de americanos possuem ancestralidade irlandesa.

 

Igreja de São Patrício em Dublin, uma das mais importantes da Irlanda, marca a importância do padroeiro | Foto: Elizabeth Gonçalves

 

Apesar de todo o trabalho realizado pelo santo na Irlanda, apenas mil anos após a sua morte foi encontrado o único registro escrito pelo próprio São Patrício. O livro Confession traz algumas narrativas do santo durante os anos que viveu evangelizando os pagãos. O legado deixado por São Patrício no país celta foi tão representativo que ainda hoje a Irlanda é considerada um dos países mais católicos do mundo.

 

 

Adaptação do texto “O santo escravo”

 

Revista Leituras da História Ed. 76