Serra do Roncador e a Cidade Perdida

Portal para Atlântida, habitantes da Terra Oca e até um caminho subterrâneo para Macchu Picchu, no Peru. Em Barra do Garças, sobram histórias, mas faltam explicações

Por Eduardo Vessoni | Fotos: Eduardo Vessoni | Adaptação web Caroline Svitras

É quase impossível falar da Serra do Roncador, uma cadeia montanhosa de 800 km de extensão, que vai até do sudoeste do Mato Grosso até a Serra do Cachimbo, no Pará, sem passar por um personagem que colocou o destino na lista das expedições históricas. Apegado a lendas e com exagerado espírito aventureiro, o Coronel Fawcett, como ficaria conhecido o oficial britânico Percy Harrison.

 

Fawcett, desapareceu em território brasileiro, em 1925, acompanhado de seu filho e de um amigo que seguiam em busca de uma civilização perdida que ficavam, supostamente, no Mato Grosso – e se tornaria mais famoso, mundialmente, do que seus próprios objetivos. Nem mesmo a geografia pouca convidativa da região e as histórias de índios hostis tirariam da cabeça de Fawcett a ideia de encontrar a Cidade Abandonada, conhecida também como Cidade Z.

 

Sua obstinação começaria no antigo Ceilão, atual Sri Lanka, onde atuara como membro da Artilharia Real britânica. Aos 26 anos, resolveu explorar as florestas dos arredores de Tricomalee, na costa oriental daquele país. Movido pela constante necessidade de encontrar o desconhecido, alimentada pelos livros de aventura lidos na infância, Fawcett se afastara o suficiente para estar perdido, em terras de vegetação densa que o obrigariam a passar a noite sob um céu escuro e tempestuoso.

 

Foi ali, sobre ruínas de um provável templo antigo, que o britânico encontrou inscrições desconhecidas que, anotadas uma a uma pelo próprio aventureiro, seriam interpretadas como sendo caracteres dos budistas Asoka, segundo um sacerdote do Ceilão. Os primeiros questionamentos sem respostas ganhariam força quando o pesquisador teve acesso à reprodução de um texto publicado na obra Highlands of the Brazil (1869), de Sir Richard F. Burton. Conhecida como Documento 512 – um mapa de uma Cidade Perdida, aquela carta de 1754, de autoria desconhecida, trazia caracteres que fariam o coronel encontrar semelhanças com as inscrições encontradas no Ceilão.

 

Percy Fawcett, com Raleigh Rimell e um de seus guias pouco antes da expedição que desapareceu | Foto: Royal Geographic Society/Simon e Shuster

 

Segundo a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde se encontra guardado o documento, o “manuscrito é considerado o único mapa conhecido de uma cidade perdida no centro do Brasil”. O teor do documento se refere à descrição de uma cidade, encontrada por Muribeca, no sertão brasileiro, “entre o Xingu e o Araguaia, no Roncador, ou na Serra do Sincorá, na Bahia”, segundo descrição de Antonio Callado, em seu Esqueleto na Lagoa Verde, obra que relata sua participação na expedição de busca da ossada do coronel desaparecido.

 

Muribeca era parente do navegador Diego Alvarez, quem naufragara na costa do Brasil, nos primeiros anos de descoberta, e descobriu minas de ouro, prata e pedras preciosas que dariam origem às Minas de Muribeca, no interior da Bahia. Anos mais tarde, seu filho Robério Dias negociava a localização de tais minas, em troca de um título de marquês. Durante a expedição, o ambicioso Robério descobriu que seria nomeado com um cargo menor, o que o deixaria furioso, tratando de despistar a comitiva com informações equivocadas sobre a mina – Robério seria detido então por não revelar a localização daquele Eldorado brasileiro.

 

Incas: Os senhores dos Andes

 

Nos séculos seguintes, bandeirantes, pesquisadores e historiadores não mediriam esforços para localizar aquele endereço, mas o melhor marketing para tudo aquilo viria mesmo da mente fértil de Fawcett, que passava a ter como principal objetivo de vida encontrar a cobiçada Cidade Abandonada. Estivesse ela no Mato Grosso, na Bahia ou em qualquer outro endereço inóspito do interior brasileiro. Sua mal contada história dessa busca e seu estilo único de se embrenhar em áreas isoladas não só renderiam a impressão de biografias e relatos de viagens aventureiras como também obras bem conhecidas como O Mundo Perdido (1912), do britânico Arthur Conan Doyle, criador também de Sherlock Holmes; e a criação de Indiana Jones, personagem dos filmes dirigidos por Steven Spielberg.

 

É só passar os olhos sobre uma das fotos mais famosas de Fawcett para, até o leitor mais desatento, ter diante dos olhos uma figura que parece criada a partir de uma mistura improvável entre o detetive Holmes e o professor de arqueologia Indiana Jones. Aliás foi do autor de As minas do rei Salomão, Henry Rider Haggard, que Fawcett ganhou uma estatueta de basalto com letras desconhecidas que, segundo Haggard, viera do Brasil, pelas mãos de seu filho que havia morado no Mato Grosso. As peças começavam a se encaixar e Fawcett tinha certeza de que a estátua encontrada no Brasil era de Atlântida.

Marcha para o oeste

A Serra do Roncador parece não ter limites na variedade de lendas. Outra história famosa por ali é a de Udo Oscar Luckner, sueco que passou pelo Rio de Janeiro e São Tomé das Letras, antes de fundar o Monastério Teúrgico do Roncador, grupo que defendia a existência de LETHA, cidade intraterrena, localizada nos subterrâneos da serra. Suas crenças esbarram na já conhecida teoria da Terra Oca, lançada pelo astrônomo britânico Edmund Halley, no século 17, que acreditava que o interior do planeta é oco e habitado. Dizem, inclusive que, na Serra do Roncador, esses habitantes seriam seres de luz com acesso à sua terra, por meio de fendas rochosas da região. O hierofante do Roncador, como Udo ficou conhecido, morava na região do Vale dos Sonhos, distrito a 64 km de Barra dos Garças, onde acreditava haver uma passagem subterrânea que o conectava com os Andes, por onde teriam passado incas que fugiam da invasão do Peru pelos conquistadores espanhóis.

 

A região atraiu muita gente de espírito aventureiro, cujas figuras mais emblemáticas dos projetos seguintes de exploração foram Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas. De ocupação historicamente litorânea, o Brasil continuava a dar as costas para seu interior. Idealizada pelo então presidente Getúlio Vargas, com base na proposta nacionalista de seu Estado Novo, a Marcha para o Oeste foi um projeto audacioso de conquista e povoamento de um Brasil central ainda desconhecido, criando vias de comunicação com o restante do país.

 

Acredita-se que o coronel Fawcett teria passado pela Rota Franciscana (foto), durante suas buscas pela Cidade Z

 

Assim como anunciava Vargas, via rádio, no último dia de 1937: “Retomando a trilha dos pioneiros que plantaram no coração do Continente, em vigorosa e épica arrancada, os marcos das fronteiras territoriais, precisamos de novo suprimir obstáculos, encurtar distâncias, abrir caminhos e estender fronteiras econômicas, consolidando, definitivamente, os alicerces da Nação. O verdadeiro sentido de brasilidade é a Marcha para o Oeste”. Saem as lendas dos portais dimensionais e entra em cena o trabalho duro de jovens e homens anônimos que, sem saber, se tornavam os novos bandeirantes do Brasil.

 

Como enumera o antropólogo João Pacheco de Oliveira, no prefácio do clássico Marcha para o Oeste: a epopeia da Expedição Roncador-Xingu, de Orlando e Cláudio Villas-Bôas, a expedição, que teve início em 1945, foi responsável pela abertura de 1.500 km de picadas e 19 campos de pouso; construção de 42 cidades e vilas; contato com 18 povos indígenas, entre eles os Txucarramãe e os Txicão; e a criação, quase 20 anos depois, do Parque Indígena do Xingu.

 

A travessia mais famosa ficou conhecida como Expedição Roncador-Xingu (ERX), encabeçada pelo coronel Flaviano de Matos Vanique. É no trecho Rio das Mortes-Roncador-Kuluene que os Villas-Bôas fazem, por exemplo, o primeiro contato com os índios Xavante. O bandeirantismo ganhava nova roupagem e o Brasil dava início a seu segundo projeto de colonização, com a criação da Fundação Brasil Central, que atuava no planejamento e gestão da ERX.

 

O marco zero daquela longa travessia, de interesse militar desde seu início, em 1943, foi estabelecido em Aragarças, município goiano que faz limite com Barra do Garças e nasceu como povoado garimpeiro, às margens do rio Araguaia. Foi na Vila Ceará, que hoje é uma curiosa mistura de casas de alto padrão com área rural, que surgiu, impulsionada pela Marcha para o Oeste, o planejamento de Aragarças, considerado o primeiro núcleo habitacional da FBC, com casas germinadas, equipadas com ruelas de fuga, ao fundo. Não é raro escutar histórias de que Aragarças teria sido escolhida como um ponto de apoio e de fuga para a presidência da época, no caso de um bombardeio ao Rio de Janeiro, durante a 2ª Guerra Mundial que acontecia, enquanto o Brasil se redescobria no Centro-Oeste.

 

Tasadays: afinal, quem são?

 

Hoje em dia, a cidade guarda pouco da época, além de uma chaminé em ruínas, usada para fabricar material usado na construção das novas instalações da cidade-base que daria apoio à Marcha, e a réplica do Cruzeiro da Vila Militar, onde foi rezada a missa de inauguração da empreitada, cuja única peça original é o pedestal.

 

A história da região pode ser conhecida no discreto Museu da Casa de Pedras, em Aragarças, em Goiás, cuja proprietária Zelia dos Santos Diniz, professora e estudiosa da região, mantém um pequeno acervo com objetos históricos como peças indígenas dos Bororos, o cofre com a contabilidade da Fundação Brasil Central e alguns radiotransmissores da época da Marcha. “Aquele que passa, se cala e se retira fica esquecido. Nessa história não há heróis. Heróis são todos aqueles que tiverem a coragem de enfrentar o desafio”, desabafa Zelia ao citar o esquecimento daqueles que, segundo ela, realmente fizeram a Marcha para o Oeste acontecer. E assim, a Serra do Roncador continua contando suas histórias. Inventadas ou vividas.

 

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