Tiradentes: do abandono a cidade turística

Com 800 imóveis e 10 monumentos tombados, a localidade mineira que já foi conhecida como a “cidade fantasma” é um dos primeiros locais históricos tombados pelo Iphan, em virtude de seu acervo que é um dos mais bem preservados do Brasil

Por Wagner Ribeiro | Foto: Eugênio Sávio | Adaptação web Caroline Svitras

 

Protegida pela Serra de São José, a cidade de Tiradentes, em Minas Gerais, mantém preservada umas das maiores riquezas arquitetônicas do barroco colonial. A cidade foi a maior produtora de ouro de superfície do país, cerca de 400 quilos do metal precioso ainda deslumbra os visitantes da Igreja de Santo Antônio, a matriz, com ornamentos brilhantes e muito bem zelados. Olhando Tiradentes hoje, é difícil acreditar que a cidade ficou completamente abandonada por mais de 100 anos, até ser redescoberta por um grupo de artistas do modernismo, logo após a Semana da Arte Moderna de 1922.

 

A história de Tiradentes é marcada pela cobiça, pela busca incessante por ouro, ao ponto de ser quase impossível falar sobre ela sem esbarrar no metal. O início da cidade está relacionado à ocupação da região de Rio das Mortes pelos paulistas, que exploravam-na com objetivo de capturar índios para o trabalho escravo em São Paulo. Em 1702, João de Siqueira Afonso, tido como fundador do arraial, no lugar de índios, descobriu a existência de ouro nas encostas da Serra de São José. “Estabeleceram, então, um arraial batizado com o nome Santo Antônio do Rio das Mortes”, relata o historiador Luiz Cruz.

 

Matriz de Santo Antônio | Foto: Cláudio Lopes

 

Dois anos depois, em 1704, também foi encontrado ouro do outro lado do Rio das Mortes, o local foi batizado de Arraial Novo, onde hoje está localizada a cidade de São João Del Rei. Já que passou a existir o Arraial Novo, o antigo Santo Antônio do Rio das Mortes passou a se chamar Arraial Velho de Santo Antônio. Em 1718, ele foi elevado à Vila de São José Del Rei, em homenagem ao, até então, príncipe dom José. Nesse período, a cidade mantinha uma forte mineração de ouro e, com isso, foi expandindo o território e dando início às belas construções. A vila continuou se desenvolvendo e crescendo até que o ouro começou a ficar escasso.

 

Rua Direita | Foto: Cláudio Lopes

 

Na década de 1760, a mineração de ouro já era precária. Mas a Coroa portuguesa não deixou de cobrar os impostos. O sentimento de revolta começou a se instalar. Um dos grandes agitadores da insurreição contra a exploração portuguesa foi Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que daria início ao movimento que ficaria conhecido como Inconfidência Mineira. Um dos grandes apoiadores da causa liderada por Tiradentes foi o padre Carlos Correa de Toledo Melo, que assumiu a Vila de São João Del Rei em 1777.

 

Antiga Cadeia | Foto: Cláudio Lopes

 

No sobrado de padre Toledo, onde hoje se encontra o Museu Padre Toledo, foram realizadas muitas das reuniões da Inconfidência, tendo passado por ali, além do alferes Tiradentes, os inconfidentes Capitão José Resende Costa, José Aires Gomes e também os delatores da causa Joaquim Silvério dos Reis e Inácio Correa Pamplona. Em 1779, o visconde de Barbacena ordenou a prisão dos inconfidentes. “Padre Toledo chegou a fugir, mas foi deportado para Portugal, onde morreu em clausura”, conta Cruz.

 

Fracassada a inconfidência Mineira, com o início do século 19, a vila começou a entrar em decadência. Os nobres que fizeram fortuna com o ouro começam a deixar a região, descem para o Vale do Paraíba, levando os escravos, para investir na plantação de café. A Vila de São José Del começa a ficar vazia, os grandes casarões da arquitetura barroca setecentista são abandonados, restando apenas poucos moradores de baixo poder aquisitivo. Em 1889, já no período republicano, é decretada a mudança do nome de Vila de São José para Tiradentes, em homenagem ao mártir da Inconfidência Mineira.

 

Rua Direita, história preservada nos mínimos detalhes | Foto: Cláudio Lopes

 

Os poucos moradores que restaram na região foram contra a mudança de nome, devido à devoção ao santo que dera nome à vila, mas o nome foi mudado assim mesmo, e seria um importante elemento para a recuperação da cidade do futuro, como destino turístico. “Já com o nome Tiradentes, a cidade mergulhou em completo esquecimento por mais de 100 anos”, comenta o historiador Cruz. O redescobrimento da cidade de Tiradentes para o Brasil aconteceu em 1924, devido à divulgação de um grupo de artistas que lideraram a Semana da Arte Moderna de 1922, entre eles Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e o poeta franco-suiço Blaise Cendrars.

 

“A cidade de Tiradentes estava tão deserta que Oswald de Andrade escreveu, mais tarde, que em Ouro Preto havia vida, mas Tiradentes estava morta”, lembra Cruz. “De fato, Tiradentes havia se tornado uma espécie de cidade fantasma.”

 

Fim de tarde na Matriz de Santo Antônio… | Foto: Cláudio Lopes

 

A redescoberta de Tiradentes

Em 1924, um grupo de intelectuais paulistanos ligados à Semana da Arte Moderna de 1922, organizou uma viagem às cidades coloniais brasileiras. O intuito era redescobrir o Brasil com os olhos do modernismo. Os artistas do modernismo vestiram roupa de redescobridores do Brasil colonial. As cidades coloniais mineiras ofereceram grande e farta matéria-prima de reflexão para a arte moderna.

 

Em Tiradentes, eles encontraram a beleza natural e bucólica da Serra de São José e uma vasta produção arquitetônica e artística da cultura mineira do século 18. Esta viagem constituiu um marco importante, principalmente, na pintura de Tarsila do Amaral e na poesia de Oswald de Andrade. Por meio dessa redescoberta, das belezas do período colonial mineiro em Tiradentes e São João Del Rei, deu-se início ao movimento artístico pau-brasil, cujo objetivo era redesconstruir os séculos 18 e 19 para atribuir à arte produzida no país um novo sentido e uma dimensão genuinamente brasileira.

 

Rua do Chafariz| Foto: Cláudio Lopes

 

Em linhas gerais, o grupo de artistas do modernismo foram os primeiros a redescobrir Tiradentes e apresentar a riqueza histórica do local para o restante do Brasil. Em 1937, 13 anos após a ida dos modernistas, foi fundado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). No ano seguinte, em 20 de abril de 1938, o instituto tombou todo o conjunto arquitetônico e urbanístico da cidade de Tiradentes.

 

Mas, como explica o historiador Luiz Cruz, a sede do Iphan ficava no Rio de Janeiro, isso dificultava as ações de preservação do patrimônio, tanto que algumas obras acabaram se perdendo. “Só foi instalado um escritório do Iphan em Tiradentes no começo de 1980, mas, uma década antes, alguns empresários de turismo já haviam se estabelecido na região”, diz Cruz. “Começou aí o trabalho de divulgação dos atrativos da cidade para atrair  turistas interessados na riqueza histórica de Tiradentes.”

 

Prédio do Iphan

 

 

Tiradentes renasce com o Turismo

Mesmo depois de Tiradentes ter sido redescoberta pelos intelectuais modernistas e completamente tombada pelo Iphan, a cidade esbarrava em outro problema: o desenvolvimento econômico. A solução acabou sendo encontrada por um grupo de empresários no início da década de 70, principalmente pelo inglês John Parsons, casado com a brasileira Anna Maria Parsons, fundadores da pousada Solar da Ponte, uma das primeiras de Tiradentes.

 

Maria Fumaça, uma volta ao passado

 

A natureza que cerca a cidade era deslumbrante e a riqueza histórica era fundamental para compreender a história do próprio Brasil. “Diante disso, era natural que o turismo histórico e ecológico se tornasse a potência econômica da cidade”, analisa Ted Dirickson, filho do casal Anna Maria a John Parsons, e organizador do Tiradentes Mais, um grupo de empresários que, com recursos próprios, uniram-se para continuar divulgando Tiradentes ao Brasil.

 

A sedimentação de Tiradentes como destino de viagem para os interessados em belezas naturais e em turismo histórico foi um elemento fundamental para fechar, até agora, as cinco fases principais da história da cidade. Primeira, a ascensão com a descoberta do ouro; segunda, a decadência devido à escassez do metal; terceira, o abandono e a transformação de Tiradentes em cidade fantasma; quarto, a redescoberta pelos modernistas e, quinta, o renascimento econômico da cidade.

 

Chafariz de São José

 

Com 800 imóveis e 10 monumentos tombados isoladamente pelo Iphan, cerca 80% da economia de Tiradentes é baseada no turismo. Pessoas de todas as partes do mundo visitam a cidade para conhecer a história preservada na arquitetura, cujas principais atrações são a Igreja de Santo Antônio, construída entre 1710 e 1750, em estilo barroco, e que ainda hoje possui mais de 400 quilos de ouro em sua decoração. A Igreja de São João Evangelista, obra do século 18 em estilo rococó. A Igreja Nossa Senhora das Mercês, do fim do século 18 e que possui preciosas pinturas rococó do artista Manoel Victor de Jesus. O Museu Padre Toledo, o mais importante prédio civil de Tiradentes, e o Chafariz de São José, datado de 1749. Mas essas são só as atrações principais. Visitar Tiradentes é como mergulhar na história viva do Brasil colonial. Essa é uma viagem  que os brasileiros deveriam se dar o presente de realizar!

 

Adaptado do texto “Acervo Histórico”

Revista Leituras da História Ed. 53