Veneração da serpente nas religiões

Da Redação | Foto: Gustave Doré | Adaptação web Caroline Svitras

 

A serpente é um símbolo poderoso em várias religiões. No judaísmo e no cristianismo, por exemplo, está associada ao mal, por lembrar o fálus e o desejo sexual. No judaísmo, está ligada à transcendência humana pela ligação com Deus, acima do pecado do comportamento sexual, relacionado a Adão e Eva.

 

No cristianismo, a serpente, como símbolo, é menos empregada. Ela aparece no Evangelho de São Marcos (Capítulo 16, versículos 17 e 18): em que se promete que sinais acompanharão os que acreditarem, um dos quais “pegarão nas serpentes; e… não lhes fará dano algum”. É exatamente essa promessa estranha o que justifica o culto à serpente nos EUA – praticado em mais de 30 congregações diferentes por fundamentalistas que aceitam seus ensinamentos divinos, se iniciou nas igrejas do Tennessee e Kentucky, se espalhando pelos estados vizinhos, especialmente a Carolina do Norte e a Virgínia. Apesar das leis que proíbem esse culto, ele permaneceu na ilegalidade em alguns Estados norte-americanos.

 

Os praticantes comumente consideram-se santos que experimentaram a benção do Espírito Santo pela segunda vez – o que lhes confere completa santificação. Seus serviços religiosos incluem práticas dramáticas: palavras em línguas desconhecidas, danças em êxtase com pulos, rodopios e movimentos retorcidos. Essas congregações independentes são chefiadas localmente e servidas por evangelistas autoapontados ou ali reconhecidos. Não constituem um movimento organizado, com administração centralizada e se ligam, no máximo, por líderes evangelistas itinerantes.

 

 

Fé e razão

A manipulação de serpentes parece ter se iniciado em 1909. Nesse ano, George Went Hensley decidiu que as escrituras determinavam que os crentes deveriam segurar as serpentes, o que deu início a essa prática nas igrejas do Tennessee e Kentucky, espontaneamente, em igrejas da seita Chama Sagrada.

 

Os praticantes da igrejas americanas que usam as cobras durante o culto | Foto: Reprodução/Pinterest

 

É verdade que alguns índios norte-americanos praticavam uma dança da serpente, e que povos primitivos ligavam o réptil ao ato de fazer chover. Mas essa tradição não parece ter influência nessa seita, pois entre os que se dedicam ao culto da serpente, não se vê qualquer contato com os povos primitivos que praticavam tal dança. O mais provável é que o uso do animal tenha a sua origem na interpretação e posterior obediência do texto literal da Bíblia. Algo que leva a conclusões além da compreensão racional humana.

 

 

Perigo real

Não é qualquer serpente utilizada nas cerimônias, mas as venenosas: cobra d’água, cascavel, entre outras. Enquanto elas estão dentro das caixas, hinos são entoados, sermões são pronunciados, curas são anunciadas até atingirem um estado de êxtase. Em seguida, as cobras são manipuladas, passando de mão em mão. O primeiro a pegar uma delas sempre provoca admiração e, em alguns serviços, feixes de serpentes são espalhados por todos os lados – e até jogadas no auditório para serem acariciadas. Muitos adeptos as passam por dentro da camisa e os mais ousados as beijam. Muitos admitem temer as serpentes, mas as manipulam porque o Senhor lhes ordenou e consideram sua atividade como prova de sua condição de santificados.

 

As cobras são manipuladas por 15 a 20 minutos, período que marca o ápice do serviço, que pode durar até 4 horas. O mais assustador é que as presas venenosas das cobras nunca são retiradas e depois que são utilizadas na cerimônia, são devolvidas à natureza. Já houve caso de mordedura, mas o participante se recuperou. No entanto, também já ocorreram casos fatais, como o de Hensley, em 1955, já com 70 anos, sofreu uma picada fatal durante uma cerimônia na Flórida. Os devotos acreditam que a recuperação dos que foram mordidos é milagre de Deus. Por outro lado estão prontos a morrer quando o Senhor decidir, pois os santos irão para o trono do céu.

 

Atualmente, a maioria das congregações que se dedicam ao culto da serpente estão localizadas em regiões remotas, como as Montanhas Apalaches. Considerada “santificada”, lá florescem grupos extremados e muitas seitas que se dedicam ao êxtase da manifestação do Espírito Santo, com livre expressão de seus impulsos.

 

O fundador da manipulação de cobra, George Went Hensley | Foto: Shelby Lee Adams

 

É uma região extremamente pobre, cujos habitantes não têm trabalho e a educação é quase nula. Talvez, por isso, essa religião pretenda colocá-los em pé de igualdade com os grupos de situação econômica melhor. As cerimônias são verdadeiros atos de desafios ao perigo. Todos querem demonstrar maior vigor e coragem ao manipular as serpentes venenosas.

 

 

Simbolismo e magia

Temidas, amadas ou idolatradas… as serpentes acompanham a trajetória humana desde a origem do mundo. Em várias culturas, diferentes religiões e crenças, ela se sobrepõe com o seu ar impetuoso, transformador e voluntarioso,  envolvendo quem a vê e elevando seus adoradores aos espíritos superiores. “A serpente é um elemento poderoso que significa libertação. Seu símbolo é ligado à transcendência por ser, tradicionalmente, uma criatura do mundo subterrâneo, portanto, um ‘mediador’ entre dois modos de vida. Esta é uma característica universal do animal como símbolo de transcendência. Essa criatura vinda, em sentido figurado, da profundeza da velha Mãe Terra é a manifestação simbólica do inconsciente coletivo”, diz José Odair da Silva, historiador.

 

Pintura rupestre de cobra encontrada na Austrália | Foto: Shutterstock

 

O encanto entre os homens e serpentes é mantido desde o período paleolítico da pré-história. Nessa época, os homens já imprimiam, nas cavernas, figuras que representavam esses misteriosos seres. Entretanto, universalmente esse ser carrega o simbolismo da magia e transmutação. “Ela é a transcendência e representa o caráter particular de uma intuição”, exemplifica Odair. Para as culturas da pré-história, a serpente  era um elo entre o mundo humano e o espiritual, ela era a passagem, a mutação personificada em seu comportamento rápido, rasteiro e troca de pele. Todos esses significados foram trazidos para a nossa cultura e absorvidos por outras. E a eles também foram somados outros simbolismos e conotações.

 

 

Ambivalência

Por pertencer ao mundo subterrâneo, a serpente carrega características benéficas e maléficas ao mesmo tempo. Seus dotes são tão especiais que alguns povos se vestem como elas para alcançarem o mundo sobrenatural e, assim, terem uma visão mais aguçada do mundo além-terra. Isso é o que fazem os xamãs da Sibéria, que usam indumentárias de serpentes e, assim, adquirem a sua potencialidade.

 

Para os xamãs, a medicina de cura da serpente está associada ao poder da transmutação que ergue a vida e cria novas realidades. “É a mensageira da cura que anuncia a transmutação dos nossos pensamentos. Ela acontece quando aprendemos uma lição que nossa alma pede”, relata Denis Rojas, professor de xamanismo. “Com a serpente, abandonamos velhas situações, nosso ser consegue assimilar lições que precisamos aprender, as quais nos possibilita passar para um novo estágio na estrada da vida”. A serpente, com seu poder criativo e regenerador nos faz conhecer valores profundos do nosso ser. “Pessoas que conseguem liderar multidões pelo fascínio quase hipnótico exercido sobre elas têm a serpente como sua aliada de poder. Músicos, artistas, grandes líderes de nações, são alguns exemplos”, assegura Rojas.

 

Xamã da Sibéria durante um ritual | Foto: Reuters/Ilya Naymushin

 

A sensualidade também pertence à medicina da serpente. Com tantos atrativos, os xamãs não são os únicos a aproveitar essa energia. Na Índia, elas também são veneradas e carregam um simbolismo sexual, como um ser semidivino, e são chamadas de Nagas. Elas sempre se casam com homens mortais e só quando traídas se transformam em seres demoníacos. “O fogo serpentíneo é uma energia que concentra poderosas  energias sexuais e que, quando corretamente direcionada, desperta na pessoa um poder realizador e criativo sem limites”, explica Rojas.

 

Os iogues hindus, em seu estado de transe, ultrapassam as categorias normais do pensamento, pelo poder atribuído à serpente alguns chegam a descobrir a natureza da morte. Já na África, as serpentes são temidas e respeitadas, tanto que, quando alguém mata uma cobra píton é queimado vivo. Em alguns relatos, o explorador Richard Burton presenciou a execução de um matador de pítons.

 

Os africanos acreditam que as serpentes são dotadas de um espírito muito forte e especial, por isso preferem aplacar sua ira, mas jamais matá-las. Para os guaranis, esse animal é o eixo por onde se ergue o ser humano, a coluna vertebral. Na sua base, está o poder gerador de vida da Grande Mãe. Portanto, não é por menos que sua presença é forte também nas superstições e crenças populares. Uma delas diz que, se uma mulher grávida for assustada por uma cobra, a criança nascerá com problemas na garganta. Em outra crença norte-americana, os guizos de uma cascavel, quando colocados na água da parturiente, facilitarão seu parto. Em algumas regiões da Inglaterra acredita- se que o couro seco de uma serpente protege a casa contra o fogo.

 

 

Poder mitológico

Mas é na mitologia que a serpente possui uma presença determinante – e em quase todas as culturas sua aparição é fundamental. Elas podem vir, muitas vezes, como monstros, deusas ou acompanhantes delas. Em alguns casos, como o de Esculápio, o deus romano da medicina, a serpente aparece como o seu símbolo. “Trata-se originalmente de uma serpente não venenosa que vivia em árvores, assim como a vemos, enrolada no bastão do deus da medicina. Ela parece representar uma espécie de mediação entre a Terra e o céu”, explica José Odair.

 

Shiva, uma das mais poderosas divindades hindu | Foto: Creative Commons

 

O caduceu, símbolo da medicina, é uma haste onde duas cobras se entrelaçam ao seu redor. Esculápio, filho de Apolo, fundou a Medicina. Ele possuía sacerdotes que faziam curas e diagnósticos, inclusive por meio de sonhos. Aliás Apolo, seu pai, travou uma grande luta contra um monstro-serpente. Como se vê, ela vaga livremente entre o bem e o mal.

 

Entre outros povos como os astecas e os maias, a serpente aparece como o deus Quetzalcoatl, a serpente emplumada. O réptil é uma combinação com uma ave e representa uma fusão entre o céu e a Terra. Um dos deuses mais notáveis que também apresenta essa forma é o deus Da – ou Dan de Daomé, na África, visto como uma serpente que mantém a cauda na boca. Na Índia, Shiva, uma das mais poderosas divindades hindu, é sempre retratada tendo, a seu lado, uma naja, símbolo do seu poder de vida e morte (transmutação) sobre todas as coisas.

 

Quetzalcoatl, a “serpente emplumada” divindade cultuada pelos astecas e toltecas | Foto: History Photograph – Quetzalcoatl, Aztec Feathered Serpent

 

Não podemos nos esquecer das serpentes najas da Índia antiga, encontramo-las também na Grécia, entrelaçadas no bastão do deus Hermes. “Existe uma antiga herma (marco de pedra representativo de Mercúrio ou Hermes) grega com o busto dele, tendo, de um lado, as serpentes entrelaçadas e, do outro, um falo em ereção”, lembra Odair.

 

As serpentes também representam o ato sexual, e o falo em ereção é um motivo sexual, então, podemos tirar conclusões a respeito da ligação entre serpentes, falo e fertilidade. Assim, o deus Hermes, sendo um mensageiro, conduz do mundo conhecido para o desconhecido, buscando uma mensagem espiritual de libertação e de cura. As serpentes podem ser monstros na mitologia, como é o caso da Medusa. A história dela começa quando era uma bela mulher e fez amor com Poseidon no Templo de Atenas, que não a perdoou, e então, resolveu transformá- la em uma criatura pavorosa. Outro monstro-serpente é Equidna, que é metade mulher e metade cobra. E a Hidra de Lerna, gigantesca, com muitas cabeças – sendo que cada vez que uma delas era decepada, nascia-lhe mais duas no lugar. Além disso, Hidra possuía um caranguejo gigante como escudeiro.

 

MEDUSA / Muitas vezes, as serpentes não são tão “boazinhas” e carregam a energia do mal em forma de monstros. Sob essa forma, elas estão sempre lutando contra os heróis mitológicos e disseminando o malefício. Nesse caso, podemos citar Medusa, que ficou conhecida pelos seus longos cabelos de serpentes. Quando olhava para alguém, esse monstro-serpente podia transformar a pessoa em pedra. | Foto: Shutterstock

 

Em outras culturas não são poucos os enredos que envolvem heróis lutando contra serpentes-monstros. Entre eles, está o deus Seth, do Egito, que assumiu os atributos de uma serpente-monstro, Tifon, e foi vencido por Zeus em uma grande batalha. Mais tarde, ficou bem conhecido o episódio onde Hércules esgana Hidra, a serpente de cem cabeças. E Perseu cortou algumas cabeças de Medusa. Outros heróis, como o japonês Susanoo, lutou contra uma serpente de muitas cabeças. Já Singurd, do mito escandinavo, lutou contra a serpente Fafnir. E o também deus escandinavo, Thor, continua batalhando contra Midgard, a serpente que se enrosca ao redor do mundo. Aliás, Midgard não é a única serpente a sustentar o mundo, mas Sesha, a serpente senhor das Nagas, também o faz enquanto Vishnu dorme em períodos de paz. E claro, nenhuma delas é maligna.

 

Adaptado do texto “Chama sagrada?”

Revista Leituras da História Ed. 96