Vikings: os reis dos mares

Tantos adjetivos nada agradáveis, no entanto, a história dos guerreiros dos mares, os vikings, é bem mais vasta e repleta de surpresas, algumas, acredite ou não, até positivas

Por Ávany França | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Com uma biografia quase sempre delineada pela perspectiva dos seus inimigos, não seria fácil se desvencilhar do estereótipo negativo empregado aos guerreiros nórdicos. Mencionados em histórias de terrorismo e invasões, os vikings foram, sem sombras de dúvidas, os principais vilões entre os séculos 8º e 11 d.C. da Europa. Pelos mares do Hemisfério Norte disseminaram o terror, destruindo, assaltando e, principalmente, matando. No entanto, será que não há nada de bom a dizer sobre os senhores escandinavos?

 
Há um lado pouco explorado ou, despercebidamente, ignorado sobre os vikings, principalmente no que tange habilidades com madeira, metais e na construção dos sofisticados barcos alongados. Foram eles também comerciantes perspicazes que promoveram as principais rotas mercantis europeias. Muito desse legado se encontra em museus escandinavos como o Viking Ship Museum, em Oslo, na Noruega, assim como em outras capitais europeias.

 

 

 

Quem foram eles, afinal?

Os vikings foram os protagonistas das principais conquistas da Idade Média. Responsáveis por fundar e colonizar povoados, além de mostrarem talento para as táticas marítimas. Para alguns historiadores, a saga dos povos do norte da Europa representa um marco na navegação. Para descortinar a trajetória desses guerreiros, é preciso considerar o contexto histórico em que eles estavam inseridos. Primeiro, e mais importante, os vikings, provenientes dos países escandinavos (Suécia, Noruega e Dinamarca), eram pagãos; o que explica a falta de qualquer apego religioso. De fato, eles não estavam nem um pouco interessados em compartilhar do fervor religioso que vinha se firmando desde o século 6º d.C. na Europa Medieval. O segundo aspecto parte do princípio que os vikings, até onde se consegue encontrar nos livros, não decidiram sair para aterrorizar o mundo de uma hora para outra.

 
Uma das versões mais aceitáveis para o êxodo é creditada por um problema social de superpopulação e conflitos gerados pela falta de alimentos. É claro que não se pode ignorar o empurrãozinho gerado pela ganância em compartilhar das riquezas que os países europeus começavam a produzir, sobretudo provenientes das atividades comerciais. É importante pontuar também que os vikings não eram os únicos a apoderar-se da violência em detrimento de interesses próprios. Gregos, romanos e egípcios também promoveram barbaridades nos tumultuados anos medievais. Carlos Magno, rei dos francos, por exemplo, teria comandado um massacre e a decapitação de quase 5 mil saxões durante o mesmo período. Lombardos, anglos e saxões, assim como os visigodos, também completaram o círculo bárbaro recorrente durante boa parte da Idade Média. Nesse ambiente hostil, a era viking foi se configurando, o que acabou influenciando no comportamento agressivo e a busca por outros territórios.

 

 

 

A má fama

Se beneficiando da reputação que se espalhara rapidamente por toda a Europa, os guerreiros escandinavos se utilizaram de uma vantagem física para impor força e assustar os povos de outras regiões do continente europeu. Com estatura masculina chegando a 1,80 metros, não era difícil aterrorizar os vizinhos de altura bem menos expressiva. Por virem de países extremamente frios, pela proximidade com o Polo Norte, os vikings se utilizavam de vestes pesadas, quase sempre de couro animal; as barbas longas também agregavam ao estilo rústico. Dessa maneira, o estereótipo de homens maus foi rapidamente disseminado pela Europa: feios, agressivos, sanguinários e destruidores de mosteiros.

 

Reprodução de uma batalha viking no Jorvik Viking Centre, no Reino Unido | Foto: York Archaeological Trust

 
Para completar o portrait viking, acrescentam-se as armas. Esses elementos foram tão bem empregados que, ainda hoje, é difícil desvincular o forte estigma empregado ao povo viking. Aliás, fazendo jus a um bom “boca a boca”, alguns elementos foram sendo agregados à caracterização dos vikings, como é o caso do insistente erro ao retratá-los usando elmos com chifres. Segundo os principais estudos sobre o tema e todo o acervo referente à cultura viking, jamais foram encontrados evidências dos tais chifres. Diante de um currículo tão negativamente explorado, esquece-se também que muitos dos vikings eram, na verdade, simples agricultores e artesãos e nem todos eram guerreiros.

 

 

Aventureiros e destemidos

Se, por um lado, o estilo brutamontes foi amplamente pontuado na história como um traço negativo, por outro, foi justamente ele que garantiu aos guerreiros dos mares uma posição de destaque como cobradores de impostos.

 

Aliás, vale mencionar que outro traço característico dos vikings era a habilidade em converter situações desfavoráveis. Foi se utilizando dessa astúcia que eles, de invasores, tornaram-se parceiros comerciais e, por fim, protetores de Constantinopla, atual Istambul.

 

Uma reprodução fiel dos vikings no Jorvik Viking Centre, no Reino Unido | Foto: York Archaeological Trust

 
Por volta do século 9º d.C., foram eles os maiores responsáveis pela proteção do Império Bizantino. Após algumas tentativas frustadas de dominar o solo turco, os vikings acabaram se infiltrando, utilizando-se especialmente de suas competências mercantis e militares. Nos séculos seguintes, foram ganhando notoriedade entre os imperadores bizantinos e passaram a compor o Exército local chamado de The Varangian Guard. E claro, o posto de destaque na guarda turca foi fruto do respeito que os vikings impunham por toda a Europa, embora por meios contestáveis.

 

Marco do assentamento viking em Dublin, Irlanda | Foto: Leopoldo Burda

Foram também os vikings que, impulsionados pelas forças dos ventos e pelo conhecimento do mar, acabaram desembarcando em solo irlandês, primeiramente, alastrando-se por mosteiros e utilizando-se do Rio Liffey como ponto de descanso. Porém, aproveitando-se da estrutura fragmentada da Irlanda, os vikings viram na terra celta uma oportunidade não apenas de saque, mas como também de assentamento. E assim, durante 300 anos, eles foram os responsáveis por promoverem algumas regiões irlandesas, fundando as principais cidades do país. Dublin, por exemplo, tornou-se um proeminente porto comercial, graças à articulação dos guerreiros nórdicos.

 
E o que seria dos portugueses sem o bacalhau? Pois, até o bacalhau tem um capítulo especial na biografia dos guerreiros escandinavos. Na época em que Portugal nem mesmo era um país e que o sal era uma especiaria, foram eles, os vikings, os pioneiros no consumo do peixe após a secagem. Para sobreviverem às longas viagens em alto-mar, eles adotaram o hábito de secar o peixe ao sol, até que eles perdessem a cabeça e endurecessem o suficiente para serem consumidos em lascas. Foi então que, por volta do século 10º, logo após alguns ataques sem sucesso na Península Ibérica, que o peixe seco se tornou moeda de troca. O bacalhau acabou se popularizado por várias regiões da Europa e até mesmo no Canadá. No entanto, foram os espanhóis os responsáveis pelo comércio do bacalhau curado e salgado, anos mais tarde.

 

 

Barcos, um capítulo à parte

É sabido que Cristovão Colombo foi uma das mais proeminentes figuras nos anais da navegação mundial, no entanto, o que poucos se dão conta é que 500 anos antes de Colombo fazer a sua primeira viagem transatlântica, os vikings já haviam efetuado a mesma proeza em seus barcos alongados e de aparência simplista. Apenas aparência, pois os barcos que viraram a principal marca da era viking eram verdadeiras obras de arte, não somente pelo cuidado com que foram desenvolvidos e pela riqueza de detalhes, mas também pela engenharia que imprimiam. Arqueólogos já desenterraram exemplares de 30 metros de comprimento. Capazes de carregar até 50 homens, eram verdadeiras engenhocas ágeis, velozes e principalmente resistentes.

 

Parque histórico nacional de L’Anse aux Meadows, Canadá; evidências da presença viking na América | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

 
A tecnologia empregada pelos nórdicos na construção dos barcos envolvia o emprego de carvalho e pinho, distribuídos estrategicamente em fileiras de tábuas. Um conjunto de remos também era acoplado à embarcação, sendo utilizado na falta de ventos. Caprichosos, eles também se preocuparam com a estética dos barcos que, quando ancorados, eram facilmente identificados pelas laterais coloridas, decoradas com escudos de cores vivas. Escavações realizadas principalmente na Escandinava mostraram que as naus vikings foram projetadas para atender a diferentes necessidades.

 
A naus Knorr, por exemplo, exibe engenharia detalhista, que permitia que o casco do barco deslizasse sobre as bravas ondas do Hemisfério Norte e suportassem longas viagens. Muitos desses exemplares, que ainda continuam firmes em museus escandinavos, foram encontrados juntamente com os restos mortais de seus donos, evidenciando que as embarcações também possuíam função de túmulo, para os guerreiros de maior destaque.

 

Barco Oseberg, um dos primeiros exemplares da era viking | Foto: Ávany França

 
Acredita-se também que, com o corpo, os vikings enterravam pertences de valor do defunto, incluindo o próprio barco. Grande parte do sucesso dos vikings durantes as invasões se deve prioritariamente pela facilidade de entrada e saída nos lugares dos ataques, já que eles não dependiam de portos para ancorar. Foi em um desses exemplares, chamados de Dragonships, ou Drakkar (barco-dragão) – nome justificado pela imagem da cabeça de um dragão na proa–, que o viking Leif Eriksson e sua tripulação conquistaram a marca histórica de serem os primeiros europeus a desembarcarem na costa americana.

 

Barco Gokstad exposto no Viking Ship Museum | Foto: Eirik Irgens Johnsen/UiO

 
Uma das evidências dessa passagem foi revelada na década de 1960, quando escavações realizadas na costa leste do Canadá, na Ilha Newfoundland, revelaram um acampamento viking com as mesmas características de outros já confirmados na Groenlândia Nórdica e Islândia, todas datadas do século 11. O sítio, que hoje recebe o nome de L’Anse aux Meadows, foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1978.

 

 

Tesouro viking

E falando em habilidades, outra faceta pouco explorada na história dos vikings é a supremacia artesanal. Além de agricultores e excelentes navegadores, eles foram também ferreiros excepcionais. Alguns desses artefatos continuam sendo desenterrados em toda a Europa, como reportado em 2011, quando, durante uma viagem de exploração, o caçador de metais preciosos Darren Webster encontrou mais de 200 peças em prata, na região de Cumbria, Reino Unido. Braceletes, pequenas ferramentas e principalmente moedas, algumas, segundo especialistas do The British Museum, jamais vistas. Inclusive, eis mais uma especialidade dos vikings: a confecção de moedas. Apesar de se utilizarem de vários utensílios e até alimento como moeda de troca, os guerreiros nórdicos também cunhavam as próprias moedas, sobretudo em prata e ouro. Foram também elas uma das principais ferramentas que permitiu mapear a rota dos vikings pelo mundo, já que nessas descobertas foram encontradas moedas de diferentes partes do continente europeu.

 

Peças de arte encontradas durante escavações na Noruega | Foto: Ove Holst/UiO

 
As muitas peças em metais encontradas ao longo da história também exibem a precisão e a riqueza de detalhes dos exímios ferreiros vikings. Em 2012, arqueólogos dinamarqueses encontraram 365 peças da era viking, 60 delas moedas, outros pendantes em formato de martelos, fivelas com desenhos de barcos, além de algumas espadas. Muitas dessas peças fazem parte do acervo do Danish National Museum, da Dinamarca. Utensílios domésticos em madeira também reforçam o talento dos vikings, especialmente na facilidade em dar formas às peças, sejam elas de metal ou madeira.

 

Resquícios da habilidade
com metais | Foto: Eirik Irgens Johnsen/UiO

 
Não é por acaso que os vikings continuam intrigando pesquisadores de diferentes partes do mundo. Ano após ano, exposições são organizadas a fim de apresentar novos achados e desvendar a cultura dos homens que ficaram conhecidos, sobretudo, pela violência de suas ações. É fato, como ressaltou o curador Flemming Kaul, do National Museum of Denmark, que os vikings foram muito mais que assaltantes sanguinários: “Eles fundaram cidades, foram excelentes comerciantes e desbravaram o mundo enfrentando a hostilidade dos mares gelados.”

 
Nas peças exibidas na última exposição temporária sobre os vikings no museu, o curador ressaltou alguns traços das joias vikings: “Eles não foram apenas bons ferreiros, foram, sobretudo, fabulosos artesãos.” As técnicas exibidas nas peças de ouro são de extremo apelo artesanal, incluindo a utilização da técnica da gravatura, supostamente descoberta mais de cinco séculos após a era viking.

 

Espadas vikings no Jorvik Centre | Foto: York Archaeological Trust

Os fatos que circundam a história desse povo são tão intrigantes que, ao longo de toda a trajetória humana, pesquisadores, arqueólogos e estudiosos têm procurado desvendar a complexidade dessa era. Recentemente, o canal de TV canadense History, lançou a série intitulada Vikings, inspirada na história dos guerreiros nórdicos. A diretora do canal, Nancy Dubuc, citou em várias oportunidades a importância do seriado para desmitificar o estereótipo criado em torno dos vikings. Para ela, a realidade do que foi a era viking é muito mais fascinante, complexa e visceral do que as referências que têm sido expostas em todos os tempos.

 
A proposta não é muito diferente no Jorvik Viking Centre, localizado em York, Reino Unido. Pelo centro já passaram mais de 16 milhões de pessoas, em busca do inimaginável universo dos senhores dos mares. No espaço, é possível compartilhar de mais de 40 anos de história, frutos de escavações na região em que os vikings teriam vivido há mais de mil anos. Indo de encontro a essa história desenhada na Idade Média, o British Museum, apresentará a seu público uma das maiores exposições já realizadas sobre o tema. A mostra, que acontecerá de março a junho de 2014, reunirá peças inéditas que vem sendo estudadas nos últimos 30 anos. Novas descobertas que prometem abranger o olhar sobre a identidade viking, desmitificando a já pré-concebida ideia de que os habitantes escandinavos do início do século 8º d.C. e seguintes eram meros abrutes e sanguinários.

 

 

Adaptado do texto “Astutos guerreiros nórdicos”

Revista Leituras da História Ed. 67