Você sabia que a cachaça foi criada no Brasil? Confira

Expectadora das transformações do país, circulou entre índios desnudos e escravos africanos no início do século 16. Já quem diga que foi com ela que dom Pedro I teria brindado a Independência do Brasil, ato repetido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso nas comemorações dos 500 anos do país

Por Por Àvany França | Foto: Ávany França | Adaptação web Caroline Svitras

 

Jeribita, danada, água que passarinho não bebe, marvada, caninha, água-benta são apenas alguns dos sinônimos da cachaça. No papo de cachaceiro, ela quase sempre é o assunto da vez. Muitas vezes, aparece em composições curiosas, misturada a cobras secas, ervas e outras infindáveis fórmulas… O termo “marginal” talvez seja o que melhor possa expressar a jornada da aguardente tupiniquim. Diferentemente de outros destilados, como o conhaque e o uísque, a cachaça nasceu em berço nada esplêndido. Com fama moldada entre engenhos de cana-de-açúcar e no amparo dos negros trazidos da África, foi, desde sempre, considerada bebida de preto e pobre.

 

Especula-se que a cachaça tenha sido experimentada pela primeira vez na cidade litorânea de São Vicente, em São Paulo. Outros atribuem o surgimento do destilado a Itamaracá, em Pernambuco. Há correntes que creem que Porto Seguro, na Bahia, deve receber o título de cidade-mãe da aguardente. Aliás, a água ardente, segundo a sabedoria popular, daria nome ao destilado por conta de suas propriedades curativas.

 

Engenho Espadas em funcionamento na década de 1950, em Pernambuco | Foto: Paulo Camelo (arquivo de família)

 

Em relatos de escravos africanos, é comum encontrar referências da água ardente que caía do teto dos engenhos e, em contato com as feridas, resultado das chibatadas tão comuns nos berços escravistas, provocava ardor, mas também curava. Acredita-se também que o termo “pinga” tenha sido associado à forma com que os escravos acidentalmente teriam descoberto a aguardente da cana-de-açúcar.

 

A espuma de tom esverdeado chamada de “cagaça”, sobras da fervura da garapa, que se acumulava nos grandes tachos de rapadura, era destinada à comida animal juntamente com os bagaços da cana esmagada. Com a ação do tempo e do clima, a cagaça fermentava, o que culminava na sua evaporação. As gotículas se acumulavam no teto do engenho e o líquido começava a pingar, atingindo os escravos que passaram a saboreá-la, batizando-a de pinga pelo fato da bebida pingar.

 

O que há de verdade nessas hipóteses? Quem pode afirmar? Porém, o processo de destilação é tema antigo. Dos egípcios aos turcos, passando pelos gregos, há registros da água que pega fogo, muitas vezes chamada de água que arde. A “ácqua ardens”, também se fez presente no Tratado da Ciência, escrito por Plínio, um filósofo que viveu entre os anos de 23 d.C e 79 d.C. Dessa maneira, a aguardente, que percorria fórmulas da alquimia, chegava às boticas como elixir de longevidade. Mas, é nas mãos dos árabes que surgem os primeiros alambiques rudimentares e, com eles, a aguardente composta à base de licor de anis, o “arak”.

 

Usina de açúcar, por Rugendas, 1835 | Imagem: www.people.ufpr.br

 

A associação com a alquimia e efeitos medicinais garantiu que a aguardente rompesse barreiras, chegando à Europa séculos mais tarde, sendo bastante disseminada como água viva. Na Escócia, a cevada dava vida ao “uísque” e Portugal também criara o seu produto da terra, derivado do bagaço da uva, a bagaceira. Foi assim que os portugueses importaram para a Terra de Santa Cruz a técnica de destilar. E, consequentemente, de gota em gota que caía do teto dos engenhos de açúcar até se perceber que a garapa lançada aos animais fermentava não demorou muito e foi o suficiente para surgir o vinho de cana, a cachaça.

 

 

Período colonial

Com terra fértil, água abundante e clima favorável, o Brasil encheu os olhos dos colonizadores portugueses para o cultivo da cana-de-açúcar. O açúcar, que já circulava pela Europa desde o século 13, proveniente do Extremo Oriente, chegava ao continente em pequenas porções e a preço de ouro. No Brasil, o primeiro engenho que se tem notícia é datado de 1532, no entanto, em menos de 20 anos, o país já se consolidava como o maior produtor de açúcar do Ocidente.

 

Entre a feitura da bagaceira portuguesa nos alambiques, a cachaça foi sendo produzida quase que às escondidas, com a conivência de capatazes, que faziam vistas grossas à produção da aguardente brasileira, já que se beneficiavam com alguns goles da bebida dos escravos. Dessa forma, o destilado, que ganhara dos portugueses o nome de “aguardente da terra”, foi se popularizando e as “casas de cozer méis”, como diziam os escravos e índios, multiplicando-se, assim como as fazendas açucareiras ao redor do Brasil.

 

É praticamente impossível narrar a história  a colonização portuguesa no Brasil sem se deparar com a aguardente da terra. Até Tiradentes teria feito menção da bebida antes de ser enforcado: “Molhem a minha goela com cachaça da terra.” No século 16 e 17, ela acompanhou todo o alvoroço do auge da produção açucareira. No seguinte, acompanhou o grande fluxo de aventureiros que começaram a rumar para Minas Gerais em busca das jazidas de ouro. Tornou-se um produto essencial, pois servia para aquecer o corpo e apaziguar a frustração de dias e até semanas em busca do metal precioso. Foi também uma expectadora ativa da sociedade que emergia naquela época.

 

Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco (retratado por Willem J. Blaeu, 1635, na imagem (acima) são apenas alguns Estados onde havia uma grande concentração de alambiques | Imagem: www.people.ufpr.br

Em consequência da expansão das áreas povoadas, cidades e vilas cresciam rapidamente. Funcionários públicos, comerciantes, profissionais liberais, advogados e juízes compunham a classe média da promissora colônia. É nesse momento que a bebida dos escravos passa a romper barreiras, chegando à mesa de portugueses de estirpe mais baixa, ganhando força e mercado. Com o Rio de Janeiro se tornando sede do governo, aumenta-se também as operações comerciais em seus portos, os alambiques ganham força na região de Paraty e os mesmos navios que chegavam repletos de negros voltavam carregados da aguardente de cana que, na cidade litorânea, ganhou nova roupagem e técnica mais apurada, deixando-a ainda mais saborosa para o paladar da época.

 

Em seu trabalho Álcool e Escravos: o Comércio Luso-Brasileiro do Álcool em Mpinda, Luanda e Benguela e Seu Impacto nas Sociedades da África Central Ocidental, Jose C. Curto explora vastamente a importância do álcool de forma geral, durante as investidas comerciais do século 18. A cachaça acabou superando o vinho nas negociações por uma série de fatores. O primeiro deles por ser mais barato, além de reduzir custos de transporte. Segundo, o vinho deteriorava mais facilmente, já a cachaça, além de mais resistente, ainda enchia os olhos dos fornecedores de escravos, que recebiam mais quantidades da bebida como pagamento.

 

Pintura do século 16 mostra escravos trabalhando em engenho de cana-de- açúcar no Caribe | Imagem: www.klick.com.br / reprodução do livro “Explorers and Traders”

Para a historiadora Telma dos Santos, especialista em temas africanos, a cachaça foi fundamental para a entrada dos comerciantes brasileiros no tráfico de escravos no século 17, facilitando as trocas mercantis com os dignitários africanos, ávidos apreciadores da cachaça nordestina, tida como de melhor qualidade quando comparada às bebidas alcoólicas europeias.

 

O destilado que atualmente possui até dia dedicado a ele, 13 de setembro, seguiu o curso da sua história sempre à margem. Com o forte estereótipo do início, jamais deixou de ser associado à bebida de pobre. Da forma de produção simplista de meados do século 16 até os dias atuais, muita coisa evoluiu, mas a popular pinga continua chegando ao mercado no rol de bebidas de pouco valor. Sua biografia é vasta. É aclamada em canções populares, ingrediente nas fórmulas medicinais alternativas, citada na literatura etc.

Historiadora Telma Santos reforça a importância da cachaça no comércio de escravos do século 17 | Foto: Ávany França

Produto de exportação

Atualmente, o destilado brasileiro cumpre mais uma vez o papel como produto de exportação. Países como Portugal, Estados Unidos, França, Espanha e Itália se renderam aos encantos da aguardente brasileira, mas é a Alemanha o país estrangeiro que mais consume a caninha. Sempre controversa, é objeto de disputa entre alambiqueiros que brigam tanto pelo título de melhor produtor da cachaça artesanal, quanto pelo título de melhor região produtora da aguardente.

 

Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco são apenas alguns Estados onde há maior concentração de alambiques. Em Minas Gerais, na pacata Salinas, a cachaça tem museu e festival mundial dedicado a ela. Foi também em Minas Gerais que o empresário português António Amaral Gomes descobriu a aguardente brasileira. Durante visitas ao Estado mineiro em busca de informações culturais e gastronômicas para o seu Restaurante Uai, em Portugal, segundo ele, o único de comida mineira na Europa, acabou seduzido pela cachaça. Desde então, coleciona todo o tipo de informação sobre o destilado, além de compartilhá-la com membros da Confraria Clube da Cachaça de Portugal, fundada por ele em 2005.

 

Todos os Nomes da Cachaça, escrito pelo pesquisador Messias S. Cavalcante, conta com 8 mil sinônimos para o nome “cachaça” | Foto: Ávany França

 

Os milhares de litros consumidos no exterior é também reflexo do bom momento econômico do Brasil. Porém, assim como no passado, a aguardente da terra continua enfrentando grandes desafios. Nos Estados Unidos, por exemplo, lutou-se por décadas pela adoção do nome Cachaça, como produto genuinamente brasileiro, já que o produto era rotulado no país como “Brazilian Rum”. Conquista esta comemorada pelo segmento em abril de 2013. Desde então, “Cachaça” é marca com todos os direitos de uso exclusivo para o produto fabricado no Brasil, seguindo os padrões de qualidade nacional, devidamente registrada no Alcohol and Tobacco Tax and com Trade Bureau (TTB), órgão do governo americano especializado no comércio de álcool e tabaco.

 

Grandes conglomerados, como a Companhia Müller, comemoram a presença da bebida nacional entre os dez destilados mais consumidos do mundo, segundo dados da Euromonitor (2012). Mas, na prática, grande parte deles é representado por consumidores canarinhos, aqueles que tomam Pitú, Piracicaba, Pirassununga e aquela outra que carrega o slogan de “Boa ideia”, a 51. Para os alambiqueiros, essas não representam a cachaça boa, de qualidade, a artesanal.


Para António Gomes, fundador da Confraria Clube da Cachaça em Portugal, Brasil ainda peca em não divulgar a cachaça como identidade nacional | Foto: Ávany França

Fatores como a melhoria nas condições dos alambiques, o amparo de leis e o apoio de instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) são celebrados pelos produtores. No entanto, mesmo com qualidade melhor, a aguardente brasileira ainda continua longe de ser respeitada por seu próprio povo. Se por um lado, países estrangeiros se renderam à cachaça de boa qualidade, seja ela industrial ou artesanal, ela ainda almeja o dia em que receberá igual respeito e consideração dos brasileiros.

 

Para Gomes, o maior entrave da cachaça ainda é a questão cultural: “Falta investimento do governo brasileiro, assim como a promoção do destilado dentro e fora do Brasil. Os próprios produtores têm dificuldades de acompanhar o boom da cachaça, que passou por um processo de grande dignificação e desenvolvimento no governo do presidente FHC.” Esta não é uma observação apenas do apreciador português. A cachaça ainda está longe de conquistar seu valor como elemento cultural do país. Na sua terra, ela ainda é considerada bebida inferior, cachaceiro é sinônimo de “bebum” e cachaçólogo é profissão pouco conhecida. O ex-presidente Lula, por exemplo, apreciador da boa aguardente, foi chamado inúmeras vezes de cachaceiro no sentido mais pejorativo da palavra. Além disso, só mesmo no país da cachaça uma nação inteira brinda a chegada do ano novo com bebida nacional alheia!

 

 

Adaptado do texto “Genuinamente brasileira”

Revista Leituras da História Ed. 69